Conan Osíris, o fenómeno

Não sou musicólogo, mas fui estudante de Música. Fiz o 1.º ano do então curso superior de música, na variante de clarinete; concluí o 6.º ano de Formação Musical (hoje 8.º grau) e as restantes disciplinas, excepto Análise e Composição, primeiro por ausência de professor (2 meses de aulas em todo o ano letivo) e mais tarde por incompatibilidade de horário (já eu era estudante de licenciatura). Não me considero, portanto, um analfabeto musical.
Tenho todas as reservas em relação a Conan Osíris, assumindo que sou, talvez, bastante conservador: a minha formação foi sobretudo na área da música erudita e, confesso, as minhas preferências musicais são claramente orientadas para os compositores nacionalistas ou os românticos tardios, como Sibelius, Grieg, Katchaturian, Mussorgsky, Prokofiev, Rachmanninnof, etc. Não tenho nenhum outro estilo pelo qual nutra especial preferência, ouvindo um pouco de tudo, desde Dire Straits a Meredith Monk, de John Willliams a Portishead, de Arturo Márquez a Yann Tiersen, de Gershwin e Ernst Gold a Massive Attack e Fionna Apple. Praticamente não ouço música mais “comercial”; e sim, sei que tenho gostos musicais estranhíssimos. Só não ouço fado, que detesto, abrindo apenas uma (única!) exceção para a versão de “Mistérios do fado” dos Ala dos Namorados. Serve esta longa introdução para contextualizar o que pretendo dizer.

Nada me move contra Conan Osíris. Em nada me incomodam os padrões de gosto das outras pessoas. Mas o meu problema com CO é este:

1. Não encontro ali uma linha melódica. Mais depressa a encontro em “Quarteto para helicópteros” de Stockhausen ou no “Marteau sans maître” de Boulez. A melodia que existe, chamemos-lhe assim, é infantil, com 3 ou 4 notas que se repetem ad nauseum. É pobre, muito pobre.
2. Não encontro ali um esforço de estabelecer uma harmonia, “fazer um arranjo”: basicamente, há um instrumento “solista”, que introduz uma “melodia”, e uma percussão a acompanhar. Não lhe consigo identificar acordes, nem uma tónica, nada. E sim, não desconheço a música atonal.
3. A linha rítmica consiste, sejamos sinceros, num conjunto de samples retirados de um programa informático. São simples, básicos, sem nada de especial.
4. O rapaz canta mal. Aliás, não canta: emite sons. Nota-se que “não tem escola”: os sons são guturais. E tem aquele péssimo costume, muito português, que é o de tentar fazer vibratos e portamentos, ao jeito fadista, trejeito horrível que se confunde facilmente com o balir das cabras (sem ofensa: não quero que as cabras, que são animais admiráveis, se sintam ofendidas). Eu também canto mal: quando tentava arranhar o barítono de Es ist ein ros’entsprungen, o cão e os gatos fugiam para a varanda. Isso foi um sinal que me fez repensar os meus dotes vocais.
5. Por fim, ressalvo o meu conservadorismo num último aspecto: tenho muitas dificuldades em chamar “músico” a quem nem sequer sabe o que é um sustenido (foi ele que o afirmou), alguém que se senta em frente a um pc, junta uns samples, e no final exclama “Eureka!, sou compositor!” Talvez a música de hoje passe muito por aí — pela produção computorizada, e nem precisamos de repescar Xenakis ou Vangelis, Hindemith ou Milhaud, mas *isto*, esta produção de CO está a anos-luz de ter alguma referência conceptual de base.

Não teço considerações sobre a letra nem sobre a dança, que disso não entendo rigorosamente nada, embora não possa deixar de salientar aquele verso imortal, logo a abrir: “Eu parti o telemóvel” e, mais à frente, essa terna sensibilidade estética do verso “A chibaria nunca viu nascer ninguém”. Adiante.

Não entendo, pois, este fenómeno Osíris. Talvez tenha de me render às evidências e considerar que a música, hoje, é muito mais que uma “arte de exprimir sentimentos e impressões por meio de sons”, como se afirmava na Teoria de Artur Fão, e seja, isso sim, uma arte performativa na qual os fogos de artifício, os macacos dançantes, as galinhas cacarejantes e os adereços sejam, afinal, tão ou mais importantes que o som. Foi exatamente isso que disse Salvador Sobral, em 2017, e não estava errado. Ou estava?

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