Existe uma filosofia islâmica?
Depende da definição de filosofia, porque se pode interpretá-la de modo mais estrito ou mais lato. Prefiro uma interpretação mais estrita, pelo que considero que a filosofia islâmica é clássica. Por volta dos séculos IX e X da era cristã, o império islâmico englobava várias culturas, entre elas a cultura grega. Havia traduções de Platão, Aristóteles e da filosofia neoplatónica, como Plotino. Os seus trabalhos foram traduzidos para o siríaco, daí para o árabe e muitos pensadores fascinavam-se por este tipo de filosofia. Grandes nomes como Al Farabi (filósofo do século IX e X), Avicena (médico e filósofo do século X-XI) ou Averróis (filósofo andaluz do século XII), não só a estudaram, como adicionaram e desenvolveram a sua própria filosofia. Uma das questões com que se preocuparam em particular foi sobre o pensamento livre e racional. Um princípio fundamental da filosofia é o de que é um pensamento livre e assenta apenas nas leis do pensamento e não em nenhuma autoridade. Ao contrário, a lei islâmica – a sharia – assenta na autoridade do Corão e do Profeta, na dos imãs no caso dos xiitas, e dos fuqahas (juristas) no caso dos sunitas. Foi, portanto, uma questão que exploraram com relativa profundidade e que de certo modo vem a passar para a Europa e a cristandade – acabando por aparecer uma segunda grande vaga de trabalho filosófico na Europa, entre o qual se destaca Tomás de Aquino.
Quanto à filosofia islâmica, no sentido geral, podíamos falar de pensamento. Filosofia aqui significa o pensamento sistemático sobre assuntos da fé e tradições e isso tem estado presente no Islão desde há muito, embora seja muito diverso. Por que não se pode dizer que exista um tipo de pensamento classificável como filosofia islâmica. É muito diverso.

Mas há filosofia islâmica?
Há filosofias islâmicas.

Judaísmo, Cristianismo e Islão são três tradições religiosas distintas. Qual é a grande diferença entre elas?
É muito mais o que têm em comum do que as diferenças. Todas são monoteístas e o Judaísmo e o Islão ainda mais do que o Cristianismo, já que este tem a Trindade como doutrina básica. Para além do monoteísmo, as três acreditam que Deus comunica com a Humanidade de alguma forma, normalmente através de indivíduos, figuras que podem ser os patriarcas, os profetas (no Judaísmo), o Logos no Cristianismo e Maomé no Islão. E acreditam ainda as três que estas mensagens e comunicações estão todas incorporadas num Livro – por isso são as Sociedades do Livro, as Religiões do Livro. Estas são as grandes coisas em comum, mas há muitas mais. Na origem, há um evento carismático, a Revelação, que é um enigma, ou o que ela realmente significa é uma experiência carismática, de um indivíduo ou de vários, que depois se codifica na forma de um pensamento sistemático ou até mesmo na Lei.
A grande diferença é que Maomé não é aceite pelas outras duas religiões como um mensageiro inspirado, tal como o Corão não é também aceite como o Livro da Revelação divina. Os judeus e os cristãos não aceitam o Islão e, o que é mais sério, não aceitam a fé islâmica de modo nenhum. A sua rejeição do Islão é muito mais rigorosa, mais extremada. De um ponto de vista histórico, Maomé fazia muita questão em ter boas relações com os judeus e cristãos que estavam presentes em Medina, onde ele viveu a segunda metade da carreira profética. Mas essas relações quebraram-se, do que resultaram algumas diferenças. A ideia era de que os judeus e cristãos tinham de alguma forma distorcido as Escrituras que tinham recebido. Mas todas as figuras do Antigo Testamento judaico eram aceites por Maomé como sendo divinamente inspiradas, assim como Cristo. O que lhe era negado é que fosse Deus, bem como a sua crucificação. Por razões complexas, sobre as quais tenho a minha própria teoria mas, basicamente, porque o monoteísmo estrito impede que Cristo seja visto como divino. Estas são as diferenças essenciais.

A Revelação é um enigma?
No sentido filosófico, não do ponto de vista da crença. E eu falo agora como um intelectual.

