Etapa 1: a pergunta de partida

A pergunta de partida é o primeiro fio condutor num trabalho de investigação. Ao longo do processo pode ser necessário alterar a formulação inicial, mas é importante começar o trabalho com uma estrutura coerente.

A pergunta de partida deve enunciar tão claramente quanto possível o que é que o investigador deseja saber, compreender melhor. Essa pergunta deverá obedecer a alguns critérios, pois  a pergunta de partida só será útil se for bem formulada:

  • Clareza; a pergunta de partida deve ser concisa e precisa, evitando a vagueza ou a ambiguidade.
  • Exequibilidade; o trabalho implícito na pergunta de partida deve ser realista, evitando ambições desmedidas ou implicando recursos logísticos que não estão ao alcance do investigador;
  • Pertinência; o registo em que se enquadra a pergunta de partida deve ser adequado ao âmbito do trabalho realizado. Assim, em ciências sociais não se espera que a pergunta d epartida remeta para questões normativas, ideológicas ou filosóficas, pois esses são âmbitos distintos.

Um erro a evitar é o da difusão de interesses: o facto de o investigador possuir interesses diversos não o deverá levar ao estudo de uma problemática quando objectivamente o seu estudo é referente a uma só questão, um só foco de investigação.

 

Etapa 2: a exploração.

Estabelecido um fio condutor, é necessário proceder às primeiras leituras e a outras técnicas de exploração, como as entrevistas exploratórias.

1) Devem ser definidos alguns critérios de escolha das leituras, pois existem muitas obras para ler e corre-se o risco de ler aquilo que é irrelevante ou que não tem fundamento, em detrimento do essencial. Os critérios para selecionar as escolhas de leitura são:

 

  • Adequação das leituras à pergunta de partida, definida como o fio condutor do trabalho de investigação;
  • Exequibilidade das leituras: começar por pequenos artigos introdutórios e só depois avançar para obras de maior monta;
  • Riqueza conceptual: os artigos que apenas apresentam dados devem ser preteridos relativamente àqueles que desenvolvem elementos de análise e interpretação desses mesmos dados;
  • Diversidade: artigos com pontos de vista contrastantes acerca do mesmo assunto permitem confrontar perspetivas;
  • Reflexão: de nada serve ler se não houver tempo para refletir sobre as leituras efetuadas;
  • Fontes: é conveniente pedir conselhos a investigadores da mesma área para saber quais os textos essenciais. As revistas especializadas, os dossiês de síntese e as entrevistas de investigadores/docentes de referência são imprescindíveis.

2) Onde encontrar os textos?

a) pedindo ajuda a autoridades na matéria;

b) optar por artigos em revistas especializadas, relatórios de institutos e organismos especializados, relatórios oficiais, etc

c) utilizar as modernas técnicas de pesquisa das bibliotecas [sugestão: explorar o mendeley como forma de encontrar as publicações mais relevantes];

 

3) Como ler?

O ideal é dispor de uma grelha de leitura. Quivy apresenta um modelo que consiste na divisão de uma folha de papel em duas colunas, servindo uma para as ideias e conteúdos da obra lida e outra para registar os tópicos para a estrutura do texto. Contudo, opto por utilizar o mesmo esquema de ficha de leitura que utilizei na parte curricular deste mestrado, com a qual estou familiarizado e que me é mais confortável para trabalhar.

Fazer um resumo do texto consiste em destaca as suas ideias principais, fazendo surgir a unidade do pensamento do autor. O verdadeiro trabalho do resumo está na clarificação / exposição das ideias centrais do autor e no desvelamento das articulações que existem entre essas ideias.  Fazer um esquema é uma forma simples de proceder a tal desocultação das ideias centrais do texto.

As entrevistas exploratórias ajudam, com as leituras, a construir a problemática da investigação. Enquanto as leituras permitem fazer o balanço dos conhecimentos relativos ao problema de partida, as entrevistas contribuem para alargar a perspetivas acerca desse mesmo problema e alertam para os principais aspetos a ter em conta.

