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Texto 034 – Os limites da tolerância

Por cada ano que passa, dois milhões de jovens mulheres, entre os 15 e os 25 anos, sofrem a mutilação de uma parte dos seus órgãos genitais. Esta prática tem igualmente o nome de excisão. Em que consiste? Na esmagadora maioria dos casos sem cuidados higiénicos especiais nem anestesia, uma excisora — é quase sempre uma mulher — utiliza uma lâmina de barbear ou uma faca e, na presença de pais e amigos, corta o clítoris e os pequenos lábios da jovem. É frequente os grandes lábios também serem retirados. É a “excisão total” ou infibulação.
Nas últimas décadas, a excisão acontece cada vez mais cedo. Actualmente, a maior parte das vítimas tem menos de um ano. A prática da mutilação genital feminina é uma tradição de vários países africanos (é também praticada na índia, na Indonésia e no Paquistão), embora não da maioria. Pratica-se sobretudo em países que a declararam ilegal: Nigéria, Sudão, Egipto, Somália e Quénia. Noutros países, Mali e Guiné-Bissau, por exemplo, não há qualquer interdição legal.
Por que razão várias etnias e populações inteiras continuam a realizar a mutilação genital feminina? A resposta imediatamente dada é esta: “É o costume. Entre nós, todas as mulheres são excisadas”.
Mas as “razões” variam conforme as etnias (grupos de pessoas que parti¬lham uma mesma língua, hábitos, costumes e valores). Para certos grupos, retirar o clítoris é necessário para que esse pequeno órgão não envenene o bebé no momento do nascimento, não prenda o órgão sexual masculino ou não impeça a relação sexual. Para além destas superstições, há outras justificações a que pode¬remos chamar simbólicas. Certas etnias do Mali, do Senegal e da Mauritânia consi¬deram que a excisão é um acto purificador que dá à jovem o “direito à oração”. Outras afirmam que a excisão é o ritual que assinala a última etapa da vida de uma rapariga antes do casamento. A mutilação genital significa a ruptura dolorosa com a família e com a infância. Através dela a rapariga passa a ser tratada como mulher. Sem a excisão, não alcança esse estatuto nem pode casar-se.
As organizações não governamentais (ONG) e as mulheres africanas que combatem esta prática denunciam-na como estratégia de domínio sexual mascu-lino (como responsável por atrozes sofrimentos e por acentuada mortalidade em bebés e crianças do sexo feminino). A ablação do clítoris retira grande parte da sensibilidade aos órgãos genitais (a mulher perde em prazer o que ganha em fide¬lidade?). Mas não é fácil lutar contra costumes enraizados há milénios.
Haverá uma padrão cuturalemnte neutro de certo e errado?
«Vamos supor que estamos inclinados a afirmar que a excisão é má. Estaríamos nós apenas a impor os padrões da nossa própria cultura? Se o relativismo cultu¬ral estiver correcto, isso é tudo quanto podemos fazer, pois não há um padrão culturalmente neutro a que possamos apelar. Mas será isto verdade?
Haverá um padrão culturalmente neutro de certo e errado? Há naturalmente muito que dizer contra a excisão. É dolorosa e tem como resultado a perda per¬manente do prazer sexual. Os seus efeitos, a curto prazo, incluem hemorragias, tétano e septicemia. Por vezes, a mulher morre. Os efeitos de longo prazo incluem infecção crónica, cicatrizes que dificultam a marcha e dores contínuas.
Qual é, pois, o motivo pelo qual se tomou uma prática social tão alargada? Não é fácil responder. A excisão não tem benefícios sociais aparentes. Ao contrário do infanticídio entre os esquimós, não é necessária à sobrevivência do grupo. Nem é uma questão religiosa. A excisão é praticada por grupos de várias reli¬giões, entre elas o islamismo e o cristianismo, nenhuma das quais a recomenda. Apesar disso, aduzem-se em sua defesa uma série de razões. As mulheres inca¬pazes de prazer sexual são supostamente menos propensas à promiscuidade; assim, haverá menos gravidezes indesejadas em mulheres solteiras. Acresce que as esposas, para quem o sexo é apenas um dever, têm menor probabilidade de ser infiéis aos maridos; e uma vez que não irão pensar em sexo, estarão mais atentas às necessidades dos maridos e filhos. Pensa-se, por outro lado, que os maridos apreciam mais o sexo com mulheres que foram objecto de excisão. (A falta de prazer sexual das mulheres é considerada irrelevante.) Os homens não querem mulheres que não foram objecto de excisão por serem impuras e ima¬turas. E, acima de tudo, é uma prática realizada desde tempos imemoriais, e não podemos alterar os costumes antigos.
