De tempos a tempos, uma qualquer agenda político-partidária ressuscita o tema da natalidade como se o problema fosse conjuntural e estivesse pendurado em medidas avulsas que pudessem ser aqui e ali implantadas. Não é assim. Hoje, a decisão de ter um filho é muitíssimo ponderada. Porque a crise financeira é real; porque o mercado de trabalho coloca sucessivos obstáculos aos pais e, sobretudo, às mães; porque não há sistemas de saúde que respondam bem às necessidades das grávidas; porque não existe uma rede consistente no ensino pré-escolar. E porque, acima de tudo, deixámos de acreditar no futuro.É difícil dar vida em momentos em que o pessimismo se abate penosamente sobre um quotidiano que implode em contas de subtração. É difícil abrandar o ritmo profissional quando as carreiras se tornam cada vez mais exigentes e precárias. É difícil ter um filho sem estruturas de apoio. Hoje ser mãe ou ser pai é um projeto audaz, porque se sente em permanência as consequências dessa decisão.Impõe-se, todavia, afirmar que não se troca a felicidade de ter um filho por nada. Nenhuma carreira por mais promissora que possa ser, nenhum orçamento familiar por mais estável que se apresente ou nenhum conforto quotidiano por mais adquirido que esteja conseguem rivalizar com as nossas crianças. É certo que, quando aparecem, viram as nossas vidas de pernas para o ar. Lembramos o tempo em que não éramos pais como algo longínquo, seguramente mais pacato, mas decerto menos compensador. Acontece que só sabemos isso depois de aparecer o primeiro filho. Antes, lá vamos adiando a natalidade. Porque sentimos que este país não é para bebés.Seguindo as propostas que os partidos vão apresentando em prol da natalidade, sentimos uma adesão quase imediata em relação a isso. Pena essas iniciativas surgirem quase sempre do lado dos partidos da Oposição. Quando tomam conta da governação, os mesmos políticos, tão cheios de boas intenções no que diz respeito ao incremento dos nascimentos, guardam em arquivos que quase nunca são revisitados aquilo que tão convictamente defenderam. É triste.Apesar de serem sempre populares e de provocarem um assinalável efeito mediático (é também por isso que surgem), nem todas essas iniciativas são tão assertivas como parecem. Vejamos o exemplo do calendário escolar. Encurtar as férias de verão e abrir outros períodos de pausa ao longo do ano letivo é promover outros polos disfuncionais. Porque se é difícil ficar em casa com as crianças ou arranjar-lhes alternativas ao lar entre julho e setembro, essa dificuldade repete-se, ou acentua-se, noutras alturas do ano. Apostar no alargamento das licenças parece ser uma proposta amiga das famílias, mas poderá não ser adequada a um mercado de trabalho exigente, incerto e de remuneração reduzida…Acontece, porém, que o problema não é conjuntural, nem está dependente de medidas pontuais. Falamos aqui de uma situação sistémica que implica mudanças de fundo em vários domínios. Por exemplo, não se consegue hoje assegurar um dia a dia estável às crianças (e aos respetivos pais) sem um sistema escolar com horários mais adaptados à realidade laboral. Deixar um filho pequeno num infantário ou no pré-escolar é frequentemente motivo de grande ansiedade para pais cujo trabalho se inicia antes das 8.30 horas ou se prolonga para lá das 18 horas. Também há uma mudança para fazer no sistema de saúde. Uma grávida necessita de consultas e de exames que poderão estar para além daquilo que um médico de família pode proporcionar e todos sabemos como é difícil conseguir vagas para atos clínicos em hospitais públicos. A história irá repetir-se com os bebés…Paralelamente a reformas setoriais, há ainda uma revolução para fazer ao nível dos nossos hábitos. É preciso tornar os nossos ambientes profissionais mais amigáveis daquelas que escolheram ser mães (o papel de pai é, a este nível, mais poupado). Ter um filho não pode implicar a anulação profissional de uma mulher, mas é isso que muitas de nós sentem. Nos mais variados espaços. Até naqueles que lutam por mais igualdade.

Fonte: Como ter mais filhos?

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