Existe uma revelação no Cristianismo, no Islão e no Judaísmo. É a mesma em todas elas?
Teologicamente existe uma diferença. No caso do Cristianismo, é a pessoa que se torna manifestação de Deus, porque Cristo é o Logos. No Islão, Maomé não ocupa essa posição, não é a manifestação de Deus, é um profeta. Poderia dizer que a palavra Logos está geralmente associada ao Corão e não a Maomé, ao passo que no Cristianismo a palavra está incarnada. Quando digo que é um enigma, como intelectual e filósofo, tenho de perguntar o que significa a palavra Deus. A razão por que o mundo moderno acha a ideia da Revelação muito enigmática é porque o pensamento secular não tem o vocabulário para o entender. É racionalista, especialmente depois do Iluminismo. Não há um vocabulário que nos ajude a entender, não nos são disponibilizados conceitos que nos possam fazer entender isto do ponto de vista humanístico. Para um crente, isto vem de um outro mundo, é transcendente. Mas do ponto de vista humanista, temos de nos questionar o que significa receber a Revelação. Este tipo de pensamento ainda precisa de ser desenvolvido no Islão, mas também no Cristianismo e no Judaísmo. Devíamos desenvolver uma filosofia da Revelação.

Existe uma ideia generalizada de que não houve um processo de secularização nas sociedades islâmicas. É verdade?
Depende do que se quer dizer com secularização. Se é a separação entre poder da Igreja e do Estado, não aconteceu no contexto muçulmano, em parte porque não existia uma Igreja e, em parte, porque o Estado também não existia no mundo muçulmano até à chegada dos poderes coloniais e a modernidade penetrar nestas realidades. Todas estas nações – Egito, Iraque, Síria – são produto da História política europeia. Mas, se entendermos a secularização como um pensamento que assenta na razão e é livre do dogma, então existem muitos exemplos deste tipo no Islão. Temos tendência para misturar a religião com a cultura islâmica, mas esta é mais abrangente do que aquela. A cultura islâmica engloba a poesia, que inclui a poesia do vinho, da celebração do sexo, da vida mundana, da pompa ou do prazer – tudo isto era a poesia da corte no governo dos grandes Abássidas. É a poesia secular no sentido em que celebra a glória da vida mundana. A própria filosofia que mencionei também é secular, porque não assenta no Corão para chegar às suas conclusões.
Mesmo a poesia posterior, aparentemente mais religiosa, é muito livre. Os persas Omar Khayyam (poeta, matemático e astrónomo do século XI) ou Hafiz (poeta lírico do século XIV) constituem um bom exemplo. A perceção que muitas pessoas têm – e que, infelizmente é encorajada pelos próprios muçulmanos – é a de que toda a gente é muito religiosa e que as expressões do mundo islâmico são religiosas. É uma visão ideológica, mas todas as provas são claras de que existe uma grande variedade em termos de literatura e de pensamento no Islão e grande parte dela não é religiosa.

Fala da secularização no contexto do Islão como sendo a celebração da vida mundana. Esse tipo de secularização do mundo muçulmano já desapareceu ou ainda está lá?
Ainda existe, mas com uma diferença. O que está a acontecer agora ocorre porque a modernidade chegou ao mundo muçulmano através do Ocidente. Se olharmos para a filosofia, por exemplo, vamos encontrar três tipos de correntes – uma a de que tudo é teologia, outra que estuda apenas a filosofia clássica (Avicena, Averróis) e param aí, e uma terceira que estuda Kant, Hegel, muito sobre Marx e outros filósofos europeus. Estes não são aceites como pensadores pelos outros, mas a verdade é que mesmo nos tempos clássicos também existiam os opositores à filosofia. Al-Ghazzali (teólogo, jurista e filósofo islâmico do século XI, originário da Pérsia), por exemplo, era um grande pensador, mas tendo estudado filosofia, decidiu que ela era politicamente perigosa para a sociedade e atacou-a. Combateu a filosofia usando argumentos filosóficos para explicar como ela era perigosa. Platão fez o mesmo quando colocou a questão dos perigos da filosofia ser ensinada publicamente, ou se deveria ser ensinada apenas em segredo.