Seria fácil, e talvez um pouco arrogante, ridicularizar estes argumentos. Mas podemos fazer notar uma característica importante de toda esta linha de racio-cínio: tenta justificar a excisão mostrando que é benéfica — homens mulheres e respectivas famílias são alegadamente beneficiados quando as mulheres são objecto de excisão. Poderíamos, pois, abordar este raciocínio, e a excisão em si, perguntando até que ponto isto é verdade: será a excisão, no todo, benéfica ou prejudicial?
Na verdade, este é um padrão que pode razoavelmente ser usado para pensar sobre qualquer tipo de prática social: Podemos perguntar se a prática promove ou é um obstáculo ao bem-estar das pessoas cujas vidas são por ela afectadas. E, como corolário, podemos perguntar se há um conjunto alternativo de práti¬cas sociais com melhores resultados na promoção do seu bem-estar. Se assim for, podemos concluir que a prática em vigor é deficiente.
Mas isto parece justamente o tipo de padrão moral independente que o retativis¬mo cultural afirma não poder existir. É um padrão único que pode ser invocado para ajuizar as práticas de qualquer cultura, em qualquer época, nomeadamente a nossa. É claro que as pessoas não irão, em geral, encarar este princípio como algo «trazido do exterior» para os julgar, porque, como as regras contra a mentira e o homicídio, o bem-estar dos seus membros é um valor inerente a todas as cultu¬ras viáveis.
Por que razão, apesar de tudo isto, pessoas prudentes podem ter relutância, mesmo assim, em criticar outras culturas. Apesar de se sentirem pessoalmente horrorizadas com a excisão, muitas pessoas ponderadas têm relutância em afir¬mar que está errada, pelo menos por três razões.
Primeiro, há um nervosismo compreensível quanto a «interferir nos hábitos cul-turais das outras pessoas». Os europeus e os seus descendentes culturais da América têm uma história pouco honrosa de destruição de culturas nativas em nome do cristianismo e do iluminismo. Horrorizadas com estes factos, algumas pessoas recusam fazer quaisquer juízos negativos sobre outras culturas, especialmente culturas semelhantes àquelas que foram prejudicadas no passa¬do. Devemos notar, no entanto, que há uma diferença entre a) considerar uma prática cultural deficiente; e b) pensar que deveríamos anunciar o facto, dirigir uma campanha, aplicar pressão diplomática ou enviar o exército. No primeiro caso, tentamos apenas ver o mundo com clareza, do ponto de vista moral. O segundo caso é completamente diferente. Por vezes poderá ser correcto «fazer qualquer coisa», mas outras vezes não.
As pessoas sentem também, de forma bastante correcta, que devem ser tole¬rantes face a outras culturas. A tolerância é, sem dúvida, uma virtude — uma pessoa tolerante está disposta a viver em cooperação pacífica com quem encara as coisas de forma diferente. Mas nada na natureza da tolerância exige que con¬sideremos todas as crenças, todas as religiões e todas as práticas sociais igual¬mente admiráveis. Pelo contrário, se não considerássemos algumas melhores do que outras, não haveria nada para tolerar.
Por último, as pessoas podem sentir-se relutantes em ajuizar por que não que¬rem mostrar desprezo pela sociedade criticada. Mas, uma vez mais, trata-se de um erro: condenar uma prática em particular não é dizer que uma cultura é no seu todo desprezível ou inferior a qualquer outra cultura, incluindo a nossa. Pode mesmo ter aspectos admiráveis. Na verdade, podemos considerar que isto é verdade no que respeita à maioria das sociedades humanas — são misturas de boas e más práticas. Acontece apenas que a excisão é uma das más.

