Para além da justiça poética de que o que matamos para comer nos estar por sua vez a matar, a indústria da carne está a consumir recursos preciosos para os restantes habitantes do planeta onde, nunca é demais lembrar, nos incluímos

Texto de Gil Álvaro de Lemos • 14/12/2015 – 11:11

http://p3.publico.pt/vicios/gula/19139/carnificina

O recente comunicado da Organização Mundial de Saúde fez correr rios de tinta e de pixéis pelo mundo fora, desaguando quer na praia dos que concordavam quer na dos que discordavam da constatação de que o consumo de carnes vermelhas ou processadas tem uma corelação positiva com certos tipos de cancro.

 

Por outras palavras, comer carne faz-nos mal e, acrescentaria eu, também faz mal ao planeta. Para muitos isto não é uma novidade mas o mencionado estudo deu-lhe validação científica. O que significa que são factos e não sistemas de crenças, como acreditar em espíritos que não têm mais nada para fazer do que assombrar-nos ou OVNI que aparecem lá no quintal de casa sem serem convidados, por exemplo.

 

Claro que os detractores deste facto tentaram diluir o mesmo, relativizando o perigo. E talvez até estejam certos, todos os riscos estão ligados a uma probabilidade de acontecimento e neste caso em particular seria necessário comer carne todos os dias para experienciar um aumento da probabilidade. Mas mesmo diluído o remédio é amargo.

 

Para além da justiça poética de que o que matamos para comer nos estar por sua vez a matar, a indústria da carne está a consumir recursos preciosos para os restantes habitantes do planeta onde, nunca é demais lembrar, nos incluímos. É, portanto, um problema de saúde pública mas também de sustentabilidade. Até que ponto a nossa míope visão imediatista e de curto prazo se vai preocupar com aqueles que ainda não existem e que só se vislumbram no futuro como vultos desfocados? Qual será a nossa herança para as gerações que se seguirão? Tarde ou cedo, teremos de responder a estas perguntas incómodas.

 

Assim como a transição para uma dieta sem carne não deve ser feita de um dia para o outro — o corpo precisa de tempo para se adaptar ao novo paradigma alimentar —, a sociedade também levará algumas gerações a saciar completamente o seu apetite por animais mortos. Uma vez lá chegados, olharemos para trás e talvez julguemos os nossos antepassados como bárbaros, no entanto não deveríamos ser tão duros, eles, nós, somos criaturas do nosso tempo, e em constante evolução.

 

A ideia que precisamos de carne e, em última análise, de provocar o sofrimento alheio para sobreviver, é errada, mas cola-se à nossa mente como pastilha elástica nas solas dos sapatos. Mas lá porque sempre foi assim isso não quer dizer que tenha de ser sempre assim. Exige um esforço consciente para removê-la. E paciência. Mas vale a pena.

 

Em última análise, falamos de um processo de auto-preservação, só temos este corpo e este planeta e se calhar é melhor começar a cuidar de ambos.