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Março 2016

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As 10 melhores técnicas de estudo, segundo a ciência

Pesquisa científica avalia 10 técnicas de estudo populares e elabora um ranking com as mais úteis. Entre todas, a número 9 é de longe a minha favorita.

Fonte: As 10 melhores técnicas de estudo, segundo a ciência

Um estudo publicado em janeiro de 2013 na revista científica Psychological Science in the Public Interest avaliou dez comuns técnicas de estudo para classificar quais possuem de fato a melhor utilidade.

O resultado do paper (íntegra aqui) traz algumas surpresas para o estudante.

Técnicas de estudo bastante populares no Brasil, como resumir, grifar, utilizar mnemônicos, visualizar imagens para apreensão de textos e reler conteúdos foram classificadas como as de utilidade mais baixa.

Três técnicas de estudo foram encaradas como de utilidade moderada: interrogação elaborativa, auto-explicação e estudo intercalado.

E as duas que obtiveram o mais alto grau de utilidade na aprendizagem foram as técnicas de teste prático e prática distribuída.

É a ciência desaprovando boa parte das minhas técnicas de estudo, muito baseado em resumos, grifos, mnemônicos e mapas mentais. Por outro lado, foi confirmada a impressão que eu tinha de que a realização de exercícios em doses cavalares era extremamente efetiva para o estudo para concursos públicos.

Se você quer uma visão mais detalhada de como funciona o aprendizado, recomendo fortemente que leia o livro Os 7 Pilares do Aprendizado, de Paulo Ribeiro, que já escreveu aqui no Mude.nu como a ciência pode melhorar o seu aprendizado.

Antes de prosseguir, lembre-se de que o ranking reflete os resultados da pesquisa, porém cada pessoa tem suas próprias técnicas de estudo e nada está escrito em pedra. Dito isto, falemos agora sobre as dez técnicas de estudo, das piores para as melhores.

1. Grifar, a de menor utilidade entre as técnicas de estudo

Técnicas de estudo: Grifar

Tão fácil quanto ineficiente.

Prepara-se para dar um descanso ao seu grifador amarelo. O estudo aponta que a técnica de apenas grifar partes importantes de um texto é pouco efetiva pelos mesmos motivos pelos quais é tão popular: praticamente não requer esforço.

Ao fazer um grifo, seu cérebro não está organizando, criando ou conectando conhecimentos. Então, grifar só pode ter alguma (pouca) utilidade quando combinada com outras técnicas.

2. Releitura (utilidade: baixa)

Técnicas de estudo: Estudo com releitura

Deixa eu ler pela quinta vez…

Reler um conteúdo, em regra, é menos efetivo do que as demais técnicas apresentadas. O estudo, no entanto, mostrou que determinados tipos de leitura (massive rereading) podem ser melhores do que resumos ou grifos, se aplicados no mesmo período de tempo. A dica é reler imediatamente depois de ler, por diversas vezes.

3. Mnemônicos (utilidade: baixa)

Técnicas de estudo: Mnemônicos

Remember, remember, SoCiDiVaPlu.

Segundo o dicionário Houaiss, mnemônico é algo relativo à memória; que serve para desenvolver a memória e facilitar a memorização (diz-se de técnica, exercício etc.); fácil de ser lembrado; de fácil memorização.

Em apostilas e sites de concursos públicos, é muito comum ver o uso de mnemônicos com as primeiras letras ou sílabas, como SoCiDiVaPlu para decorar os fundamentos da República Federativa do Brasil (artigo 1º da Constituição).

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O estudo da Psychological Science in the Public Interest mostrou que os mnemônicos só são efetivos quando as palavras-chaves são importantes e quando o material estudado inclui palavras-chaves fáceis de memorizar.

Assuntos que não se adaptam bem a geração de palavras-chaves não conseguiram ser bem aprendidos com o uso de mnemônicos. Então, utilize-os em casos específicos e pouco tempo antes de teste.

4. Visualização (utilidade: baixa)

Técnicas de estudo com mindmap.

Exemplo de mapa mental.

Os pesquisadores pediram que estudantes imaginassem figuras enquanto liam textos. O resultado positivo foi apenas em relação a memorização de frases. Em relação a textos mais longos, a técnica mostrou-se pouco efetiva.

Surpreendentemente (ao menos para mim), a transformação das imagens mentais em desenhos também não demonstrou aumentar a aprendizagem e ainda trouxe o inconveniente de limitar os benefícios da imaginação.

Isso não invalida completamente o uso de mapas mentais para estudos, já que esses consistem além de desenho a conexão de ideias e conceitos.

De qualquer maneira, o resultado do estudo é que a visualização não é uma técnica efetiva para provas que exijam conhecimentos inferidos de textos.

5. Resumos (utilidade: baixa)

Técnicas de estudo com resumo

Vou resumir para você.

Resumir os pontos mais importantes de um texto com as principais ideias sempre foi uma técnica quase intuitiva de aprendizagem.

O estudo mostrou que os resumos são úteis para provas escritas, mas não para provas objetivas.

Embora tenha sido classificado como de utilidade baixa, a técnica de resumir ainda é mais útil do que grifar e reler textos. O paper diz que a técnica pode ser uma estratégia efetiva para estudantes que já são hábeis em produzir resumos.

6. Interrogação elaborativa (utilidade: moderada)

Técnicas de estudo com perguntas

Por que é que a vida é assim?

A técnica de interrogação elaborativa consiste em criar explicações que justifiquem por que determinados fatos apresentados no texto são verdadeiros.

O estudante devem concentrar-se em perguntas do tipo Por quê? em vez de O quê?.

Seguindo o exemplo que demos pouco antes, em vez de decorar um mnemônico como SoCiDiVaPlu, o ideal seria perguntar-se por que o Brasil adota a dignidade da pessoa humana como fundamento da República? E buscar a resposta na origem do estado democrático de Direito e na adoção do princípio da dignidade da pessoa humana pelas principais democracias ocidentais após a Revolução Francesa.

Note que esse tipo de estudo requer um esforço maior do cérebro, pois concentra-se em compreender as causas de determinado fato, investigando suas origens.

Falando especificamente de concursos públicos, a interrogação elaborativa é um grande diferencial na hora de responder redações e questões discursivas.

7. Auto-explicação (utilidade: moderada)

Técnicas de estudo com auxo-explicação

Entendeu, Eu Mesma?

A auto-explicação mostrou-se ser uma técnica útil para aprendizagem de conteúdos mais abstratos. Na prática, trata-se de ler o conteúdo e explicá-lo com suas próprias palavras para você mesmo.

O estudo mostrou que a técnica é mais efetiva se utilizada durante o aprendizado, e não após o estudo.

8. Estudo intercalado (utilidade: moderada)

Técnicas de estudo intercalado

Vou alternar as matérias, na ordem dessa pequena pilha.

O estudo intercalado é o que chamamos de rotação de matérias em postsanteriores.

A pesquisa procurou saber se era mais efetivo estudar tópicos de uma vez ou intercalando diferentes tipos de conteúdos de uma maneira mais aleatória.

Os cientistas concluíram que a intercalação tem utilidade maior em aprendizados envolvendo movimentos físicos e tarefas cognitivas (como ciências exatas).

O principal benefício da intercalação, como já havíamos observado, é fazer com que a pessoa consiga manter-se mais tempo estudando.

9. Teste prático (utilidade: alta)

Técnicas de estudo com teste objetivo

Simular é o melhor caminho.

Realizar testes práticos sobre o que você está estudando é uma das duas melhores maneiras de aprendizagem. A pesquisa científica mostrou que realizar testes práticos é até duas vezes mais eficiente do que outras técnicas.

No caso específico de concursos públicos, a recomendação é fazer toneladas de exercícios de provas anteriores. Não apenas do cargo para o qual você está estudando, mas qualquer tipo de questão que encontrar pela frente.

Como já recomendamos anteriormente, a maneira mais fácil de realizar testes é utilizando sistemas específicos para isso, como o site Questões de Concursos.

10. Prática distribuída (utilidade: alta)

Técnicas de estudo distribuído.

Vou rever o conteúdo a cada 15 dias.