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral (2003), pp.47-51

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Texto 033 – Tolerância e intolerância

A resposta dada por Rawls parece convincente. O intolerante nunca possui razões para se queixar de não serem tolerantes com ele. No entanto, o tolerante só tem o direito de ser intolerante quando isso for necessário para a sua preservação (ou seja, para garantir a subsistência do Estado de direito democrático e dos direitos das pessoas). E a finalidade dessa intolerância será sempre a protecção dos direitos reconhecidos a todos os cidadãos no contrato social (os direitos, liberdades e garantias fundamentais, na terminologia da Constituição).

Rui Pereira (2005): Terrorismo e Democracia
www.mj.gov.pt

Texto 032 – Uma defesa do Relativismo Moral Cultural

Algumas vezes os sociólogos são acusados de corroer a moralidade com seu conceito de relativismo cultural com o se conceito de relativismocultural e sua alegação de que praticamente “tudo está certo em algum lugar”. Se o certo e o errado são simplesmente convenções sociais — dizem nossos críticos — poder-se-ia muito bem fazer o que se deseja. Esta é uma concepção totalmente errada. É aproximadamente verdade que “tudo está certo em algum lugar” — mas não em todos os lugares. 0 ponto focal em termos de relativismo cultural consiste no fato de que em um ambiente particular alguns traços estão certos porque eles funcionam bem, ao passo que outros traços estão errados porque colidem penosamente com partes dessa cultura. Isto não é senão uma outra maneira de dizer que uma cultura é integrada e que seus vários elementos precisam se harmonizar em alguma medida razoável para que ela funcione eficientemente servindo aos propósitos humanos. As pessoas que invocam o relativismo cultural com vistas a justificarem seu comportamento excêntrico, estão mostrando que não entendem o conceito, e talvez não tenham interesse pelo bem-estar da sociedade.

Paul Horton, “Sociologia”, McGraw-Hill Brasil, São Paulo

Como fazer um comentário de texto em Filosofia?

Eis um pequeno excerto de um texto filosófico:

“O homem é homem só pela linguagem. Unicamente pela  linguagem chega o homem a tornar-se  consciente do seu mundo. A palavra não faz da realidade o nosso mundo. A palavra caracteriza o seu  modo de existência. Com as palavras, o homem vincula-se às coisas, (…) mas também se distancia delas (…) e atribui-lhes significação”

Como se faz um comentário?

Há muitas técnicas possíveis para estruturar um “comentário de texto”.  Na disciplina de Português é usual serem estudadas várias dessas técnicas. Uma vez que não as vamos estudar todas, optamos por uma adaptação daquela que é sugerida por Jacqueline Russ, no livro “Les méthodes en philosophie”:

1. Tema abordado no texto a comentar
2. Problema filosófico a que o autor procura responder
3. Posição do autor (tese) sobre esse problema
4. Justificações (argumentos) apresentadas no texto  para defender essa posição
5. Explicitação dos conceitos usados pelo autor (implica recorrer aos conhecimentos estudados)
6. Eventuais problemas, dúvidas ou objecções que a posição do autor levante (opinião pessoal do aluno, racionalmente fundamentada)

Assim, no caso do texto presente nesta questão, poderíamos elaborar um comentário obedecendo a esta estrutura:

[NOTA: Para facilitar a compreensão do esquema de comentário, apresenta-se a mesma numeração proposta para estruturação da resposta; obviamente, essa numeração é absolutamente desnecessária quando se redige a resposta num  qualquer exercício escrito.]