Os pensadores são sempre perigosos…
Isso é o que Al-Ghazzali diz mas, ao mesmo tempo, afirma que a filosofia não devia ser praticada. Escreveu um livro chamado “A incoerência dos filósofos”, onde declara não só que a filosofia é má, como inclusivamente que o próprio pensamento filosófico é imperfeito. Um século depois, Ibn Rushd (mais conhecido por Averróis) vem a escrever um outro livro, intitulado “A incoerência da incoerência”, assim atacando Al-Ghazzali. É triste, mas este tipo de pensamento desapareceu, seria visto hoje como propaganda cultural que oporia o Ocidente ao Islão, e receio que haja muitos muçulmanos que falem desta maneira: que isto é islâmico ou ocidental e que não pode haver uma relação entre ambos. Há estudiosos do Islão que emitem esta opinião e tenho pena.

Existe uma tendência na sociedade contemporânea para pensar que a religião é um assunto da vida privada, exceto entre algumas minorias. É-nos dito que o Islão é “uma forma de vida”, que não separa o material do espiritual. Que pensa?
Há uma diferença entre ser uma forma de vida e o privado. O que significa ser uma forma de vida? É uma frase feita, muito vaga, de retórica. Até para um cristão, se ele levar a sério a sua crença, ela é uma forma de vida, no sentido de que todas as suas atitudes relativamente às relações humanas, ao casamento, à sexualidade, ao lazer ou à caridade são afetadas por ela. No que diz respeito à oração, o domingo é o dia dos cristãos, enquanto um muçulmano devoto dedica partes do seu dia à oração. Nem todos o fazem, mas muitos fazem-no. Se isto significa uma forma de vida, não tenho tanta certeza. Também não quer dizer vestir um certo tipo de indumentária, ou a ideia de que muitos muçulmanos têm de que as mulheres devem usar véu e os homens deixar crescer as barbas, porque isso tem a ver com uma cultura muito específica. Portanto, preferiria não usar uma frase tão vaga.
No que se refere ao público e ao privado, penso que o assunto do poder entra nesta dimensão: será correto que a fé deva ser imposta na esfera pública? Há muçulmanos que dizem que sim, porque relativamente ao processo de secularização de que falámos, não era uma experiência que fizesse parte do Islão. Há muitas vozes que pensam que não é correto que se imponha o Islão na esfera pública. Efetivamente, há um livro sobre o assunto escrito por volta de 1925 por Ali Abd Al-Raziq, um grande pensador de Al-Azhar (Universidade do Cairo, fundada no século IX), que argumentava que o califado, uma instituição política, era realmente um poder político e não religioso. Ou seja, era apenas um poder político e que não podia ser associado à religião. É importante dizer que este homem foi ostracizado. As autoridades do clero muçulmano, todavia, resistem a esta ideia. Eu considero que não existe nada inerente, do ponto de vista histórico, que diga que o Islão deva ser imposto na esfera pública.

Mas essa não é a ideia geral no Islão, ou é?
Conheço muitas pessoas que contrapõem essa ideia, mas depende de quem se ouve. O clero e os pregadores religiosos veem-se a si próprios (e são tomados pelos outros) como representantes do Islão. Mesmo no Irão atual há intelectuais que dizem que a religião não deve ser confundida com o poder político.

Eles estão no exílio ou vivem no Irão?
Na sua maioria estão no exílio. Mas também há aiatolas que defendem que os ulamas (clero muçulmano) devem manter-se afastados do poder político. No xiismo há uma tradição muito antiga de separação entre religião e poder. Nos países sunitas, reivindica-se isto de forma muito mais veemente. Os xiitas, excluindo o período safávida (dinastia xiita iraniana entre os séculos XVI e XVIII) nunca tiveram um sistema governativo de tipo religioso, ao passo que a experiência sunita, com a dinastia Omíada e do califado Abássida, legitimavam frequentemente os ulamas como sendo representantes de Deus. Não tenho uma resposta a preto e branco sobre essa questão, é muito complexa.

