Por decreto de algumas luminárias da nossa praça, dizer que alguma hierarquia da Igreja Católica pactuou, protegeu e encobriu padres pedófilos significa fazer parte duma conspiração que visaria extinguir a milenar instituição. 

Pelo que tenho lido e ouvido, os envolvidos nesta trama diabólica, muito bem organizada, serão então ateus, católicos, gente perversa que insiste em dizer que não há qualquer ligação entre homossexualidade e pedofilia, cristãos, cidadãos de esquerda, indivíduos de direita, hindus, carpinteiros, médicos, pedreiros, caixeiros, estofadores. Enfim, meia dúzia de pessoas a quem incomoda o facto de responsáveis por uma organização terem querido subtrair da justiça comum um número razoavelmente vasto de criminosos – um só seria suficiente.
Com jeitinho ainda vamos descobrir que os padres criminosos e quem os protegeu eram agentes contratados pela tal conspiração para que se arranje mais um pretexto para atacar a Igreja Católica.
Está bom de ver que tais sinistros maquinadores não estão minimamente preocupados com minudências como violações de crianças ou com gente que protegeu violadores. Nada disso. O que esta malta quer é construir um pensamento único que resulte na aceitação universal do decreto que instituirá o fim dos tempos para a igreja de Pedro. Assim, de repente, falar de pensamento único e misturá-lo, vagamente que seja, com a Igreja Católica é de ir às lágrimas. Será que estão a pensar numa instituição que passou séculos e séculos a tentar – e a conseguir, já agora – consagrar a impossibilidade de se fazer, que fosse, a mais ténue crítica às suas actividades, recorrendo até a algumas formas de pressão especialmente dissuasoras?
Esta do pensamento único é de muito difícil compreensão. Ignorância minha, está claro. Eu bem tenho procurado, mas tenho tido dificuldade em encontrar quem tenha dito ou escrito que a Igreja Católica não pode defender os seus valores e crenças sejam eles divinos ou terrenos. E muito menos qualquer tipo de movimento mais ou menos organizado, sobretudo em Portugal, que tenha dito que é preciso dinamitar essa instituição. Mas estes pequenos detalhes não tolhem os iluminados que decretaram a existência da maquinação: não encontrando nada de palpável, recorrem ao truque taxista: são os “gajos” do politicamente correcto.
Ora entre as luminárias mais veementes na teoria da cabala anti-Igreja está, curiosamente, gente que se confessa ateia ou qualquer outra coisa que, no pensamento deles, lhes dá uma espécie de autoridade moral especial para poder defender princípios que eles próprios não subscrevem.
A Igreja Católica para estes seria o último repositório de todos os valores fundamentais da civilização ocidental e em função disso estaria ao abrigo de qualquer crítica e ser- -lhe-ia passada até uma indulgência para todos os erros que os seus humanos servidores pudessem cometer.
Com isto, os improváveis intrépidos defensores da fé que não têm, mais não fazem do que, eles sim, trazer uma organização religiosa para o centro do debate político, retirando-lhe a sua essência primária de difusora de valores não terrenos.
A partir desse momento, a Igreja justificaria a sua existência e influência por causa de César e não por causa de Deus. Não seria, assim, mais do que um partido político com muito melhor organização, muito melhor propaganda e muito mais meios.
No fundo, estamos em presença dum conjunto de pessoas a quem, faltando melhores referências, ou perdidas as que os formataram, se viram para a Igreja Católica como tábua de salvação ontológica e tentam inventar um inimigo externo procurando no Vaticano um aliado.
É tudo menos nova esta estratégia. Foi, por exemplo, seguida por Jules de Maître ou Charles Maurras durante o caso Dreyfus. Também nessa altura apareceu esse tipo de gente que procurava suporte ideológico na Igreja para as suas lutas privadas.
Nessa altura como agora, esta utiliza-os e deita-os fora. São demasiado pequeninos e nada mais fazem que semear ódios e cavar trincheiras.

por PEDRO MARQUES LOPES

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