1. O  excerto apresentado refere-se  à importância antropológica da linguagem.
2. O autor depara-se com um problema filosófico fundamental, que é o de saber o que é o Homem e qual a importância da linguagem na sua definição.
3. Segundo o autor, o Homem só é Homem pela linguagem, pois …
4. … (i) é a linguagem que caracteriza o seu modo de ser, (ii) é pela linguagem que o Homem se torna consciente do seu próprio mundo e (iii) é a linguagem que permite ao Homem um distanciamento face ao mundo, atribuindo-lhe significação.
5. Esta palavras do autor significam que (i) só o Homem possui uma linguagem deste tipo – uma linguagem simbólica, que lhe permite a referência a objectos ausentes e não materializáveis: o animal não possui essa capacidade de referência à realidade, pelo que a linguagem é o traço distintivo entre o Homem e o animal. Por outro lado, (ii) esse tipo de linguagem a que o ser humano tem acesso permite-lhe perceber as causas e as consequências dos seus actos: o Homem tem consciência de si mesmo, tem, consciência do que faz – porque faz e para que faz. Ao animal, pelo carácter concreto da sua linguagem, essa tomada de consciência é totalmente inacessível, pois só pode referir-se a situações presentes: nenhum animal reflecte sobre o passado ou projecta o  futuro, coisa que o ser humano é capaz de fazer. Em último lugar, (iii) há que referir que  é através da linguagem que, pelo poder da simbolização, o Homem se afasta da realidade, no sentido em que não precisa de ter a realidade a que se refere presente perante os seus olhos, pois o carácter abstracto e simbólico da sua linguagem permite a construção de um conhecimento teórico e não meramente prático sobre a realidade: o ser humano constrói diversas formas de conhecimento sobre a realidade, apoiando-se na linguagem como estrutura de um discurso racional ou afectivo sobre o mundo que o rodeia.
6. Pessoalmente, a) concordo…  /  b) não concordo…
a) … concordo com o autor pois, como já foi referido na resposta anterior, existem diversos traços distintivos entre a linguagem humana e a linguagem animal, pelo que a linguagem será, seguramente, uma forma possível de designar o que é o Homem, pois trata-se de uma capacidade especificamente humana. Repare-se, por exemplo, que das várias funções inerentes à linguagem, os animais são incapazes de possuírem uma função metalinguística, isto é, a referência linguística ao próprio código: esse é um território exclusivamente humano.  Ainda assim, podem surgir algumas dúvidas/interrogações/problemas a que este excerto não responde, tais como: se descobrirmos que essa distinção linguística não é tão evidente, teremos de mudar a nossa própria concepção do que é o ser humano? Se a capacidade simbólica for exclusiva do ser humano, que reacção teremos perante um ser humano (por exemplo, um microcefálico) que não possui essa capacidade? Essas são questões a que o texto não  permite responder.
b) … não concordo com o autor, pois nem sempre a linguagem simbólica é exclusiva do ser humano: estudos com chimpanzés vieram levantar a questão de saber se alguns animais, nomeadamente os primatas superiores, poderão (ou não) aprender em contacto com os humanos a utilizar uma linguagem gestual, dado que não possuem cordas vocais semelhantes às humanas. A ser assim, a linguagem deixaria de ter  o papel fulcral na distinção Homem/animal, deitando por terra a opinião do autor.

[Nota: as objecções, dúvidas e problemas são  tratadas na aula, mas podem resultar unicamente da capacidade reflexiva de cada um]