A prática distribuída consiste em distribuir o estudo ao longo do tempo, em vez de concentrar toda a aprendizagem em um bloco só (a.k.a. na véspera da prova).

Pesquisas mostram que o tempo ótimo de distribuição das sessões de estudo é de 10% a 20% do período que o conteúdo precisa ser lembrado. Por essa conta, se você quer lembrar algo por cinco anos, vocÊ deve espaçar seu aprendizado a cada seis meses. Se quer lembrar por uma semana, deve estudar uma vez por dia.

A prática distribuída também pode ser interpretada como a distribuição do estudo em pequenos períodos ao longo do dia, intervalando com períodos de descanso. Por exemplo, uma hora de manhã, uma hora à tarde e outra hora à noite.

Essa é exatamente a teoria de Tony Schwartz aplicada em técnicas de timeboxcomo a Pomodoro Technique.

Como se faz um bom aluno? » Educare – O Portal de Educação

Fonte: Como se faz um bom aluno? » Educare – O Portal de Educação

 

O que é preciso para ser um bom aluno? De que forma pais e escola podem ajudar no sucesso educativo? Professores e especialistas dão algumas respostas.
Andreia Lobo
29-02-2016

As boas notas começaram a surgir no 10.º ano quando ingressou na Escola Secundária Aurélia de Sousa, no Porto. Até lá chegar, Jorge (nome fictício) era um “aluno médio”. Do tipo: chega o três; não é preciso estudar para o quatro. Qual a razão para a mudança?

Ao fazer o exercício de olhar para trás, o aluno, atualmente no 12.º ano, percebe que “muita coisa mudou”. Para começar pode, finalmente, frequentar a escola para onde queria ser transferido desde o 7.º ano. Depois, ao escolher o curso de Línguas e Humanidades, conseguiu um currículo com as suas disciplinas preferidas: Língua Portuguesa, História, Filosofia, Inglês. Nunca mais se contentou com a mediania dourada de até então. No final do primeiro período a pauta mostrava muitas classificações acima dos 15 valores.

Motivação e esforço. São duas palavras sem as quais não se pode abordar o tema do “sucesso educativo”, dizem os especialistas em pedagogia e psicologia. Como se faz um bom aluno? “A resposta passa pela diferença entre ter rendimento e aprender”, esclarece Ana Salgado, investigadora na área da autorregulação, na Universidade do Minho.
Antes convém pensar no que significa atualmente “ser bom aluno”. Será aquele aluno que consegue tirar 20 a tudo? Ou que é capaz de resolver problemas? Ana Salgado prefere a segunda visão. “Cada vez se reconhece mais a importância do aprender a aprender. Saber onde estão os recursos, como os utilizar para resolver o problema e aplicar o que se aprendeu a outros contextos.”

Para Luísa Moreira, coordenadora nacional do FMS Fénix, um projeto contra o insucesso escolar, entende que um bom aluno não acumula apenas competências cognitivas, mas também sociais e emocionais. Importa que o saber não ocupe espaço à consciência cívica e à interação social. Outro aspeto importante, para se ser um bom aluno, diz a professora, é “encarar a adversidade e o erro como algo natural que faz parte do processo de aprendizagem”.
Vários estudos internacionais têm mostrado o quanto o insucesso escolar não está apenas dependente da escola e dos próprios alunos. A condição financeira das famílias pode ser decisiva nesta equação.

O último relatório do PISA, intitulado “Low Performing Students: Why They Fail and How to Help Them Succeed”, publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), confirma precisamente isso. Na lista de fatores de risco associados aos maus resultados dos alunos de 15 anos lê-se que “em todos os países os alunos oriundos de meios socioeconómicos desfavorecidos são mais suscetíveis de obter piores resultados que os seus colegas mais favorecidos”.

O estudo reconhece ainda que a autonomia das escolas é benéfica para os resultados dos alunos. Por um lado, refere que a existência de recursos e a melhoria das infraestruturas escolares são fatores importantes, mas só produzem resultados até ao momento em que estão reunidas as condições mínimas de qualidade. Significa que não basta aumentar os orçamentos na área da educação para contrariar os maus resultados. É preciso pensar quando e onde é necessário investir.

Dados nacionais resultantes de uma avaliação dos percursos de sucesso dos alunos do 3.º ciclo em mil escolas públicas, divulgados pelo Ministério da Educação a 24 de fevereiro, confirmam a mesma desigualdade mostrada pela OCDE. Quanto melhores são as condições económicas das famílias e mais alto o nível de habilitações literárias das mães, melhores são os resultados dos alunos.

Luísa Moreira concorda que “o sucesso educativo é plural”. Significa que não depende só das motivações intrínsecas do aluno, mas também dos contextos familiares e dos recursos da escola. “O segredo está em construir uma resposta, tendo em conta toda esta complexidade, atendendo aos desafios que os alunos colocam ao longo do seu percurso escolar.”

Os docentes são uma espécie de terceira pessoa deste plural. “Têm aqui um papel muito forte, pois é sabido que a relação professor-aluno é fulcral para favorecer a aprendizagem dos seus alunos”, lembra Luísa Moreira. E quanto à instituição educativa? As expectativas sobre o papel a desempenhar no sucesso escolar dos alunos são conhecidas: “A escola pode e deve mobilizar os seus recursos humanos e materiais para potenciar condições favoráveis para que cada aluno, de acordo com as suas características, se torne o melhor possível nas mais diversas áreas do seu desenvolvimento.”

Planear, executar e avaliar
Mas não basta a motivação para se ser um bom aluno. “É preciso trabalho, treino e esforço”, acrescenta Ana Salgado. Resumindo, há que estudar. Mas nem todo o estudo alcança os melhores resultados. Porquê? A especialista responde que “nesta era das tecnologias, as distrações e as solicitações são muitas”. Televisão. Computador. Telemóvel. São fortes adversários na luta de estar sentado na secretária a estudar a matéria. “Não digo que o aluno tenha de repetir cem vezes a mesma tarefa. Mas tem de ter uma rotina, um hábito de trabalho e sacrifício de determinadas atividades.” A chave para gerir tudo isto, diz, está na autorregulação do comportamento.

Aplicada ao estudo, a autorregulação surge como uma estratégia – quase empresarial – para atingir o sucesso educativo. “Se o aluno conseguir aplicar a lógica do bom planeamento, ir monitorizando a execução e no final avaliar o que correu menos bem e tentar implementar uma mudança no dia seguinte, gradualmente, vai aproximar-se de uma eficácia máxima.”

Chegar a essa competência de organização requer muitos passos. Mas que podem ser dados desde o pré-escolar, com crianças entre os 3 e os 5 anos. Como? Colocando uma série de perguntas que ajudam a criança a regular o seu comportamento. Por exemplo: O que correu bem? O que gostas? O que não gostas? “São questões fundamentais para aos poucos a criança ir treinando a forma de pensar sobre a abordagem às tarefas.”

Cinco minutos de planeamento tornam o estudo mais rentável, garante Ana Salgado. Para o aluno perceber o que tem de fazer, que materiais necessita e o tempo que dispõe. Depois quando se passa à fase da realização da tarefa, seja estudar para um exame ou fazer os trabalhos de casa, duas horas de estudo efetivo, sem publicações nas redes sociais ou mensagens no telemóvel, são preferíveis a quatro horas a fazer um pouco de tudo.

De pequenino…
“Fazer um bom aluno é um processo que começa no nascimento e se prolonga até ao alcançar da autonomia”, diz Diogo Simões Pereira, diretor-geral da EPIS- Associação de Empresários pela Inclusão, um grupo de mais de 100 empresários que em 2006 se uniram para promover a inclusão social em Portugal.

Um processo “complexo” que o empresário – também pai – associa ao desenvolvimento da criança e onde família e escola vão tendo mais ou menos responsabilidades. Mas para o qual, alerta, “não existem receitas”. Ainda que se disponha a sugerir um conjunto de tópicos onde se percebe que o tema mereceu uma reflexão profunda.