Qual deve ser o lugar da religião no Ocidente?
O Ocidente deve prestar mais atenção à religião. Não quero dizer que devam regressar às culturas mais antigas, mas existe uma negação do poder histórico da fé na evolução das sociedades europeias, especialmente em países como a França, onde a revolução de 1789 fez uma rutura na História. Se andar pelas ruas das cidades francesas, contudo, vê-se a presença de Deus, basta olhar para as inúmeras igrejas, mas ela é negada às crianças nas escolas. Em certa medida, é uma rutura com o seu passado, o que não é bom. Isto acontece também em Inglaterra, embora a rainha seja a monarca e a chefe da Igreja Anglicana ao mesmo tempo, de forma nominal. Já nos Estados Unidos, a religião está muito mais presente na esfera pública.
Uma das razões por que as sociedades ocidentais acham tão difícil entender o Islão é porque não têm uma visão religiosa do mundo, não entendem o poder da fé. Mas há uma razão prática (esqueça as intelectuais!) que torna importante entendê-lo: conseguir perceber as mentalidades de significativas populações muçulmanas que vivem tanto nos EUA como na Europa. Se os europeus pudessem entender o seu próprio passado, ser-lhes-ia mais fácil perceber por que é que os seus primos muçulmanos (os primos espirituais na tradição abraamica, à qual pertencem todos) se agarram à fé. Os próprios europeus já o fizeram, é muito semelhante na tradição judaico-cristã. Mas quando se perde essa ligação, tem-se mais dificuldade em entender a tradição islâmica, porque ela continua a estar ligada àquilo que era a antiga tradição judaico-cristã.
Em segundo lugar, pode realmente apreciar-se Shakespeare sem se conhecer o cristianismo ou a cultura cristã? Há Humanismo em Shakespeare, mas também uma dimensão do simbolismo cristão. E será que os italianos conseguem apreciar o poder de Dante? Não se pode entendê-lo, sem se entender o cristianismo dessa época.
Falo do cristianismo, mas isto atravessa todas as culturas. Não quero dizer que se deva ser um cristão praticante, ou judeu, para se ser capaz de perceber as tradições cristãs ou judaicas, mas devemos ser capazes de ter uma “musicalidade religiosa”. Isto significa que algumas pessoas não têm ouvido musical, mas outras têm capacidade de apreciar a música e, mesmo não se sendo músico, pode ter-se um ouvido sensível à música.
Acho importante que os europeus, para que possam apreciar o seu passado e a sua História, sejam sensíveis e tenham um “ouvido musical” para ouvirem o som e sentirem a lógica da fé. De outra forma, o mundo ocidental será separado da sua própria História – e não só da tradição judaico-cristã, mas também do humanismo grego, porque tudo isso faz parte do passado. A minha convicção é que as sociedades que têm uma riqueza como esta – e eu sou um grande admirador da civilização ocidental – ficarão empobrecidas se perderem esse contacto com o passado.

Mas isso é semelhante ao que diz o próprio Papa Bento XVI – “não se esqueçam do poder da fé”…
Sim, mas ele também diz outras coisas. Quando o afirma, está a fazer uma aproximação de um ponto de vista estritamente religioso. Eu digo-o por amor a Shakespeare. Isto é, nós não devemos perdê-lo, nem ao nosso Molière, ou Kant, ou Hegel e todos os pensadores que não são possíveis de entender fora do contexto ocidental. Mesmo que eles se tenham rebelado contra estas questões. Hegel, por exemplo, não se sabe se era ou não crente, mas não se pode entendê-lo sem se perceber aquilo a respeito do qual ele estava a favor ou contra. Isto não é o mesmo que diz o Papa, porque ele faz uma abordagem do assunto do ponto de vista teológico. Eu diria que esta é a abordagem correta à grande literatura da Europa.

No fundo o que está a falar é da identidade humana, no seu sentido mais lato.
Sim. Os chineses, por exemplo, em prol do seu próprio desenvolvimento, têm de ter noção de Confúcio. Se eles se esquecerem disso, só saberão da Internet, dos telemóveis, dos jogos de computador e de todas as tecnologias. Todo o seu saber será tecnológico, a cultura será tecnológica. É um perigo, torna-se uma sociedade capitalista sem raízes. Até o capitalismo, se se desligar das suas raízes judaico-cristãs, perde sentido. Não seria possível entender Max Weber e a sua “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. É aqui que reside o perigo.