Texto 020 – A rotulação

Os proponentes da teoria da rotulação recorrem muitas vezes aos resultados de um estudo de David Rosenhan, em apoio da sua posição. Rosenhan e sete outras pessoas normais conse¬guiram ser admitidos como pacientes em diferentes hospitais dos Estados Unidos. Cada pseudopaciente chega ao hospital com a mesma queixa, ouvia vozes que diziam “vazio”, “côncavo” ou “estrondo”. Utilizavam pseudónimos e, às vezes, mentiam relativamente às suas profissões, mas em todos os restantes aspectos referiam as suas histórias de vida e as circunstâncias reais. Todos eles, excepto um. foram admitidos nos hospi¬tais psiquiátricos com o diagnóstico de esquizofrenia. Uma vez admi¬tidos. o comportamento dos pseudopacientes era completamente normal. Diziam que já não ouviam vozes e que se sentiam muito bem.
Em nenhum dos casos o pessoal do hospital detectou o logro. O facto de os pseudopacientes se comportarem de forma perfeitamente normal em nada ajudou, pois tudo o que faziam era interpretado em consonância com o diagnóstico original Por exemplo, todos os pseu¬dopacientes tiravam muitos apontamentos. Inicialmente, faziam-no de forma sub-reptícia mas cedo verificaram que não era necessário ser-se circunspecto. Tirar apontamentos era visto apenas como mais uma mani¬festação da perturbação. Num relatório típico da enfermeira podia ler¬-se. «O paciente entrega-se a comportamentos de escrita”. Nunca ninguém indagou o que escreviam e porquê; presumivelmente era entendido como um aspecto de ser esquizofrénico.
Uma vez rotulados. os pacientes foram alvo do mesmo tipo de negligência de que todos os outros pacientes eram. Sentiam-se desper¬sonalizados e impotentes. Davam-lhes muitos comprimidos (que deitavam pela sanita abaixo) mas tinham muito pouco acesso aos técnicos. A média diária de contacto com psiquiatras, psicólogos, estagiários e médicos era, por junto, de 6,8 minutos.
Antes do início do estudo, todos os pseudopacientes haviam concor¬dado tentar obter alta sem recorrer a auxílio exterior, convencendo os responsáveis hospitalares de que já estavam bons mas sem admitirem o logro inicial. Descobriram que era mais fácil entrar do que sair. Em média, foram necessários dezanove dias e, num dos casos, cinquenta e dois. Quando finalmente tiveram alta, foi com o diagnóstico de esqui¬zofrenia em remissão”. O que significa que não existem sintomas, pelo menos de momento. A validade do diagnóstico original nunca foi posta em causa.
Os resultados de Rosenhan apresentam um quadro nada lisonjeiro das condições nos hospitais psiquiátricos e emprestam nova força aos protestos sociais e exigências de reforma. Também demonstram que um «rótulo» diagnóstico pode reforçar a concepção preexistente relativa ao que um paciente é. Mas será que, na realidade, demonstram que a distinção entre são e não-são depende exclusivamente do rótulo e que a doença mental é um mito?
A resposta é não. Consideremos a situação do ponto de vista do psiquiatra. Urn paciente tinha alucinações auditivas ao ser admitido no hospital. Este sintoma desaparece rapidamente. Que vão fazer os psiquia¬tras? A ideia do logro nunca lhes ocorrerá. (Ao fim e ao cabo, quem seria suficientemente paranóico para suspeitar de que se tratava de uma expe¬riència psicológica?) Nestas circunstâncias, devem concluir que o paciente sofre ou sofria de uma perturbação psicótica, talvez esquizofrenia, e devia ser submetido a nova observação, O facto de os últimos actos do paciente serem interpretados em termos do diagnóstico original torna-se perfeita¬mente compreensível. Há alguns dias, ouvia vozes; então, a sua actual sanidado é provavelmente mais aparente do que real. Vistos a esta luz, os actos dos psiquiatras não parecem tão irracionais como isso.

Anthony Giddens, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian

Texto 009 – Escola versus televisão

 

«Todos conhecemos a opinião dominantemente negativa da influência da televisão sobre as crianças e os jovens, nomeadamente no que respeita ao fascínio que sobre eles exerce em detrimento do estudo. A televisão é acusada de roubar tempo que deveria ser utilizado na leitura, no estudo, na prática do desporto ou no convívio familiar; é acusada de habituar à passividade e de criar maus hábitos alimentares, de desinteressar as crianças e os jovens da leitura e, de uma forma geral, da escola, de habituar à violência e de criar modelos sociais de agressão física e moral, de destruir o convívio familiar, de legitimar a vul­garidade e o mau gosto.

Por outro lado, qualquer professor pode constatar nos recreios e nas aulas que os seus alunos imitam comportamentos e atitudes, utilizam uma lin­guagem recheada de onomatopeias, léxico e referências implícitas, directa­mente vindos de séries televisivas, de publicidade, de filmes e de desenhos animados passados na televisão. ( … )

Os universos da escola e da televisão opõem-se pelas normas que os regem: à facilidade, à simplificação e ao imediatismo da TV, a escola con­trapõe a complexidade do raciocínio, o esforço continuado e a reflexão crí­tica.

No estrito campo da oralidade, a televisão representa a língua vária, os modelos orais não valorizados ou mesmo ignorados pela norma escolar, o reforço e a legitimação de situações conversacionais diversas e a-escolares. Por outro lado, e no campo dos ins­trumentos de socialização, a TV ganha à escola em precocidade de intervenção, não só pelo lugar privilegiado que actualmente ocupa como guardiã da infância como na apresentação de modelos sociais, de normas de comportamento e mesmo de projectos de futuro a que a criança e o jovem se vai habituando como telespectador.»

Maria José Seixas, “, Mesmo nos concursos a gente aprende coisas»,

 Televisão e Escola – um conflito de universos e discursos”

in Educação, Sociedade e Culturas, n.° 8, 1997

Terá a vida sentido sem Deus?

Um ensaio de Paula Cristina Alves Teixeira.