Ora, fazer um bom aluno, na opinião de Diogo Simões Pereira, começa por uma infância feliz: “Com afetos, regras e valores assentes em bons exemplos dos pais e das pessoas envolventes”. Implica uma boa estimulação cognitiva e social antes dos 6 anos. “Se a criança estiver no pré-escolar dos 3 aos 6 estas questões estão muito facilitadas, mas ainda há muitos alunos em Portugal que saem de casa para o 1.º ano e perdem oportunidades de desenvolvimento.”
A promoção do sucesso desde o 1.º ciclo tem de ser uma prioridade. “É importante que a criança goste de ir à escola, goste dos colegas e dos professores”, nota Diogo Simões Pereira, para que sem problemas maiores possa realizar outra etapa “fundamental”: a do “aprender a ler, escrever e a contar”. É altura de sinalizar eventuais problemas que possam dificultar as aprendizagens: ao nível da visão, audição e da fala. E de estimular a autoaprendizagem.

Se o que está a impedir o aluno de aprender é a falta de conhecimentos prévios, como muitas vezes os professores reconhecem, a intervenção tem de ser rápida, diz Ana Salgado, para minimizar o impacto dessa experiência negativa. “Se a criança experienciar repetidamente insucesso, fica desmotivada e entra em evitamento com aquela disciplina, professor ou a escola como um todo, porque está continuamente a sentir que falha.”
No caso de défice de conhecimentos base, a solução, aponta a psicóloga, “é voltar atrás e trabalhar a tabuada, o cálculo, a matemática ou a leitura. O objetivo é perceber o que falhou e tentar recuperar através de um trabalho muito concreto naquele conteúdo”.

Além dos conteúdos, há outros aspetos que convém começar a nutrir nas crianças dos 6 aos 10 anos. “É importante começar a trabalhar a ideia do mérito e da atitude positiva face ao esforço, ao sucesso e ao fracasso”, diz Diogo Simões Pereira. Para o empresário, é vital que as crianças percebam desde cedo uma ideia-chave para toda a vida: “Que há duas formas de fazer as coisas, uma é bem, a outra é mal. E a segunda dá o dobro do trabalho, porque depois tem de se repetir para fazer bem.”

Por último, o sucesso garante-se também com emancipação. “Entre os 10 e os 12 anos é altura de começar a libertar o aluno para o estudo autónomo, ensiná-lo a gerir o seu tempo e a sua vida – como acordar sozinho, vestir-se, sair de casa ir de transportes públicos – toda essa autonomia é importante para o crescimento.”

A partir de certa idade é necessário trabalhar as ambições e os objetivos individuais. “Em muitos momentos, estar na escola é um esforço e os jovens têm de perceber para que serve.” Depois dos 14, 15 anos e a coincidir com a entrada no 9.º ano, os pais e os professores devem ajudar os alunos a encontrar a sua vocação.

Jorge descobriu a aptidão para o turismo ao participar numa visita guiada por Joel Cleto, historiador, pelas lendas de Matosinhos. Quer aliar numa profissão o gosto pela História e o Português. Conseguiu o que Diogo Simões Pereira considera essencial para alcançar o sucesso escolar no presente e profissional no futuro: “Devemos escolher as áreas de que gostamos mais e onde somos mais fortes. Até porque somos sempre melhores a fazer o que nos dá prazer.”

10 sítios na Baixa do Porto onde almoçar por 5€ (ou menos) – Observador

No bolso levámos só a mais pequena nota de euro e conseguimos almoçar em 10 espaços diferentes. Em alguns casos até recebemos troco, mesmo depois de comer um prato, pão, fruta e café.

Fonte: 10 sítios na Baixa do Porto onde almoçar por 5€ (ou menos) – Observador

Se por cada vez que alguém diz a frase “come-se muito bem no Norte” nascesse um euro nos cofres do Estado, a dívida estava saldada. No caso do Porto, é bom constatar que o boom turístico dos últimos anos não só não substituiu a boa comida por armadilhas para estrangeiros, como não tornou impossível almoçar na Baixa usando apenas a nota mais pequena que existe, a de 5€. Nos 10 sítios por onde passámos (12, se contarmos com o Comme Ça e a segunda Sandeira) há de tudo um pouco, desde menus de sandes a buffet. Há quem inclua a bebida, há quem prefira incluir o café. Já a sopa quase nunca falta à mesa. Conclusão: sim, ainda é possível almoçar na Baixa de forma económica.

Tábua Rasa

Rua da Picaria, 68. 22 319 7789

Quem procura algo para comer sabe que encontra na Rua da Picaria várias opções. Em dezembro abriu mais uma: o Tábua Rasa. Dedicado ao queijos e enchidos, os petiscos chegam à mesa numa tábua de madeira, assim como o menu de almoço. Por 5€, o cliente tem direito a uma sopa generosa, que é feita no local e varia diariamente, uma sande de queijo ou enchido (ou ambos), e uma bebida que tanto pode ser limonada, chá do dia ou água. De oferta chega uma tacinha com picles.

Galeria de Paris

Rua Galeria de Paris, 56. 22 201 6218

É um clássico, este espaço que parece uma mistura de museu com antiquário, graças à imensa tralha que decora cada centímetro das paredes. À porta, anuncia-se que é possível comer, entre as 12h00 e as 15h00, um prato, pão, fruta e café por 4,50€. Isso mesmo. Todos os dias há quatro pratos à escolha no buffet, entre peixe, carne ou vegetariano. Depois de escolher um, é só acompanhar com arroz, batatas, salada ou legumes salteados. No final da refeição chega a salada de fruta e depois o café. Se quiser um refrigerante ou uma cerveja terá de pagar mais um euro.

A apenas 300 metros de distância, na Rua de José Falcão, o mesmo dono da Galeria de Paris, José Albuquerque, abriu o Comme Ça. A política é semelhante: prato completo, buffet de saladas à disposição e água, também por 4,50€.

restaurantes

No Galeria de Paris há quatro pratos no buffet e um sem fim de objetos nas paredes a disputar a atenção dos clientes. (foto: © Sara Otto Coelho / Observador)

O Forno do Leitão do Zé

Rua Alexandre Braga, 78. 22 201 1410

Leitão até cinco euros? Também há, no mais recente espaço que O Forno do Leitão do Zé abriu no Bolhão, no início de 2015, depois de fazer sucesso no Mercado Bom Sucesso. Há dois menus de almoço por menos de cinco euros. Um é a mini sandes de leitão com batatas fritas, a 2,95€. O outro, mais completo, inclui rissóis de leitão, dois acompanhamentos e uma bebida, que pode ser cerveja, água, refrigerante e ainda um copo de vinho ou de espumante. Preço final: 4,95€.

Amarelo Torrada

Rua de José Falcão, 29. 22 321 6775

Abriu em abril de 2014 com a promessa de servir a melhor torrada da cidade. O menu de almoço não inclui torradas mas sim o prato do dia, uma bebida — frequentemente chá — e uma sobremesa ou uma sopa. Total: 5,50€. Mas quem não quiser mesmo gastar mais do que cinco euros tem à disposição o mesmo prato do dia, que tanto vai de arroz de pato e lombo de porco com amêndoa torrada a bacalhau com natas, mais a bebida por 4,50€. No prato nunca falta salada fresca ou legumes a acompanhar. O Amarelo Torrada é rico em luz natural e boa música, mas não tem muitos lugares sentados, pelo que é melhor chegar cedo para arranjar lugar.

amarelo torrada Lombinhos de porco com amêndoa torrada Chá de bagas de goji 2

Desta vez, o menu do dia no Amarelo Torrada eram lombinhos de porco com amêndoa torrada e chá de rooibos com bagas goji. Total: 4,50€. Por mais um euro chega à mesa a sopa ou um bolo, tudo feito no local. (foto: http://www.facebook.com/amarelotorrada)

Piquenique

Galerias Lumière, entre a Rua José Falcão e a Rua das Oliveiras. 91 431 8708

Quantas vidas já teve a pequena galeria comercial Lumière? Várias, incluindo o quase abandono e posterior atração noturna de copos, multidões e música alta. A nova vida começou em meados de 2014 e segue com muita saúde. Foi lá que encontrámos três espaços onde é possível almoçar respeitando o curto orçamento (5€) que este artigo exige.

