via “Aristides felizmente salvou 30 mil judeus. O meu avô mil. Foram iguais na coragem” – Portugal – DN.

Salvador Alves Garrido, neto de Sampaio Garrido, um dos dois portugueses reconhecidos como Justos entre as Nações, fala sobre o heroísmo do avô quando era embaixador na Hungria entre 1939 e 1944.

Chegou a conhecer o seu avô?

Sim, eu tinha 9 anos e tal, quase 10 quando ele morreu, em 1960.

Que memória tem dele?

Tenho uma memória simpática. Ele nunca falou comigo nem com os meus irmãos ou primos sobre estas coisas do Holocausto. Só mais tarde é que se falava nisso em casa dos meus pais e tios. Mas dele, aquilo que me lembro, é de uma pessoa muito afável, carinhoso. Gostava imenso que o fôssemos visitar no Estoril. Levava-nos a passear, a comer bolos numa pastelaria ao pé de casa dele. Era um companheiro.

Os netos não tinham ideia de que ele era uma personagem heroica, que salvou mil judeus húngaros?

Não, até morrer, não.

Não era história de que se falasse na família Sampaio Garrido?

Falava-se vagamente. Em casa dos meus pais, quando eu tinha essa idade, não se falava muito disso. Depois, aos poucos, começou a falar–se, para sabermos o que fez.

Há poucos anos, o seu avô foi considerado por Israel um Justo entre as Nações. Como é que foi comunicado à família? Foi um momento emocionante?

Claro que sim. Ele esteve em Budapeste entre 1939 e 1944, depois foi compulsivamente reformado. A última troca de correspondência que há para o ministério é porque ele queria ser ressarcido de uma série de despesas e nunca teve resposta. Tanto que quando morreu já era ajudado pelos filhos. De facto, não tinha nada. Nessa altura, no tempo de Salazar e de Marcelo Caetano, era óbvio que não iam reconhecer aquilo que ele fez. Mas depois do 25 de Abril, também nenhum governo foi justo com ele. A família falou com ministros, presidentes da República, no sentido de ser reconhecido. De ser reconhecido de uma forma materialmente desinteressada. Não queremos nenhuma das indemnizações a que o meu avô julgava que tinha direito. A nossa família moveu-se a partir de certa altura, mas moveu-se apenas no sentido de divulgar aquilo que ele fez como exemplo. A memória do Holocausto não se deve perder. E deve ser ensinada às novas gerações.

Se o Estado português não lhe deu atenção, quem deu? Israel?

Não. Curiosamente foi o governo húngaro. Numa sucessão de felizes acasos. Um dia em trabalho fui à embaixada da Hungria. Estava a falar com o encarregado de Negócios e por uma razão qualquer falei que o meu avô tinha sido embaixador em Budapeste. Perguntou como se chamava o meu avô. Eu disse o nome e ele pediu-me para esperar. E foi buscar o embaixador. Este estava encantado. Disse que nunca tinha pensado conhecer um familiar de Sampaio Garrido, que o governo húngaro andava há anos a tentar contactar familiares e não conseguia porque o ministério não dava os nossos contactos.

O Estado húngaro sabia perfeitamente quem ele tinha sido?

Sim, mas o Ministério dos Negócios Estrangeiros, por política, não dá os contactos de familiares de embaixadores. De alguma forma percebo. Mas à Hungria podia ter dado… Não interessa. O embaixador disse-me imediatamente que o governo húngaro queria fazer uma homenagem ao meu avô. E começámos a tratar das coisas, e assim aconteceu. Homenageou o meu avô com a entrega de uma medalha, homenageou também Teixeira Branquinho. Estava presente Mário Soares, que era presidente da República. Eu na altura aproveitei para dizer diretamente a Mário Soares que ele não tinha feito nada pelo meu avô e ele dizia que não tinha conhecimento. Ao que eu respondi que teve, porque conheceu o filho, o embaixador também Sampaio Garrido, no tempo em que foi MNE, primeiro-ministro e presidente e falou-lhe nisso em mais do que uma ocasião.

A Hungria reconheceu e então…

A partir daí fez-se a homenagem. Soares passados dois ou três meses condecorou várias pessoas, incluindo o meu avô a título póstumo. Depois disso houve várias homenagens, cerimónias, iniciativas, feitas por entidades ligadas aos judeus, e um artigo no Público. E depois o Estado de Israel reconheceu-o em 2010, contactou a família e convidou-nos para uma cerimónia em que foi entregue a medalha de Justo entre as Nações. Foi na residência do embaixador. Estava toda a família. Tenho uma tia casada com o filho dele, que vivia na Holanda, nessa altura, os filhos tinham morrido todos, mas ainda tinha a nora, tinha os netos, uma série deles, 15 ou 20…

Como família, sentem injustiça na notoriedade de Aristides de Sousa Mendes, o cônsul em Bordéus?

Não ponho as coisas nesses termos. Aristides de Sousa Mendes fez o que fez. As ações que ele e o meu avô desenvolveram são muito similares no conteúdo, no humanismo. E daí serem exemplo. Em quantidade, Aristides felizmente salvou 30 mil ou mais. O meu avô salvou mil. Foram iguais na coragem. Não acho que seja o mais importante.

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