via Editorial – Dois pesos e duas medidas – Editoriais – DN.

No final da semana passada, uma parte dos políticos europeus sobressaltou-se com a possibilidade de em Portugal haver um governo do Partido Socialista apoiado por comunistas e pelo Bloco de Esquerda. Não passa, por enquanto, de uma mera hipótese. A coligação de direita ganhou as eleições de 4 de outubro, o Presidente da República fez o que lhe compete – indigitou Pedro Passos Coelho primeiro-ministro – e o novo governo há de submeter-se ao Parlamento, ao qual compete caucionar e constituir maiorias. Mas a existência de iniciativa política e negociações à esquerda – longe de estarem concluídas – foi quanto bastou para que, por exemplo, o presidente do governo espanhol se arvorasse em mestre-escola com pretensões de dar aos portugueses lições de democracia. Curiosamente, o clamor a que assistimos nos últimos dias contra a possibilidade de uma maioria de esquerda em Lisboa não foi, nem de perto nem de longe, sentido Europa fora com a ascensão ao poder em Varsóvia de um partido xenófobo e antieuropeu ou com as posições expressas em Budapeste contra a vaga migratória de refugiados da guerra da Síria e a construção de muros que dividem a Europa sem fronteiras. Os receios são legítimos, mas convém que haja coerência. Isto é, do mesmo modo que não há ditaduras boas ou más consoante as ideologias em que nasceram, também não existem radicalismos melhores ou piores em função da origem doutrinária de onde provêm. As ditaduras, como os radicalismos, são sempre más enquanto castradoras da liberdade e da democracia. Aquilo que a Europa tem demonstrado, ou pelo menos em virtude das suas omissões permite que assim se interprete, é que, apesar de o Pacto de Varsóvia ter acabado há muito e a União Soviética já não existir, a intolerância europeia só existe em relação ao lado esquerdo do pensamento político. No que à extrema-direita diz respeito, a práxis é a condescendência e o silêncio. Atuar assim é não perceber de onde vêm verdadeiramente as ameaças à liberdade.

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