O primeiro é o Piquenique, uma loja de doçaria familiar onde Diamantina Pinto e as suas duas filhas, Eduarda Pinto e Andreia Pinto, também servem almoços. A nota de cinco dá direito a um sumo natural, sopa (sobretudo cremes, como o de beterraba, que tem muita saída), e um prato. Macarrão à carbonara, bacalhau com natas e rissóis vegetarianos com arroz de alho e salada são apenas alguns exemplos. Às terças e sextas a comida é sempre vegetariana.

Piquenique Porto

Só três pessoas podem comer neste piquenique. Mas do lado de fora da loja há várias mesas e cadeiras. O difícil não é arranjar lugar: é resistir aos doces feitos ali.
(foto: http://www.facebook.com/o.piquenique)

Tête à croissant

Galerias Lumière, entre a Rua José Falcão e a Rua das Oliveiras. 91 726 1303

Como o nome indica, nesta cafetaria e salão de chá os clientes são, sobretudo, desafiados a ter um tête-à-tête com os croissants que ali se fazem diariamente. A pensar nas bocas que procuram sabores mais salgados ao almoço, o Tête à croissant criou dois menus. O primeiro, mais ligeiro, é composto por uma sopa, um croissant (seja de atum, de ovos mexidos com bacone até salsicha e mostarda) e uma bebida, normalmente uma limonada ou chá frio do dia, com opção de refrigerante ou cerveja. Total: 3,50€, mais 50 cêntimos se o croissant for recheado com salmão fumado e queijo fresco ou se for de presunto e queijo brie.

O segundo menu é para comer de faca e garfo. Custa 5€, também inclui sopa e bebida e o prato vai variando todos os dias. Nos últimos tempos, explica Daniela Cunha, a responsável, a aposta tem ido para os folhados, como o de chourição, queijo, cogumelos frescos e azeitonas, ou então quiche de camarão com atum, azeitonas e queijo, e arroz de pato em cama de massa folhada. Tudo é feito ali e o prato vem com salada a acompanhar. No quadro de ardósia é possível saber qual será o menu do dia seguinte.

Tete a croissant galerias lumiere

Com a sopa já comida, a refeição prossegue com um folhado de atum com salada e uma limonada. A conta: 5€. (foto: © Sara Otto Coelho / Observador)

Zé do Prego

Rua das Oliveiras, 118. 22 201 2265

Porque o Verão está aí a chegar, o Zé do Prego, que no final de 2014 chegou à cidade decidido a apostar nos pregos em bolo do caco, anunciou há dias a criação de um menu de almoço mais barato que o normal (7,50€). Para manter a linha e mais 2,50€ na carteira, o cliente tem direito a uma sopa, uma bebida, um mini prego e um café no final. Grande Zé.

A Sandeira

Rua dos Caldeireiros, 85. 22 321 6471. Também nas Galerias Lumière, entre a Rua José Falcão e a Rua das Oliveiras. 96 398 2700

Há quem não passe sem uma sande destas por semana. A Sandeiraoriginal abriu na Rua dos Caldeireiros e atualmente também se encontra nas Galerias Lumière. Em ambos os espaços existe um menu de almoço, disponível das 12h00 às 15h30, que inclui uma sopa (normalmente um creme), uma sande ou salada e uma bebida (a limonada da casa está sempre disponível, assim como os chás ou a groselha). Na Sandeira das Galerias só há quatro sandes à escolha no dia, devido ao elevado movimento. Na original é possível escolher qualquer uma do menu.

a sandeira

Vai uma sande na Sandeira? Com sopa e bebida o repasto fica pelos 5€.
(foto: © Divulgação)

Bella Roma

Rua de Sampaio Bruno, 19. 22 044 0586

Desde 1991 que este restaurante e pastelaria espreita numa lateral da Avenida dos Aliados, com uma ementa alargada de almoços e doces. A partir das 12h00 e até às 14h30, o Bella Roma convida a gastar a nota de 5€ e oferece em troca um prato do dia, a bebida (refrigerante, água, taça de vinho ou fino), o café e um doce em miniatura. O espaço interior é amplo e do lado de fora a esplanada é convidativa nos dias de sol. Quem não gostar do prato do dia tem sempre os “pratinhos económicos”. O esparguete à bolonhesa (3,50€) e a sardinha assada com pimento (3,75€) são os mais baratos.

Ó Maria

Rua da Conceição, 106, 22 329 5805

As Marias chegaram ao Porto às portas do verão passado. Apresentemos a principal atração do Ó Maria, as pequenas sanduíches batizadas com nomes de Marias famosas. O que quer dizer que é possível ter à mesa uma Maria Bethânia ou dar uma dentada à Maria Albertina. Mas vamos ao menu de almoço: uma mini maria, uma sopa, uma bebida e uma sobremesa valem a mais pequena nota de euro. Uma maria pechincha, portanto.

 

Os adolescentes portugueses têm um problema com a escola. E tem piorado – PÚBLICO

Os adolescentes portugueses sentem-se mais apoiados pela família. Queixam-se menos de dores de cabeça, de estômago, de dificuldades em dormir. São dos que mais tomam o pequeno-almoço todos os dias, o que, é sabido, é bastante saudável. Têm consumos de álcool ligeiramente abaixo da média observada noutros países. E fumar vai sendo menos frequente. O novo grande estudo internacional sobre a adolescência, da Organização Mundial de Saúde (OMS), faria respirar de alívio milhares de pais em Portugal se ficássemos por aqui. Mas não é o caso. Primeira má notícia: os adolescentes portugueses são dos que gostam menos da escola, em 42 países e regiões analisados. E piorou bastante nos últimos anos.

“Quando em Portugal perguntamos do que é que gostam na escola, as aulas aparecem em último lugar. Pior que as aulas, só mesmo a comida da cantina. E isto tem sido recorrente, somos sempre dos piores no gosto pela escola e na percepção de sucesso escolar. Não há nenhuma razão demográfica ou geográfica que eu conheça que explique tal, e o atraso provocado pelo obscurantismo de antes do 25 Abril (sendo uma incontestável verdade) já devia, por esta altura, estar ultrapassado.” Quem o diz é Margarida Gaspar de Matos, a investigadora que em Portugal coordena este estudo da OMS desde que, em 1998, o país começou a participar.

Chama-se Health Behaviour in School-aged Children, é feito de quatro em quatro anos. Os resultados da edição de 2014/2015 são apresentados nesta terça-feira de manhã, em Bruxelas. Baseiam-se nas respostas de mais de 220 mil adolescentes europeus e do Norte da América.

A recolha foi feita em escolas com 6.º, 8.º e 10.º anos. O objectivo é avaliar hábitos, consumos, comportamentos, com impacto na saúde física e mental, em diferentes fases de crescimento: aos 11, aos 13 e aos 15 anos.

Em Portugal participaram 6000 adolescentes — em Dezembro de 2014 o PÚBLICO divulgou as primeiras conclusões do inquérito nacional, aplicado nesse ano, que mostravam um número crescente de jovens a queixar-se de sintomas que revelavam mal-estar psicológico, tristeza, stress, insatisfação. Agora, com este relatório internacional, esses dados são vistos à luz do que se passa noutros pontos do globo.

A escola vai mal

Gostas muito da escola? Cerca de um quarto dos adolescentes de 15 anos dos 42 países e regiões participantes dizem que sim. A Arménia tem o melhor resultado, a Bélgica francófona o pior, Portugal surge com a 33.ª pior posição: só 11% dos rapazes e 14% das raparigas dizem que gostam bastante da escola.

Os adolescentes portugueses são também dos que maior pressão sentem com a vida escolar e dos que menos se têm em conta como alunos. É assim desde cedo: aos 11 anos, aparecem quase no fim da tabela, com a 38.ª pior auto-avaliação do seu desempenho escolar. Aos 15 é pior. Só 35% das raparigas e 50% dos rapazes consideram que têm bom desempenho escolar, quando a média dos 42 países é 60%.

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Os macedónios, os albaneses, os búlgaros, os israelitas e os ingleses são os que mais acham que na escola até se saem bem; os portugueses e os húngaros estão no extremo oposto.