 

 

Pretendo, com este ensaio, fazer uma reflexão pessoal acerca do sentido da existência e reflectir sobre se a mesma terá sentido sem Deus, tendo como base as diferentes teorias de Soren Kierkegaard, que defende que Deus é o sentido da nossa existência (existencialismo cristão), Jean-Paul Sartre, que defende exactamente o contrário (existencialismo ateu) e Desidério Murcho, que nos apresenta a alternativa naturalista.

 

A ideia mais popular é a de que Deus é o único sentido da nossa existência. No entanto, podemos colocar a questão: que certezas temos nós acerca da efectiva existência de Deus? Não existe nada que nos prove a sua existência ou não existência, pelo que não faz muito sentido atribuir o sentido da nossa vida a uma possível ilusão. Não terá mais sentido a nossas existência se o nosso caminho se pautar por finalidades e acções com objectivos, valores éticos e morais que contribuam para o Bem universal? Na minha perspectiva, a resposta a esta questão é afirmativa, se as nossas escolhas e os nossos conhecimentos forem usados em pró da humanidade.

 

Desidério Murcho refere alguns argumentos na sua teoria que vão ao encontro da minha posição. A vida humana pode fazer sentido se a ética é objectiva e se lutarmos por valores éticos correctos, como a conservação da natureza, o combate à fome, a luta contra a guerra e a construção de um mundo melhor para os nossos filhos.

Logo, a nossa vida tem valor se cultivarmos esses nobres valores éticos a favor do Bem universal. Se a vida que vivermos for mesquinha e centrada apenas em nós próprios, não terá grande sentido a nossa existência, pois não tem valor universal.

 

Jean-Paul Sartre defende na sua teoria algo que também vai ao encontro desta reflexão. O ser humano é um ser livre que deve utilizar a sua liberdade para atingir a essência do que é ser humano. Deus é apenas a esperança e a ilusão daquilo que cada homem gostaria de ser.

Mas existem objecções a esta posição. Para um teísta, a existência só tem sentido porque Deus é o criador de todo o Universo o que, só por si, garante um sentido para a nossa existência. A finalidade da vida humana é a felicidade que, não podendo ser alcançada nesta vida cheia de vicissitudes, será vivida após a morte, alcançando a felicidade eterna no Paraíso onde a alma viverá em comunhão com o próprio Deus. A eternidade só pode ser alcançada através da fé e do sofrimento e não pelo conhecimento do mundo.

 

Mas não concordo com estas objecções, pelo que passo a refutá-las.

 

Como posso afirmar a existência ou não existência de Deus? Esta é uma das primeiras questões que podemos colocar perante as perspectivas teísta e ateísta. Se os desígnios de Deus são divinos e incompreensíveis, como sei o que Ele prevê como sentido para a existência? Por que razão devo levar uma vida de culpa e sofrimento? Na perspectiva teísta, esse é o caminho para a felicidade eterna e essa é a ilusão que dá sentido à vida. E qual será, então, o sentido de uma Eterna Felicidade?

 

Concluo então que não sendo a minha vida resultado da vontade de uma entidade divina mas apenas o resultado das leis da natureza, apenas eu e só eu posso atribuir sentido à minha existência.

Então, ainda assim, dois caminhos a seguir. Posso viver uma vida de acordo com os nossos valores éticos procurando e aprofundando o conhecimento e aplicando-o em prol de um verdadeiro amor à Humanidade. Atribuo assim um verdadeiro sentido à minha existência lutando contra a pobreza, combatendo a guerra, a fome, lutando pelo direito à educação e lutando tenazmente pelos Direitos Humanos. Ou posso atribuir um sentido à minha existência centrando-me apenas em mim própria, vivendo uma vida fútil, o que poderá ser muito bom e agradável mas sem valor universal.

A escolha está nas minhas, nas tuas, nas nossas mãos. Sigamos sempre a razão, embora a uns agrade e outros não, porque a razão, ainda que severa, é sempre a amiga mais sincera.

 

 

Fontes bibliográficas:

  • Warburton, Nigel – Elementos Básicos de Filosofia. Lisboa: Gradiva
  • Rodrigues, Luís, Filosofia 10. Lisboa: Plátano Editora

 

Outras referências:

 

Paula Cristina Alves Teixeira

Escola Secundária da Trofa

Ano Lectivo 2007/8

 

Filosofia 10º e 11º: Programa

(o download do ficheiro pode ser feito na barra lateral direita, na “share boxe”)

Para que serve a Filosofia?

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