Não é útil fazer uma entrevista a qualquer pessoa, como é evidente. Docentes, investigadores especializados e peritos no domínio de investigação do âmbito da pergunta de partida são os entrevistados mais indicados. Testemunhas privilegiadas, como aqueles que têm responsabilidades na mesma área e que nela atuam também são potenciais candidatos a uma entrevista. Por fim, o próprio público-alvo da investigação: aqueles que estão envolvidos no o objeto projeto de pesquisa.

É importante saber em que consiste uma entrevista e como deve ser realizada. Quivy segue o método de Carl Rogers, oriundo da Psicologia Social e adaptado às Ciências Sociais. Segundo Quivy, as entrevistas em ciências socias nunca são rigorosamente não-diretivas, sendo mais apropriado o termo “livres”. Isso deve-se aos factos de a entrevista ser efetuada a pedido do investigador e obedecer a determinados objetivos relacionados com as finalidades da investigação. O entrevistador, diz Quivy, deve fazer o mínimo possível de perguntas e interiorizar que a entrevista não é um interrogatório nem um inquérito por questionário. As intervenções do entrevistador deverão ser tão abertas quanto possível, não impondo aos entrevistado determinadas categorias mentais. Sinais não verbais, como a aquiescência, ou outras implicações do entrevistador sobre o conteúdo da entrevista também devem ser evitados. Deve existir o cuidado de informar devidamente o entrevistado acerca dos objectivos, da duração e da  gravação e eventual divulgação da entrevista.

Por fim, convém definir como podemos explorar o conteúdo da entrevista. O objectivo de qualquer entrevista é o de abrir pistas de reflexão, alargar horizontes de pesquisa e leitura, evitar divagações por falsos problemas.

A exploração das entrevistas deve ser feita metodicamente. A análise de conteúdo ajuda o investigador a evitar a ilusão de transparência e a desvelar aquilo que se esconde por detrás idas palavras. Um dos métodos de análise de conteúdo é o de Unrung, citado por Bardin em “A análise de conteúdo”.

Existem outros métodos exploratórios complementares. As entrevistas exploratórias costumam ser acompanhadas por um trabalho de análise de documentos e algum trabalho de observação. Estas três técnicas constituem tarefas essenciais do trabalho de exploração. Para um breve trabalho de observação, uma grelha será bastante útil, pois permite um registo sistemático e organizado dos fenómenos e eventos relevantes.

Do trabalho exploratório passa-se à problemática. Efectuada a pergunta de partida, a exploração compreende as entrevistas e as leituras exploratórias. Esta segunda fase do trabalho poderá implicar a reformulação da pergunta de partida. Não é possível elaborar uma problemática sem que esta fase esteja devidamente resolvida, com sucessivas aproximações aos quadros teóricos vigentes. A problemática, como veremos, incide sobre o tipo de conhecimento visado com o trabalho, pelo que uma pergunta de partida mal formulada condicionará todo o projecto.

Etapa 3: a problemática

“A problemática é a abordagem ou perspectiva teórica que decidimos adoptar para tratar o problema posto pela pergunta de partida.”

Executa-se em 3 momentos:

  • Exploração de leituras e entrevistas, inventariando os diferentes aspectos do problema;

Trata-se de fazer o balanço das várias abordagens ao problema, estabelecendo entre eles as devidas conexões e confrontações.

  • Escolha da orientação teórica mais pertinente (ou escolha de uma nova solução teórica que transcenda as anteriores) ;

Trata-se de definir a problemática, inscrevendo o trabalho nas concepções teóricas já existentes ou assumindo um quadro teórico novo. Pode implicar a reformulação da pergunta de partida para abrir perspetivas de resposta.

  • Explicitação do quadro teórico que caracteriza esta problemática.

Trata-se de formular a nossa forma pessoal de colocar o problema e de lhe responder dentro de um quadro teórico fundamentado. Expõem-se os conceitos fundamentais  e a estrutura conceptual em que assentam as nossas ideias e respostas à pergunta  de partida.

 

Etapa 4: a construção do modelo de análise

 

 

 

Fontes:

Raymon Quivy e LucVan Campenhoudt, Manual de Investigação em Ciências Sociais