Entre a segunda geração de muçulmanos nos países ocidentais, verifica-se um fenómeno de radicalização das ideologias baseadas no discurso islâmico, ao mesmo tempo que procuram redefinir as suas identidades. Isto contrasta com a realidade dos países onde a religião maioritária é o Islão?
Infelizmente, as gerações mais novas de muçulmanos nem sempre foram bem sucedidas na integração nas sociedades ocidentais – falo dos grupos radicais nos países ocidentais. Não conseguiram integrar a moderna cultura ocidental. Estão também longe dos países muçulmanos e tornam-se híper entusiastas do que veem como a sua cultura original. Podem tornar-se mais assertivos relativamente a certos detalhes, incluindo mais do que os outros que vivem nesses países. Isto também acontece com os judeus. Eles procuram uma identidade e, nesta busca, qualquer pequeno gesto, desde o vestuário, ou outros ícones ou símbolos de comportamento, passam a ser visto como “islâmicos”.
Isto não se aplica àqueles que vivem nos países muçulmanos. Nestes países, no entanto, encontramos movimentos de outra natureza também relacionados com a presença do Ocidente, através dos media ou da política. Acontece, por exemplo, nos países onde os governos são aliados dos Estados Unidos, onde é comum encontrar movimentos de redefinição de identidades como reação a essa situação. Para mim, quanto mais se quer afirmar a identidade, mais inseguro se está. A afirmação de uma identidade contém sempre uma mentira, uma “inverdade”, que tem a ver com uma deceção. Implica contar uma mentira aos outros e, muitas vezes, a si próprio. Há elementos desta natureza no radicalismo islâmico.

A religião é então a identidade?
Eu não diria isso, porque as identidades são normalmente tácitas, não são declaradas. A identidade de uma pessoa não tem de ser gritada do telhado de casa. Quando se é muito assertivo em relação à sua identidade, é um sintoma de alguma coisa. É como a tradição – as pessoas ditas tradicionais são livres de tradição, nunca falam dela, tal como um peixe, se pudesse falar, seria pouco provável que falasse de água. E, se o fizesse, perguntar-nos-íamos o que lhe teria acontecido – talvez tivesse sido tirado da água e tomado consciência disso. Muito desta autoconsciência encontra-se nos grupos radicais. Não se trata de um fenómeno religioso, mas cultural, e pode acontecer em qualquer sociedade a uma minoria étnica ou nação. É como tentar retirar da linguagem todas as influências estrangeiras, é uma forma de assertividade da língua.

Há quem refira a pobreza, a história ou a exploração, como causa da emergência do fundamentalismo. Como filósofo, onde radica para si a causa?
Não existe uma causa, nem creio que o fundamentalismo possa ser explicado por razões de ordem política ou económica. Os fatores económicos podem ter alguma relevância, bem como os fatores políticos, aos quais preferiria chamar fatores materiais. Mas a questão que devíamos colocar é: porque é que as reações se exprimem nesses termos? Uma das razões é a de que o mundo islâmico falhou em desenvolver a sua própria linguagem da modernidade.
Isto tem a ver, em parte, com o facto da sua fase moderna ter sido a da dominação de poderes ocidentais, mas também devido ao seu próprio falhanço em atingir a modernidade seguindo o seu próprio caminho. Assim, sentiram a necessidade de ter um discurso anti-ocidental que, no início, surge em virtude do poder ocidental. Mais tarde, seja através da colonização direta ou indireta, surge esse discurso contra o poder político de pessoas como o Xá do Irão, porque era pró-ocidental.
O mundo muçulmano seguiu durante algum tempo o mesmo tipo de tendência de países como a Índia, ou que se verificou em África ou na América Latina, isto é, subscreveu o modelo marxista, o nacionalismo marxista. Este tornou-se o veículo através do qual essas reações se expressaram. Só que o tempo do marxismo acabou, perdeu a sua credibilidade e o Islão, que anteriormente se expressava como uma identidade política, mas nunca suficientemente forte, tornou-se o único meio através do qual estas reações se expressam. Na ausência de qualquer outra identidade alternativa, o fundamentalismo islâmico passou a ser a expressão de protesto, porque ele é um movimento de protesto.