“Isto é um forte alerta aos responsáveis pela educação neste país”, diz Margarida Matos, em resposta ao PÚBLICO. “É preciso avaliar a situação, identificar determinantes, estudar casos de sucesso noutros países, aprender com o que funciona bem. A minha percepção, neste e noutros casos, é que temos uma tendência nacional para nos esmerarmos na legislação, mas esta raras vezes é antecedida de uma avaliação dos pontos fortes e fracos das situações e ainda mais raras vezes é seguida por um estudo das consequências e dos riscos. Do ponto de vista da populações (e neste caso das famílias) parece que os governantes andam a saltar de medida em medida ‘apenas’ para fazer diferente, sem grande racional por trás.”

Nem sempre estivemos tão mal: em 1997/1998, ano de estreia dos portugueses no estudo da OMS, o país era o 2.º no gosto pela escola, em 28 participantes. Melhor do que a Noruega, Israel ou os Estados Unidos, por exemplo. Mais de um terço dos jovens portugueses de 15 anos diziam então que gostavam muito da escola.

Em 2001/02 descíamos para 8.º no ranking. Quatro anos depois já aparecíamos em 22.º. E se em 2009/10 se registou uma ligeira melhoria (o país ficou 21.º), em 2014/15 estamos pior do que nunca, com o tal 33.º lugar.

O problema não são os colegas — que são, na verdade, o que os portugueses mais gostam na escola, seguindo-se os “intervalos” entre aulas. O problema são mesmo as aulas, consideradas aborrecidas, e “a matéria”, que é descrita como excessiva, prossegue a investigadora da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade de Lisboa.

As diferenças de género são evidentes: as raparigas têm quase sempre pior percepção da sua competência escolar. Aos 15 anos gostam menos da escola do que eles. E são também elas que mais se mostram mais stressadas com os trabalhos para casa. De resto, em Portugal, como no resto do mundo, as meninas estão a suscitar preocupações crescentes aos peritos da OMS. “São mais propensas a relatar saúde irregular, múltiplas queixas, menor satisfação com a vida”, lê-se nas conclusões do relatório internacional.

E a vida em geral?

“A experiência que se tem com a escola pode ser crucial no desenvolvimento da auto-estima e de comportamentos saudáveis. Os adolescentes que sentem que a escola os apoia estão mais propensos a ter comportamentos positivos e a serem mais saudáveis”, prosseguem os peritos da OMS, “têm níveis de satisfação com a vida mais elevados, menos queixas relacionadas de saúde e apresentam menor prevalência de consumo de tabaco”. Em suma: as escolas têm um papel essencial no bem-estar.

Em Portugal, contudo, como já se viu, a escola não parece ser grande fonte de felicidade. E os temas “satisfação com a vida” e “bem-estar” foram mesmo dos mais surpreendentes no inquérito português quando ele foi divulgado no fim de 2014. Quase um em cada três adolescentes disse que se sentia deprimido mais do que uma vez por semana. Eram 13% em 2010. E um em cada cinco alunos do 8.º e 10.º anos magoara-se a si próprio nos 12 meses anteriores ao inquérito, sobretudo cortando-se nos braços, nas pernas, na barriga.

As perguntas relacionadas com auto-lesões não foram incluídas no estudo internacional agora tornado público, uma vez que nem todos os países as colocaram nos inquéritos. Não eram obrigatórias. Mas atente-se, por exemplo, à pergunta sobre “satisfação com a vida”: os adolescentes portugueses estão comparativamente em pior posição, aos 13 e 15 anos, do que os de outros países. Números: em Portugal, 74% das raparigas e 83% dos rapazes de 15 anos deram uma nota de 6 ou mais à sua felicidade (numa escala de 0 a 10); a média do HBSC é de 79% e 87%, respectivamente, o que significa que sobretudo as raparigas portuguesas estão aquém da média. Globalmente, o país aparece neste indicador em 36.º lugar, em 42. Há quatro anos, estávamos melhor, em 28.º.

Os luxemburgueses, os galeses, os ingleses, os polacos e os macedónios são os menos satisfeitos de todos, aos 15 anos de idade. E é na Arménia, na Moldávia, na Albânia, na Holanda e na Suíça que se encontram as maiores percentagens de satisfação com a vida.

“O que aconteceu em Portugal foi que os jovens com elevada satisfação melhoraram, os com muito baixa satisfação continuaram assim, mas os que tinham uma satisfação mediana desceram”, explica Margarida Gaspar de Matos. A recessão económica, diz, “além de ter feito descer a satisfação com a vida, foi fonte de iniquidade, uma vez que não afectou os mais satisfeitos, havendo uma associação da satisfação com a vida com a condição económica — quanto melhor condição económica mais satisfação com a vida”.

Sexo com preservativo

Boa notícia é o facto de quando se fala dos chamados “sintomas múltiplos” — dores de estômago, de cabeça, dificuldades em dormir — o país aparecer muitíssimo melhor do que outros, com percentagens bem abaixo de média de jovens a declarar tais sofrimentos. “Ainda temos um bom Sistema Nacional de Saúde, certo? A precariedade afecta primeiro a satisfação e o bem-estar e só depois a saúde física”, continua a investigadora.

E como se saem os portugueses em matéria de consumos? Há “bons resultados, comparados com as médias HBSC”, prossegue. Comece-se pelo tabaco: 10% das raparigas e 12% dos rapazes de 15 anos fumam pelo menos uma vez por semana, a média dos países do HBSC é 11% e 12%. Quanto ao uso decannabis passa-se o mesmo (entre 10 e 13% já usaram, a média é 13% e 17%, o país onde há mais gente a consumir é a França, entre 14 e 16%).

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No que diz respeito ao uso de preservativo, apesar diminuição registada em Portugal, desde 2010, “estamos, ainda assim, nos sete primeiros lugares”, nota Margarida Matos: 75% das raparigas de 15 anos e 73% dos rapazes da mesma idade que já tiveram relações sexuais disseram que usaram preservativo na última vez. Suíça, Grécia e Ucrânia têm as taxas de utilização mais altas; Polónia, Malta e Suécia as piores.

A propósito, mais um dado: aos 15 anos, 13% das raparigas e 26% dos rapazes portugueses disseram já ter ido relações sexuais, contra uma média internacional de 17% e 24%, respectivamente. De resto, em relação há quatro anos, há menos jovens a iniciar a sua vida sexual antes dos 15 (em Portugal a percentagem era de 18% e 27%; a nível mundial era de 23% e 29%).

No entanto, em termos globais, diminuiu a percentagem de jovens que usam preservativo, de 78 para 65% (média HBSC).

As más notícias regressam quando se chega ao capítulo do peso/obesidade. Em Portugal, há mais adolescentes com excesso de peso ou até mesmo obesos do que a média. No grupo dos miúdos de 15 anos, o país está no 12.º lugar (entre 16% e 21%, respectivamente raparigas ou rapazes, apresentam peso a mais ou obesidade, o que significa um ligeiro aumento em relação há quatro anos).

Pesados e parados

As meninas portuguesas de 13 anos são mesmo das que têm mais excesso de peso nos 42 países analisados: 24% têm peso a mais ou estão já obesas, sendo que uma prevalência igual é observada no Canadá e maior só em Malta.

Portugal tem ainda um ponto a seu desfavor: aos 11, 13 ou 15 anos os adolescentes portugueses são dos que menos exercício físico fazem diariamente — o indicador é “60 minutos por dia de actividade física moderada a vigorosa”, que é o recomendado, como lembra a OMS.

“Temos agora uma regulação cuidada sobre a alimentação nas escolas”, nota Margarida Matos. “Mas por qualquer motivo os alunos continuam a queixar-se que comem mal.” Ou seja, “tanto na área da alimentação na escola como na área da prática da actividade física, o que quer que ande a ser feito não está a dar resultado”. Serão necessárias novas abordagens.

Alguma intervenção centrada na “educação para a diferença, para a tolerância e para a expressão convivial de pontos de vista diferentes” é também sugerida pela investigadora, para atacar a questão do bullying.

Aos 11 anos, por exemplo, entre 11% (raparigas) e 17% (rapazes) disseram que foram alvo de bullyingna escola, “duas ou três vezes por mês nos últimos dois meses”. A média é 13%. O país tem, assim, a 16.ª taxa mais alta de alunos de 11 anos que se dizem vítimas de bullying.

