Viajemos até à Guiné-Conacri e, chegados à capital, avancemos país adentro. Dois dias de viagem e mil quilómetros depois, chega-se à aldeia de Bossou. Lado a lado, as cinco mil pessoas da aldeia, em plena Guiné florestal, coexistem com a pequena comunidade de chimpanzés nas colinas em redor, a três passos da povoação e de uma estação de investigação de primatas. Há mais de 30 anos que os cientistas não largam os chimpanzés de Bossou e foi ali que presenciaram algo raro: a reacção extraordinária de duas mães à morte dos filhos, ao transportarem os corpos durante semanas para todo o lado.

Os eventos começaram a desencadear-se no final de Novembro de 2003, quando rebentou em Bossou um surto de uma doença respiratória com os mesmos sintomas da gripe (transmitida talvez pela população humana local ou por turistas), que tirou a vida a cinco chimpanzés. Já de si pequena e isolada, a comunidade viu-se reduzida de 19 para 14 chimpanzés. Entre os mortos, estavam duas crias: Jimato (de um ano e dois meses de idade) e Veve (de dois anos e seis meses). 
Observado pela última vez com vida a 26 de Novembro, o corpo de Jimato foi visto a ser transportado pela mãe, Jire, a 3 de Dezembro (terá morrido no dia 1, considerando os sinais de decomposição). 
Quanto a Veve, começou por perder-se da mãe, Vuavua, no início de Dezembro de 2003. Mais de uma semana depois, uma das cientistas na altura na estação encontrou-a muito debilitada num campo de café. Nos dias seguintes, parecia estar a recuperar, mas depois deixou de comer e a 30 de Dezembro a morte foi confirmada. 
O que se segue é a história de duas mães que não queriam deixar partir os filhos mortos, relatada hoje num artigo na revista científica Current Biology. Uma primatóloga portuguesa, Cláudia Sousa, da Universidade Nova de Lisboa,que está entre os autores do trabalho, assistiu a parte dos acontecimentos. 
“Nos dias a seguir à morte, os corposdas crias incharam e depois secaram gradualmente. Perderam todo o cabelo, mas grande parte do corpo permaneceu intacta, dentro de uma pele que se transformou em couro”, lê-se no artigo, assinado em primeiro lugar por Dora Biro, da Universidade de Oxford, no Reino Unido. 
“As nossas observações mostraram uma impressionante resposta por parte das mães chimpanzés à morte das crias: continuaram a transportar os corpos durante semanas, meses, após a morte. Os corpos mumificaram completamente durante o período em que foram transportados e as mães exibiram cuidados para com os corpos, comportamentos reminiscentes dos cuidados que tinham com as crias vivas: transportaram-nas para todo o lado nas suas actividades diárias, cataram-nas e levaram-nas, nos períodos de descanso, para os seus ninhos diurnos e nocturnos”, conta-nos Cláudia Sousa. “Estávamos a observar uma coisa que não aparece muitas vezes descrita na literatura [científica], pelo menos com esta duração tão longa.”
Jire transportou o filho morto durante 68 dias, até que por fim o abandonou, enquantoVuavua o fez por 19 dias. “Presenciei e segui o transporte dos corpos mumificados deJimato e Veve. Ainda estava presente quando a Vuavua deixou de transportar o corpo e recolhemo-lo para exame e medições. Parti de Bossou antes de a Jire ter deixado o corpo”, lembra Cláudia Sousa. 
Nas fotos e vídeos feitos vê-se como elas carregaram às costas as múmias dos filhos, agarrando-os por um braço, entre o ombro e o pescoço. Mesmo quando subiam às árvores, faziam-no carregando os corpos. O mesmo acontecia quando partiam nozes com ferramentas de pedra, actividade que tornou famosos os chimpanzés de Bossou.
O facto de Jire ser uma mãe mais experiente e de o filho ser ainda muito novo pode explicar por que razão ela ficou com o corpo durante mais tempo, escreve a equipa:Jimato era o seu oitavo filho, enquanto Veve era o primeiro de Vuavua. 
Dez anos antes em Bossou
Continuemos em Bossou, aldeia de etnia manon, com crenças animistas e que tem os chimpanzés como totem, mas recuemos no tempo. Mais de uma década antes de os comportamentos agora descritos, o director da estação de investigação de Bossou, o japonês Tetsuro Matsuzawa, deparou-se com algo muito semelhante.
A 25 de Janeiro de 1992, o primatólogo japonês, do Instituto de Investigação de Primatas da Universidade de Quioto, testemunhou a morte de Jokro, com dois anos e meio, também devido a uma doença respiratória. E a sua mãe era… Jire. 
Naquele dia, registara: “Jire pega na mão de Jokro e coloca-a às costas. Segura Jokropelo pulso, entre o pescoço e o ombro. Tal como quando estava viva, Jokro está às cavalitas da mãe.”
“Passaram dois dias desde que confirmei a morte de Jokro. A barriga dela está inchada com gases. O corpo começou a decompor-se. Jire enxota as moscas que circundam a cria morta”, conta Matsuzawa, no site do instituto, que criou a estação de Bossou em 1976. 
Durante pelo menos 27 dias, Jire manteve consigo a filha falecida. “Observei como permaneceu na sua comunidade um mês após a morte.” 
Portanto, uma questão é: estas observações são raras? “Sim, são raras. O próprio comportamento – mães a transportar os filhos mortos – não tem sido observado frequentemente, tendo em conta as horas que os investigadores já acumularam de observação de primatas na natureza”, responde-nos Dora Biro, por e-mail. “Têm sido observados muitos casos de morte de crias, mas mães que depois persistem em transportar os corpos é uma ocorrência rara. Além disso, embora já se tenha observado o transporte de crias mortas noutros sítios e noutras espécies, na maioria dos casos durou apenas alguns dias – no nosso caso, durou semanas, meses mesmo.”