Por que é que o mundo muçulmano falhou em encontrar uma linguagem da modernidade?
Uma das razões é porque não chegou a ter o tempo histórico para fazê-lo. Os poderes europeus eram o exemplo da modernidade, em termos militares, constitucionais e de governo. Tudo veio do Ocidente. Não quero dizer que se eles não tivessem aparecido, se teriam desenvolvido no mundo muçulmano. Mas poderia ter tido uma oportunidade maior de falar, dar sentido, conceptualizar as mudanças que estavam a ocorrer, dentro da sua própria tradição. Se os muçulmanos falassem de Justiça, poderiam ter desenvolvido um discurso que não fosse necessariamente e apenas corânico, porque os tempos tinham mudado. E a Justiça poderia já não ser o mesmo do que significava nos primórdios.
Por outro lado, também poderiam não ser ideias forçosamente ocidentais. Por exemplo, como conceptualizamos a Democracia? Para muitos muçulmanos, pensar em Democracia, fechada e barrada nos termos em que o Ocidente a entende, é inaceitável. Mas eles não têm a sua própria tradição através da qual possam falar de Democracia. Por exemplo, os povos chineses têm estado a tentar, ou a reivindicar, a sua própria conceção de Democracia. Não sei o suficiente sobre a China para dizer até que ponto essa afirmação é autêntica. Mas no mundo muçulmano não existe um vocabulário que ligue Democracia à História islâmica. Por isso torna-se artificial – e esse artificialismo é o fundamentalismo. Trata-se de um artifício na invocação da fé.

A modernidade é um fenómeno global e vivemos na era da globalização. Atravessamos várias crises – política, económica, social, religiosa – somos forçados a viver juntos e afetamo-nos mutuamente. Como será possível ultrapassar estas diferenças?
Acredito no poder do conhecimento pessoal. Quando as pessoas se conhecem umas às outras, reagem de forma diferente do que quando lidam com abstrações, por exemplo, portuguesa, ocidental, europeia. Não é uma pessoa real, é uma figura fictícia. Para muitos ocidentais, os muçulmanos são figuras abstratas e, para muitos muçulmanos, a maior parte dos ocidentais são-no também. Com abstrações, temos violência e perigo. Isto é letal e não se restringe apenas nem ao Ocidente nem ao Islão.
Recordo um caso pessoal, quando fui professor na Universidade de Nairobi. Havia nesses tempos um professor de História, um queniano, que era “estridente” e muito veemente relativamente ao anticolonialismo. Para ele, todos os problemas do Quénia eram coloniais, ou neocoloniais, e todas as culpas tinham de ser assumidas ou pelo poder colonial, que era o britânico, ou pelo neocolonial, que era o queniano. Lembro-me dele ter escrito uma crítica absolutamente horrível num jornal local sobre o livro de um outro professor, que considerava que tínhamos de aprender com os americanos os conhecimentos na área da tecnologia e gestão. Dizia ele que a América era a terra dos racistas, criminosos, homossexuais e ladrões. Ele não era um homem religioso. Mas se olhássemos para as suas críticas do ponto de vista de um muçulmano, diríamos que isto era um problema do Islão, porque a linguagem é muito semelhante. Quer dizer que as pessoas em outros continentes dizem coisas muito parecidas sobre as mesmas coisas. Isto reduz o Ocidente a uma caricatura.
Este tipo de linguagem encontra-se muito neste tipo de países e no mundo muçulmano, mas também no Ocidente, talvez não usando os mesmos termos, mas é a mesma. Assim as pessoas tornam-se abstrações, não são vistas como indivíduos, mas classificadas dentro de caixas. Isto acontece de um lado e de outro e não se podem mudar as coisas através da lei ou do Estado, porque isto em a ver com a mudança de mentalidades. Tem de vir da sociedade. Só se muda através de uma maior interação entre pessoas de diferentes culturas, trabalhando juntas.
As nossas identidades têm que ser transcendentais, têm que passar para uma outra dimensão, que é diferente da minha identidade ocidental ou muçulmana. Dou o exemplo da orquestra de músicos israelitas e palestinianos criada por Edward Said e Daniel Barendoim – eles não falam sobre a Palestina ou Israel, mas tocam Bach, Wagner, Mozart, Beethoven. É a música que lhes permite conhecer-se uns aos outros como indivíduos. Este tipo de coisas devia acontecer a um nível muito mais extenso e alargado. As pessoas esquecem-se de quem são, porque se deixam absorver por coisas nas quais interagem naturalmente. Só assim é possível ultrapassar a situação. E, deixe-me acrescentar, tem sido desastrosa no mundo ocidental a política do multiculturalismo.