O cenário piora quando se avalia a percentagem de adolescentes que foram vítimas “pelo menos uma vez nos últimos dois meses” — ou seja, quando se procura aferir um bullying menos frequente, 34% dos alunos de 15 anos dizem ter sido vítimas. Bem acima da média HBSC de 23%.

A coordenadora do HBSC sublinha que “diminuíram muito as situações de vitimização desde 2002” e que “agora estamos ‘apenas’ um pouco acima da média”. Subsiste, contudo, “algo de chamemos-lhe ‘cultural’” — relações interpessoais algo “belicosas” entre pares, mesmo quando se diz que se gosta dos colegas: é “o empurrão”, é o “não deixar falar”, é o “chamar parvo”, é o “insulto ocasional”.

Margarida Matos remata: “Talvez esteja na hora de incluir, nos programas das escolas, um aspecto convivialidade positiva entre pares, nomeadamente nas questões entre idades, entre géneros e entre culturas.”

Fonte: Os adolescentes portugueses têm um problema com a escola. E tem piorado – PÚBLICO

Facebook Unseen – Remova os relatórios do Facebook Messenger

A Facebook Unseen é uma extensão do Chrome que permite ocultar o relatório de leitura nas mensagens deste serviço.

Fonte: Facebook Unseen – Remova os relatórios do Facebook Messenger

 

O Facebook Messenger é um dos mais conhecidos serviços de comunicação online, contando com milhões de utilizadores mensais.

Hoje vamos dar a conhecer uma nova extensão do Chrome que permite ocultar o relatório de leitura nas mensagens deste serviço.

 

O Facebook Messenger é um serviço que conta com 800 milhões de utilizadores mensais, sendo uma das principais aplicações de comunicação online. Este serviço incorpora várias funções úteis ao utilizador, mas existe uma em especial que não agrada a todos.

Referimo-nos à informação relativa ao relatório de leitura das mensagens que permite que os outros utilizadores saibam quando uma mensagem foi lida, podendo gerar alguns problemas com aquelas pessoas que querem respostas com a maior brevidade possível.

 

Facebook Unseen… uma ferramenta útil

De forma a escolher se queremos que essa informação seja exibida ou não, hoje damos a conhecer uma extensão do Google Chrome que nos oferece a possibilidade de optar por mostrar ou não o relatório de leitura, chamada Facebook Unseen.

Como referido anteriormente, esta extensão permite definir manualmente quando queremos bloquear do envio do relatório de leitura. Ao instalar a extensão, por omissão não é enviado qualquer relatório de leitura, sendo o utilizador que define quando quer voltar a enviar essa informação.


Conheça também: Facebook Chat Privacy

Além do relatório de leitura, esta extensão permite ainda ocultar o indicador apresentado ao outro utilizador quando se está a escrever a mensagem.

Esta extensão vem devolver ao utilizador algum controlo, permitindo uma decisão sobre que informações devem ser partilhadas com os nossos contactos.

Facebook Unseen

Forrest Gump Soundtrack – YouTube

Um adeus sem glória

Na noite de amanhã, há festa na Baixa de Viana do Castelo. A população foi convidada a sair à rua. Deve levar champanhe e bolo-rei. E ninguém está equivocado, não é um réveillon fora de tempo. Nem sequer se pretende festejar a tomada de posse do novo presidente da República. O pretexto para a comemoração é outro: a despedida de Aníbal Cavaco Silva.

O homem que esteve presente na vida de muitos portugueses, uma boa parte ainda estudantes até à idade adulta, sai da vida política e parece não deixar saudades. Nem mesmo entre os da sua família partidária. Cavaco Silva atravessou, na política, as últimas quatro décadas de Portugal. E dividiu o país. Abandona Belém sem glória

Eleito sempre por largas maiorias, ficará na História, ao contrário do que os mais críticos tentam adivinhar. Foi primeiro-ministro no auge da chegada dos fundos comunitários a Portugal. E não conseguiu, com o ímpeto reformista que lhe era atribuído, mudar Portugal de forma estrutural.

Fez aquilo que depois criticou nos outros. Construiu, construiu, construiu… e no país nada ficou alicerçado capaz de mudar, de facto, as coisas. Os muitos milhões esfumaram-se, sem ficar raiz, e Portugal ficaria quase na mesma. Como no tempo dos Descobrimentos, “ao cheiro dessa canela”, o país se despovoou. Voltaria às velhas rotas da emigração.

Injusto. Sim. Portugal mudou muito. Mas mudou no sentido daquilo que Cavaco e o Governo de Passos Coelho, por si apoiado quase sem disfarce, tanto criticaram. Todos nós, os que se formaram na vida adulta “tutelados” por Cavaco, nos lembramos: foi ele o primeiro-ministro do crédito fácil, foi dele o tempo em que era quase absurdo não comprar, em cada esquina alguém nos oferecia um crédito irrecusável. Foi ele, o primeiro-ministro Cavaco, que mandou abater os nossos barcos e fala agora do oceano como se da terra prometida se tratasse. No seu tempo de chefe do Governo, subsidiava-se a destruição dos olivais, da vinha, a “triste e fatal agricultura” de outros tempos sofria um rude golpe. Os campos ficaram mais abandonados, a desertificação cresceu veloz. Hoje dão palmadinhas nas costas dos jovens agricultores.

O Cavaco presidente foi outro. O homem que nunca se enganava, o homem que detestava enfrentar a contestação das ruas, como se a discordância fosse algo impuro num regime democrático. Aníbal Cavaco Silva despede-se, diz ter feito tudo em prol do interesse nacional. Não devemos duvidar das suas palavras. A nação de Cavaco é, contudo, uma nação antiga. A nação dos pobres, mas sérios.

Na noite de amanhã, há festa em Viana do Castelo – e noutros pontos do país, com certeza.

Fonte: JN

08.03.2016
PAULA FERREIRA

Viriato Soromenho Marques: “Só um milagre poderá salvar a Europa”

Viriato tem dúvidas sobre um acordo de governo que não discutiu uma política face à Europa, a “principal questão doméstica”

José Viriato Soromenho Marques nasceu em Setúbal, a 9 de Dezembro de 1957. Continua a viver em Setúbal. É professor catedrático na Universidade de Lisboa e um dos cérebros mais brilhantes que o país tem. Foi militante ecologista (dirigente do Setúbal Verde e da Quercus) mas nunca quis ser militante de um partido, porque não gosta de ambientes com “excesso de testosterona” que lhe travem o pensamento crítico em favor da lealdade partidária. Esta semana vai apresentar o livro de António José Seguro – a tese de mestrado que o ex-secretário-geral do PS concluiu quando já tinha sido derrotado no partido depois daquilo a que Viriato chamou “a guerra civil”.

Uma conversa com Viriato Soromenho Marques é um murro na cabeça para quem, como tantos de nós, se sente mais confortável com o processo de negação coletiva que atinge o país e a Europa.

Antigamente as pessoas dividiam-se entre europeístas e eurocéticos. Sempre foi um europeísta, mas parece cada vez mais eurocético…

Não me situo nessa dicotomia. Para mim, o federalismo europeu surgiu sempre como uma escolha estratégica e racional que iria favorecer o futuro dos milhões de pessoas que vivem na União Europeia. Nunca tive uma visão excessivamente positiva ou mitológica da Europa como portadora de um destino especial, como muitos europeístas têm. Conheço demasiado a história da Europa para ter essa visão. Quando percebemos que nos últimos 100 anos a grande força de instabilidade do sistema mundial foi a Europa e que os maiores crimes contra a Humanidade foram cometidos na Europa não é possível ter uma boa consciência, a não ser que seja uma consciência com alguma falta de informação. Simplesmente, a vida é como é, as coisas são como são e cada geração tem direito a viver para lá do peso das memórias. Sempre pensei que para a minha geração a Europa seria claramente o quadro de referência. O que teríamos de fazer como europeus era construir uma casa política onde pudéssemos viver com as nossas diferenças, com os nossos pontos de contacto, com as nossas assimetrias, com as nossas desigualdades. Para mim o projeto europeu sempre foi um projeto que seria federal ou não seria, como infelizmente está a acontecer. O euroceticismo dominante é uma atitude negativa, intelectualmente muito rígida, muito dogmática, que parte de um princípio quase antropológico de que os europeus não têm emenda. A realidade está a dar alguma razão aos eurocéticos. Acho a dicotomia errada mas sou o primeiro a reconhecer que, no momento em que estamos a falar, vivemos uma situação muitíssimo complexa em que existe também uma euforia da negação. Numa análise desapaixonada da realidade temos que reconhecer que nunca a União Europeia esteve tão ameaçada. Neste momento não é apenas a União Monetária que está em causa. Está tudo em causa! E se analisarmos os discursos políticos de quem toma decisões vemos que há uma incapacidade de traduzir, na palavra, este estado de coisas. Há um impulso para a negação.