Por exemplo, Jane Goodall descreveu em livro a morte de um bebé chimpanzé, aquele que viria a ser o primeiro caso fatal de um surto de poliomielite na reserva de Gombe, na Tanzânia, um dos sítios de investigação de longa duração dos nossos parentes mais próximos, criado pela primatóloga britânica em 1960. Em In the Shadow of Man, publicado em 1971, a primatóloga reporta como Olly, uma jovem mãe, andou com o filho morto um dia, até o deixar num vale. 
“Jane Goodall foi pioneira na investigação de chimpanzés na natureza e, tendo em conta o tempo que passou a observá-los, não é surpreendente que muitos comportamentos que agora estudamos tenham sido observados primeiro por ela”, diz Dora Biro. 
Nos três casos de Bossou, a resposta do grupo foi semelhante, resume a equipa: “As mães transportavam os corpos em todas as viagens, catavam-nos regularmente e afugentavam as moscas que circundavam os corpos”, lê-se. 
“Indivíduos com e sem parentesco, de todos os grupos etários e ambos os sexos, tentaram tocar, empurrar ou manusear os corpos, levantando e deixando cair os membros e cheirando-os. Ocasionalmente, numa fase posterior, jovens e crianças puderam afastar os corpos da mãe, para brincar com eles. Com uma única excepção, nunca observámos uma reacção que pudesse ser interpretada como aversão, apesar do cheiro intenso dos corpos e da aparência altamente invulgar.”
Num parque zoológico
Saltemos agora para a Escócia, para o parque zoológico de Blair Drummond, perto de Stirling. Também hoje na Current Biology, a equipa de James Anderson, da Universidade de Stirling, relata os eventos antes e depois da morte serena de Pansy, uma fêmea idosa, com mais de 50 anos. 
Se já é raro ver os cuidados maternais para com crias mortas ou a grande algazarra que se segue à morte traumática de um chimpanzé, mais raro ainda é ver a resposta imediata quando um dos seus está a morrer de forma serena. Neste caso, tudo ficou registado (fotografias e filmes das duas equipas em http://www.cell.com/current-biology/Chimpanzee_movies).
No parque escocês viviam ainda: Rosie, que era filha de Pansy; Blossom, outra fêmea; e o filho desta, Chippie. Em Novembro de 2008, Pansy começou a ficar letárgica e o grupo de chimpanzés manteve-se muito calmo e dedicou-lhe atenção: catavam-na e faziam o ninho para se deitarem perto dela. Mesmo antes de morrer, cataram-na mais vezes, como se estivessem a verificar os seus sinais vitais. Assim que morreu, deixaram de a catar: “No entanto, Rosie permaneceu quase toda a noite junto do corpo da mãe”, relata este artigo. 
Nessa noite, todos os chimpanzés tiveram um sono agitado, mudando mais vezes de posição. E, de manhã, muito calmos, limparam as palhas do corpo dela. “Silenciosamente, observaram os dois tratadores a levarem Pansy, a colocarem o corpo num saco e a carregá-lo num veículo, que depois se afastou.”
Durante cinco dias consecutivos, nenhum dos chimpanzés fez o ninho perto do local onde Pansy morreu, como se quisessem deixar intocável o sítio associado à morta. “Durante semanas após a morte, permaneceram sossegados e comeram menos do que o normal”, acrescenta a equipa. “Sem símbolos ou rituais relacionados com a morte, os chimpanzés exibem vários comportamentos que fazem lembrar as respostas humanas à morte de um parente próximo.”
Consciência da morte? 
Perante todas estas observações, é caso para perguntar se, afinal, os chimpanzés têm consciência da morte. James Anderson considera que sim, que eles têm alguma consciência da morte, tendo em conta que têm consciência de si próprios. “Muitas vezes, reivindica-se que os humanos são os únicos a ter consciência da morte. Acredito que observações como as nossas sugerem que os chimpanzés têm alguma compreensão da diferença entre a vida e a ausência de vida, embora isto não signifique que tenham o mesmo tipo de compreensão da morte que nós”, responde-nos.
“É óbvio que a morte de um companheiro próximo ou de um familiar os perturba imenso: os chimpanzés manifestaram perturbações no sono e mantiveram-se calmos semanas após a morte de Pansy”, prossegue Anderson. “Esperamos que mais descrições deste género ajudem a construir uma imagem mais completa da percepção da morte nos nossos parentes evolutivos mais próximos.”
Com consciência ou não da morte, uma coisa as observações de Bossou mostram: “Nos chimpanzés, a ligação entre a mãe e a cria é extremamente forte – de certa forma, as mães recusaram-se a deixá-las, mesmo depois da morte. Uma vez que, nos primatas, as crias necessitam de cuidados constantes por longos períodos, a evolução equipou as mães com uma ligação forte às crias”, comenta Cláudia Sousa. 
“Se as mães tinham ou não consciência da morte das crias, só podemos especular – elas cuidaram dos corpos de muitas formas, como se fossem crias vivas, enquanto ajustaram alguns comportamentos, como a técnica usada para os transportar, tendo em conta que os corpos estavam inanimados e não podiam agarrar-se às mães”, acrescenta a primatóloga portuguesa. “Sabemos que os chimpanzés demonstram empatia e consciência de si. Por que não consciência sobre a morte?”

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