Porquê?
Porque fixa as pessoas em categorias estanques e mete-as em caixas. Em Inglaterra, por exemplo, os Local Council (juntas de freguesia) enviam panfletos informativos para os moradores que me irritam profundamente. São escritos em inglês e traduzidos em 20, 30 ou 40 línguas – bengali, urdu, gujarati, árabe, francês, etc. – o que dissuade as pessoas de aprender a língua local. Embora vivam em Inglaterra, pensam que não têm de aprender o inglês, porque tudo lhes é dado na sua própria língua.
Mas as pessoas devem ser postas sob pressão para aprender mais do que uma língua e, principalmente, a do país que os acolheu. Esse país tem uma História, cultura, língua e, se a falar bem, torna-se mais capaz de as apreciar. De outra forma, continuaremos a ver os nossos próprios vizinhos como abstrações. Percebo que um homem com 85 anos vindo do Paquistão fale um inglês muito pobre, mas não o admito num motorista de táxi de 25 ou 30 anos, em Londres, por exemplo.
É aí que o multiculturalismo é mau. Um exemplo pessoal: costumamos receber no correio panfletos de vários políticos e partidos. Uma vez, recebi um de um político, desejando-me “Eid Mubarak” (Felicidades numa Festa religiosa). Não estou de acordo. Por que é que esse homem presume, pelo meu nome, que eu sou um muçulmano praticante? E, sobretudo, que sou daqueles que gosta de receber esse tipo de felicitações? Não estou a dizer que sou ou não, mas ele não tem de o presumir. Eu sou muitas coisas: muçulmano, filósofo, estudei literatura e adoro ouvir ópera e música clássica – são tudo identidades minhas. Porque só uma – a de ser muçulmano – deveria diluir as outras? Este gesto tem esse efeito. Por isso sou muito crítico do multiculturalismo.

A política que se lhe opõe é, por exemplo a que se pratica em França, a da integração. Concorda com o seu laicismo militante, que impede as mulheres muçulmanas de usar véu, por exemplo? Embora este laicismo pareça dirigir-se apenas ao Islão, atendendo a que no Natal, Paris fica cheia de enfeites alusivos às festas…
É verdade, mas as escolas não devem ser um lugar para a afirmação de identidades. Neste sentido, sou até a favor desse tipo de política. Em parte também porque penso que o véu não deve ser visto como uma necessidade religiosa. A escola é um lugar em que as pessoas devem ser encorajadas a ser cidadãos e a fazer parte de uma cultura mais abrangente. Os símbolos religiosos, tribais ou étnicos, impedem uma pessoa de se integrar numa cultura mais abrangente, pelo que deve ser desencorajado. Tem a ver com a minha tese sobre o multiculturalismo.
Por outro lado, deve haver um esforço equilibrado na apreciação das culturas civilizacionais. Dou-lhe um exemplo: estudei Literatura Inglesa. Estudávamos Christopher Marlowe, John Donne e outros, mas nunca Tolstoi, Dostoievski ou Rumi, Hafiz, ou outros poetas persas, e eu achei que isto estava errado – a apreciação da literatura sofre, se não puder estudar a literatura mundial. Teria gostado nessa época de ter conhecido Dante, Molière, Tolstoi, etc., mas aquele era um sistema em que só a literatura inglesa era ensinada. Tive a boa sorte de conhecer a poesia indoislâmica, na qual cresci, e eu próprio não falava apenas uma língua nem tinha apenas uma cultura. Penso que foi Goethe que disse que aquele que só sabe uma língua, nada sabe. Saber várias línguas e ter três culturas é bom. Consegui traduzir para o inglês a poesia que aprendi quando era criança, esperando que fosse vista como poesia inglesa.
A nova geração pode não ter isto, mas seria bom que tivessem consciência das múltiplas culturas que existem, não para afirmar que isto é meu ou vosso, mas para dizer que existe uma herança comum da Humanidade, que não tem de se posta em caixinhas, e que deve alargar os nossos horizontes. E isto ainda não aconteceu na Europa, onde a cultura, a História, ou a civilização islâmica não fazem parte dos currículos, a menos que eu esteja desatualizado.