Há um denial coletivo?

Há um denial coletivo que se encontra no senhor Juncker, no Draghi, nos principais líderes europeus, na Alemanha. E na Alemanha já não falo na senhora Merkel, que neste momento está numa situação totalmente defensiva. Mas um dos políticos europeus mais frívolos, David Cameron, caminha em cima de um campo de minas alegremente. Certamente porque não percebe que está em cima de um campo de minas.

Acha mesmo que há uma possibilidade real do Reino Unido sair da Europa?

O meu palpite é o de que o Brexit, in extremis, não acontecerá.

Mesmo com o Boris Johnson a apoiar a saída da União?

Sim, mas chamo a atenção que muitos analistas que respeito muito, como Wolfgang Munchau, dizem que ninguém pode ter qualquer certeza racional. Portanto, eu estou a falar de fé. É um palpite. O debate sobre o Brexit vai ser o debate típico europeu dos últimos cinco, seis anos: é o debate sobre o medo. Ver qual o partido que mete mais medo aos eleitores.

Mas os banqueiros da City estão assustados…

O medo é muito palpável. Quando foi o referendo da Escócia percebia-se que havia uma dimensão de medo, de pânico, e foi esse pânico e esse medo que levou a Escócia, contra a vontade dos escoceses – quem conhece bem a Escócia sabe que os escoceses querem separar-se do Reino Unido – a votar contra a independência. As pessoas votam também a pensar na sua qualidade de vida, nas suas expetativas de estabilidade económica. Vamos ter toda a imprensa económica, todas as entidades internacionais a fazer pressão e o próprio Cameron a fazer campanha pela permanência. Mas continua a haver um risco real. Cameron, primeiro, diz que a Europa é uma ameaça para o Reino Unido, e depois de simular que conseguiu o que queria vem dizer que o Reino Unido está melhor dentro da Europa. Há um limite para a paciência do eleitor que, mesmo pouco esclarecido, percebe certas coisas. E percebe a incoerência do discurso. Se isto for combinado com uma ideia – que seria falsa – de que a vaga de refugiados seria uma responsabilidade da União Europeia, isto pode levar a resultados absolutamente perversos. Estamos a chegar a uma situação em que temos que ter a humildade de reconhecer que, provavelmente, vamos a caminho de uma singularidade. Temos a União Monetária que continua desconcertada, o Brexit, o Grexit, a Marine Le Pen e a possibilidade de um acontecimento sistémico no sistema financeiro. O Deustche Bank perdeu 40% em bolsa, o sistema bancário europeu perdeu 20% na entrada do ano. O Deustsche Bank não é um banco só alemão, é um banco com repercussões mundiais. A exposição que o Deustche Bank tem aos produtos derivados, aos produtos tóxicos, é astronómica. Evidentemente que um banco só entra em falência, tal como um Estado, quando deixa de cumprir as suas obrigações. Mas o Deustche Bank tem sido alimentado por esta crise! Pela ilusão que os europeus têm de que a Alemanha é um país muito sólido!

A crise de 2008 foi devastadora. Achas que podemos estar na iminência de uma crise ainda pior?

Há analistas do setor financeiro que dizem que em termos de impacto no sistema global o Lehman Brothers corresponde a um 1/5 do Deustche Bank. A questão fundamental é que não criámos nada desde 2008 nem na Europa nem fora da Europa que seja capaz de criar qualquer espécie de resposta a uma crise.

Não se aprendeu nada com a crise de 2008?

Rigorosamente nada. Os analistas têm considerado que o que aconteceu no Deustche Bank é uma reacção à entrada em vigor da União Bancária… A União Bancária o que faz é copiar mal, pessimamente, alguma coisa que qualquer união monetária séria deveria ter.  Uma união monetária que implica circulação de trabalhadores e capital tem que ter um sistema de seguro para os bancos. Uma das coisas que mais pena me dá é perceber que esta crise europeia também é uma crise de inteligência, de formação, de incompetência. A nossa crise europeia combina uma visão ideológica – que geralmente é uma visão sempre pobre porque a ideologia substitui o pensamento crítico – com incompetência técnica. Ou seja, peritos, experts, pessoas formadas que deveriam acompanhar os decisores políticos não tinham capacidade para o fazer e deram receitas totalmente erradas. E depois a frivolidade política. As pessoas andam na política para ganharem as eleições, para se manterem no poder e o interesse público é a última coisa que aparece na agenda.

E isso aconteceu em todos os países europeus?

Será dramático se viermos, daqui a um ano, a ter saudades da senhora Merkel. Mas isso pode acontecer perfeitamente! E não há ninguém mais frívolo que o senhor Hollande, que só depois dos atentados terroristas. É um homem cuja popularidade depende dos atentados à segurança das franceses. Numa situação normal, Hollande está sempre abaixo da linha de água.

Há quem diga que Sarkozy fazia mais frente à senhora Merkel…

Sarkozy, apesar de tudo, penso que e noutro campeonato. É um homem muito perigoso. Não nos podemos esquecer que Sarkozy é um dos pais da crise dos refugiados, na medida em que, deliberadamente, foi o patrocinador da destruição da Líbia. Fez um crime contra a Humanidade, que foi destruir um Estado sob o pretexto de retirar de lá um ditador. Agora, veja-se o que está lá. A Líbia, hoje, é o Mad Max. Uma pessoa que vá à Líbia hoje pode levar um tiro, pode ser violada, pode ser raptada. Aquilo é o feudalismo dos petro-dólares e dos grupos terroristas. Nós, europeus, só podemos ter vergonha! A aviação da NATO, a pedido da Grã-Bretanha e da França, andou durante sete meses a bombardear as tropas do Kadhafi. A maior aliança militar do mundo participou numa guerra em que grupos terroristas ganharam!

Mas fala-se como se isso não tivesse acontecido…

Como se não tivesse acontecido! Aliás, não há culpa, ninguém faz autocrítica. Só não estamos piores em relação à Síria devido ao parlamento britânico. Em Setembro de 2013 esse jovem frívolo chamado David Cameron propôs que a campanha de bombardeamentos que foi usada dois anos antes contra Kadhafi fosse usada contra Assad! E houve um grupo de 30 e tal deputados conservadores que disse “não”. E felizmente a coisa não aconteceu. Senão o Estado Islâmico teria tomado conta da Síria toda!

Acha que Assad é mesmo assim um tampão?

Do ponto de vista meramente egoísta europeu, Assad tem assegurado a defesa das comunidades religiosas cristãs. E há outra coisa muita estranha: o silêncio sobre o massacre de milhares e milhares de cristãos nos países que o terrorismo vai ocupando devido aos erros do Ocidente. Temos a destruição de comunidades que estavam há séculos… O regime de Saddam Hussein protegia os cristãos. Saddam tinha um ministro dos Negócios Estrangeiros, o Tarek Aziz, que era um cristão iraquiano. Hoje, em dia não há cristãos no Iraque. Haverá cristãos escondidos ou exilados.

Portanto, o Ocidente é o culpado da ascensão do Estado Islâmico?

Mas absolutamente! Tudo isto é uma história trágica que começa com uma resposta errada ao 11 de Setembro. Uma resposta que provocou o agravar da situação. Na altura do 11 de Setembro escrevi que os Estados Unidos tinham todo o direito de intervir no Afeganistão na medida em que os talibãs e a al-Qaeda estavam sedeados no Afeganistão. Mas a legitimidade terminava aí. O ataque ao Iraque é completamente senil! Nem sei como em Portugal tanta gente o apoiou.

Teve o apoio de Durão Barroso, de metade do nosso país, de Tony Blair, de vários países europeus…

É impressionante. Mas uma multidão pode aplaudir uma coisa errada e essa coisa continua a ser errada independentemente da multidão a apoiar.

Mas não houve qualquer autocrítica…

Isso é uma coisa que me deixa desgostoso relativamente a uma ética pública. Hoje em dia não temos a obrigação de termos um código de moralidade universal porque vivemos numa sociedade que é, do ponto de vista axiológico, do ponto de vista dos valores, bastante fragmentada. Não temos hoje uma derivação cristã na moral universal, não temos uma ética kantiana universal baseada nos princípios… Hoje, no fundo, a ética mais dominante é uma ética utilitarista e essa ética utilitarista permite, ela própria, muitos cálculos relacionados com o benefício e a utilidade para cada um dos sujeitos. Acaba por ser o utilitarismo que convida a uma certa anomia moral, ou seja, uma ausência de lei moral. No entanto, a ética pública deveria ser garantida nas profissões e sobretudo na actividade pública.

E temos a União Europeia ameaçada

Temos um projecto europeu ameaçado por um conjunto de forças mais complexas. Já falámos do Brexit, temos o Grexit. Temos Schengen, temos a Marine Le Pen…

Estamos a dias de ver acabar a liberdade de circulação europeia?

Se cada um destes problemas fosse o único que a Europa tivesse já seria grande. Mas tudo isto é muito difícil. Só um milagre é que nos poderá salvar, qualquer coisa de inesperado.

Só um milagre poderá salvar a Europa?

Só um milagre poderá salvar a Europa.  A posição alemã é confrangedora. Vemos as pessoas agarradas a uma visão que demonstrou estar errada. O diagnóstico desta crise, a da crise das dívidas soberanas, é completamente patético. Quando verificamos que por cada euro que foi colocado nos resgates dos países tivemos mais de 10 euros dados ao sistema financeiro! É a mesma coisa que o Bush  a decidir: 19 terroristas no 11 de Setembro, 17 das quais da Arábia Saudita, vamos atacar o Iraque! Não se iria atacar um país amigo, o país que financia quase todos os congressistas nos Estados Unidos, a Arábia Saudita!

Não quero fazer de um cientista político um astrólogo. Mas a Europa aguenta-se então até quanto?

Julgo que estamos num terreno de grande incerteza. Não se podem fazer previsões nem prognósticos. Dado que não resolvemos as crises antigas e acumulámos novas – e existe uma mudança de perfil económico na China, que também é importante para nós, a mudança da política americana – é provável que já tenhamos passado o ponto de não-retorno. Isto é, aquele ponto em que, como estávamos em 2014, ainda teríamos tempo para encontrar uma solução engenhosa que pudesse evitar o abismo. E que caso ele acontecesse, tivessemos uma resposta. Mas neste momento a Europa é um navio sacudido e amotinado e há uma tempestade no exterior. Qual vai ser a singularidade: o Brexit? O Deustche Bank? Os refugiados? Acho que vamos ter um acontecimento, um cisne negro. Mas depende da dimensão que vai ter. Pode ser um cisne negro de tal forma poderoso que desencadeia um processo sistémico de implosão. Penso que isso aconteceria com uma nova crise do sistema financeiro, que criasse um pânico global. Qualquer crise europeia vai ser sempre uma crise mundial. A Europa continua a ser a principal ameaça à estabilidade mundial, como em 1914 e em 1939. Não é o Daesh, não é a China. Nós somos o centro do furacão. Se a União Europeia se desmoronar as ondas sísmicas vão sentir-se em todo o mundo. Imagine-se o que é a União Monetária implodir, os países regressarem às suas moedas nacionais. O que vai acontecer aos banqueiros centrais em Tóquio, em Moscovo, em Washington que têm centenas de milhares de milhões de euros? Infelizmente somos demasiados grandes na Europa para que a coisa passe despercebida. O que pode acontecer, e é a minha esperança, é que a visão do abismo permita uma iluminação no sentido de evitar o pior.

E temos dirigentes para isso?

Essa é que é a questão. Em qualquer dos casos também podemos dizer o seguinte: há muitas forma de cair. Quando os aviões caem alguns têm sobreviventes. Nós, como país, temos que estar preparados para a queda. Portugal que estar preparado para a queda. Não se deve colocar a jeito. Não gostei da forma como este governo andou durante várias semanas a dizer que estava tudo bem quando a nossa dívida pública estava nos 4%. Não é assim que vamos longe.

Vai apresentar o livro do ex-líder do PS António José Seguro esta semana…

É um livro muito interessante, academicamente muito bem feito, um trabalho muito sério. E é curioso verificar que a reforma do parlamento que ele liderou de alguma forma antecipa um bocadinho esta situação de haver um parlamento, pela primeira vez na III República, no centro da vida política.

Seguro era um líder sério, que foi injustiçado?

Max Weber dizia uma coisa em que penso sempre: “Quem quiser salvar a sua alma vota nas eleições mas não se mete na política”. O que parece em relação ao que aconteceu na guerra civil no PS, como eu lhe chamei, foi uma vontade de poder. Penso que não foi uma reacção espontânea a um resultado eleitoral que ainda por cima foi uma vitória. Havia já uma estratégia de tomada de poder. Para quem, como eu, desde miúdo nunca mais me envolvi na política partidária, porque não gosto de ambientes onde haja demasiado suor nem demasiada testosterona à minha volta, foi um espetáculo lamentável.

Porque é que nunca entrou na vida política? Foi mesmo só por não gostar de ambientes com excesso
de testosterona?

De alguma forma, aquilo que eu faço como professor, autor, comentador, é um trabalho político. É muito importante ter pessoas que obedecem a um código fundamental que é o de serem capazes de pensar contra as suas convicções. É uma coisa que pouca gente aceita, lendo os comentários aos meus artigos, quer à direita, quer à esquerda. As pessoas acham que a verdade tem que ser leal, que há uma verdade de esquerda e uma verdade de direita. Eu penso que não. É fundamental termos a capacidade de respeitarmos os factos, a verdade factual. E a partir do momento em que eu envergasse um uniforme é evidente que isso não seria possível. Quando estamos na guerra lutamos pelo nosso exército, pelo nosso lado.

Quer continuar a poder ser fiel ao seu pensamento?

Fiel à capacidade de dizer “enganei-me”. Ou, apesar da minha simpatia ser de esquerda, poder dizer “a esquerda está a seguir um caminho errado” ou um partido de direita está a dizer uma coisa que faz sentido.

Também há uma grande crise da esquerda… Apesar da euforia com o orçamento à esquerda ele mantém a austeridade…

Exactamente. Como é possível este governo ter uma perspectiva de sustentabilidade séria quando em relação à questão fundamental que é a de “como nos vamos conduzir em relação à política europeia”, que é a grande questão política doméstica, não existe consenso! E nem sequer houve discussão!

O Bloco e o PCP aceitaram que o PS cumpra os compromissos europeus…

O que também é uma ironia. Se saíssemos agora do procedimento por défice excessivo, a partir de 2019 entrávamos num terreno de redução absoluta de dívida pública, de 5% ao ano. O país começava a partir-se! Isto é impossível. Só com uma guerra civil ou pondo as pessoas a pão e água. Infelizmente estamos numa altura em que a diferença entre mentira e verdade é muito ténue. A política utiliza as representações não com o seu valor de verdade mas com o seu valor de funcionalidade. É funcional  simular que se acredita nisto, mesmo que não se acredite. Mas António Costa é um génio. Do ponto de vista tático, da luta corpo a corpo, não há ninguém como ele. Mas nós precisamos só de pugilistas? Nós precisamos de mais qualquer coisa. Mas o país está numa situação tão complicada que temos não só de desejar boa sorte ao governo como deveremos apelar a que os partidos centrais do sistema percebam a delicadeza do momento em que estamos. Há uma parte da direita que julga ainda que o tempo volta para trás. Estou convencido que Passos Coelho ainda acredita que pode regressar aos ombros do novo resgate, como em 2011!

Fonte: Viriato Soromenho Marques: “Só um milagre poderá salvar a Europa”

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