Faz distinção entre fé, religião e ideologia e menciona o perigo da religião se tornar ideologia. Que quer dizer?
Tem a ver com a identidade. A fé tem muitas semelhanças com a arte, porque é a perceção de uma ordem no Universo. A fé é um sentido, uma perceção de que a vida no mundo tem significado, não um conto “told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing”, nas palavras de Shakespeare, em Macbeth. A vida tem significado e, basicamente, é isto a fé. A religião organiza isto num culto, em rituais, em práticas sociais, que não acho que estejam erradas, mas podem tornar-se, se se tornarem substitutos da própria fé, porque aí entra o formalismo e o ritualismo.
A ideologia surge quando os símbolos da fé são usados como etiquetas de reivindicações de grupos de pessoas. Por exemplo, se o regime colonial britânico tivesse usado Shakespeare como argumento da sua superioridade sobre os povos que governava, seria um uso ideológico da literatura. Os usos ideológicos da fé servem-se dos seus símbolos e das suas expressões para que se promova o grupo. Quando isto acontece, é uma ideologia.

Existe uma visão hegemónica do Ocidente sobre o “resto” do mundo, onde se colocam geralmente os muçulmanos. Poderemos ultrapassar esta visão?
Se os muçulmanos se esquecerem da ideologia religiosa, sim, e se tornarem um povo forte material, económica e culturalmente. Com a crise financeira no Ocidente, por exemplo, o mundo ocidental foi forçado a aceitar a existência da China como um poder económico. A China mostrou os seus músculos e o mundo ocidental não pode comportar-se como se ela não existisse, ou a Índia, ou o Brasil. Estou convencido de que, a menos que o mundo muçulmano se erga à sua própria custa tanto material como culturalmente, continuará a ser menorizado. Não se consegue o respeito do resto do mundo através de atos terroristas ou da propaganda ideológica. Mas se obtiver êxitos científicos, de tipo tecnológico, o resto do mundo não poderá ignorar a sua força nesses domínios.

O mundo muçulmano está refém dos movimentos extremistas?
Não, porque eles são uma parcela minoritária. Mas está preso nesta crise de avanço científico. A crise tem a ver com o facto de não se poder atingir progresso científico não havendo liberdade para pensar e pesquisar. A liberdade está ligada aos recursos, à possibilidade de lhes aceder e poder empregá-los onde se desejar. E empregá-los através do consentimento da sociedade e não apenas de um pequeno grupo. O mundo muçulmano sofre da ausência de liberdade e de educação. Neste tipo de sociedades, não se conseguem obter progressos científicos.
Não vejo o terrorismo como uma ameaça séria, embora tenha recebido uma atenção desproporcionada devido à sua própria natureza. Bombardear-se civis inocentes é chocante e dramático. Mas é diferente se pensarmos em questões de longo prazo e o terrorismo não é uma delas. Essas questões são a ausência de cultura, de progresso cultural, de educação, de liberdade, de acesso aos recursos e de pensamento científico. Quando se observa o registo do número de patentes científicas, é triste verificar que o mundo muçulmano está atrás de África.

Refere-se às sociedades maioritariamente muçulmanas, ou também aos muçulmanos que estão integrados em outras sociedades?
Estou a referir-me às sociedades maioritariamente muçulmanas, porque os avanços individuais na ciência ou em outras áreas são outra coisa. Abs As-Salam, o paquistanês que ganhou o prémio Nobel da Física, estava em Itália. Por acaso, era um crente muçulmano, por ironia, um “ahamadi” (uma comunidade muçulmana radical). Mas quando falava de Física, fazia-o como cientista, não enquanto muçulmano. Há uma diferença entre indivíduos que por acaso são muçulmanos e têm êxito em diversas áreas e o sucesso das nações.

Mas falou da religião como algo de privado…
Como indivíduo tenho muitas identidades – posso ser muçulmano, médico, ou outra coisa. Se fizer uma descoberta em Bioquímica, essa parte de mim é que é responsável por isso, é o que aparece no domínio público. Não estou a querer empurrar a minha religião para a esfera do privado, só que não é relevante neste contexto, tal como a minha raça ou a posição da minha família também podem ser irrelevantes. Tendemos a esquecer que um indivíduo é muitas coisas.

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