Quando em meados de Março foi anunciado no estado de Rhode Island que todos os professores do Central Falls High School, uma escola do ensino secundário, seriam dispensados no final do ano lectivo, muitos espantaram-se com a atitude do Presidente dos EUA. Barack Obama não só concordou com a decisão como considerou que o mesmo deveria passar a ser feito em todas as escolas que não conseguissem lidar com o insucesso persistente dos alunos.

Na altura, Randi Weingarten, presidente da Federação Americana dos Professores (AFT, na sigla em inglês), lamentou que os professores fossem “o bode expiatório” do sistema.

Os estados têm apostado cada vez mais em medidas de apoio à formação e avaliação dos professores como forma de conseguir que os alunos tenham melhores resultados. E a pressão sobre os docentes é cada vez maior. A lógica é esta: se o professor for de qualidade não há razão para que os alunos abandonem a escola ou tenham maus desempenhos.

O controlo de qualidade começa nas escolas superiores de educação. Como não há um currículo único no país, nem uma só maneira de ensinar os futuros docentes, o Conselho Nacional de Acreditação da Formação dos Professores (NCATE) faz a acreditação voluntária dos cursos. Mais de 600 instituições têm as suas formações acreditadas, cerca de uma centena já se dispuseram a pedir a acreditação. A NCATE avalia os programas e confirma se os mesmos são realmente adequados às disciplinas pelas quais os futuros docentes serão responsáveis, explica Jane Leibbrand, assessora de imprensa da NCATE, em Washington DC.

Barbara Madeloni, professora da Escola de Educação de Amherst, na Universidade de Massachusetts, admite: a maioria dos profissionais são “brancos convencidos de que vão ensinar crianças com o mesmo background deles”. Ora o que se pretende é que os futuros professores saiam das escolas superiores com formação que lhes permita enfrentar qualquer tipo de turma.

Salários e sucesso

Por isso, a NCATE – entre os seus membros estão os sindicatos dos professores – também avalia se a escola prepara os futuros profissionais para a diversidade e para a promoção de boas práticas em sala de aula, como por exemplo o uso das tecnologias e de outros recursos que ajudem o aluno a ter sucesso, continua Jane Leibbrand.

A funcionária da NCATE admite que o ensino mudou muito nos últimos 30 anos: a profissão era mais estável e também mais atractiva em termos monetários. Actualmente, só em Washington, oito em cada dez professores saem do sistema ao fim de três anos de carreira. Os docentes preferem demitir-se ou antecipar a reforma a serem despedidos, porque se tal acontecer jamais poderão regressar à carreira, explica Rob Weil, director do departamento de assuntos educacionais da AFT.

Não é fácil ser professor nos EUA, que o digam os docentes da Florida, do Tennessee ou do Delaware, três estados que já votaram leis que prevêem que a remuneração e a progressão na carreira estejam directamente relacionadas com os resultados académicos dos alunos.

Na Florida, a lei foi aprovada pelo senado no final de Março, deixando alguns preocupados com as futuras repercussões que ela terá. Frederica Wilson, senadora democrata, receia que a legislação venha a prejudicar os alunos com piores resultados, pois os professores poderão, simplesmente, não querer trabalhar com eles, noticia o Daily News.

Apesar da contestação, esta é, contudo, uma medida cara ao secretário de Estado da Educação Arne Duncan e ao Presidente Barack Obama, que defendem que uma das formas de avaliar os professores deve passar, precisamente, por analisar os resultados da evolução dos seus alunos.

Aliás, a ideia é ir ainda mais longe. No âmbito das mudanças propostas para a Elementary and Secondary Education Act (legislação que existe desde 1965), que a Administração democrata prevê que sejam aprovadas até ao final do ano, Obama propõe que, em cada estado, os cinco por cento de escolas com piores resultados possam ser encerradas.

Numa primeira fase, e segundo as propostas que estão em cima da mesa, devem ser tomadas todas as medidas que evitem o encerramento. Para começar, o director e metade do corpo docente pode ser demitido, a escola pode reabrir com nova direcção ou como charter school (com gestão privada, financiada pelo Estado, onde os professores não podem ser sindicalizados) e deve criar soluções para recuperar os alunos. Mas se, passados dois anos, nada disto resultar, a solução passará pelo fecho das portas.

O impacto da crise

Esta proposta não tem o apoio dos sindicatos nem existe investigação científica que permita confirmar que os professores vão conseguir obter resultados com estas medidas, refere Hanna Mawhinney, investigadora na Universidade de Maryland, especialista em política educativa e liderança.

“Não é através dos despedimentos que se melhora o sistema. São necessários outros métodos de avaliação do sucesso dos alunos”, defende. Mas, para isso, é preciso mais dinheiro, para mudar os exames e as provas escritas, por exemplo, acrescenta.

A crise económica tem tido grande impacto no investimento na educação. O desafio é fazer mais com menos dinheiro e este tem-se revelado difícil de ultrapassar. Os professores têm sido os primeiros a sentir a recessão através do lay-off. Com a redução do número de professores nas escolas, no Illinois surgiu mesmo a ideia de a semana escolar passar a ser de apenas quatro dias.

Na Califórnia a demissão dos professores tem levado ao aumento do número de alunos por turma (mais de 35), bem como à redução da oferta escolar, deixando apenas as disciplinas consideradas fundamentais, revela Joel Packer, do Comité para o Financiamento da Educação, uma organização que faz lobby para que o investimento federal aumente, em nome da qualidade do ensino.

Avaliação entre pares

Por outro lado, a crise também tem aberto a profissão a mais pessoas, gente que antes estava na indústria ou fazia investigação e que ficou sem trabalho. A maior parte dos estados prevê um exame de admissão à profissão para todos, mesmo para os que têm uma formação na área da docência.

Antes de dar aulas todos os candidatos têm que tirar uma licença que é válida apenas no estado onde foi tirada, o que significa que se quiserem mudar para outro terão de fazer novos exames, pelos quais terão que pagar – bem como as formações propostas pelos departamentos de educação, como acontece em Springfield, Massachusetts, onde, depois de ser admitido na profissão, o professor tem que repetir as provas de cinco em cinco anos.

De resto, também a avaliação dos professores varia de estado para estado e no interior de cada um. No condado de Wake, na Carolina do Norte, o Departamento das Escolas Públicas analisa os resultados dos alunos e observa as aulas dos professores. Quando os resultados são muito consistentes é pedido a esse docente que partilhe o seu segredo com os outros profissionais do condado. Para isso, as suas aulas podem ser filmadas e divulgadas, explica Michael H. Tally, do Departamento das Escolas Públicas.

Apesar de não haver estudos, o responsável avança que, por vezes, existe o “efeito escola”, ou seja, um professor novo consegue bons resultados porque os “veteranos” o ensinaram ou apoiaram.

Também em Springfield os professores são avaliados de dois em dois anos através da observação das aulas, os avaliadores têm a responsabilidade de indicar em que áreas o docente precisa de melhorar e a escola dá 15 dias úteis para o professor cumprir essas recomendações.

No condado de Montgomery, em Maryland, foi o próprio sindicato que criou um sistema de avaliação e assessoria aos professores. A Associação de Educação do Condado de Montgomery, assim se chama o sindicato, tem mais de 12 mil sócios que leccionam cerca de 140 mil alunos, com grandes disparidades económicas, diz Christopher Lloyd, responsável pela avaliação do sindicato. Em vez de combater o sistema, este organismo decidiu que cabe aos professores avaliarem-se entre si. A associação tem docentes destacados que só fazem avaliação e formação aos restantes.

Uma coisa é certa, independentemente das especificidades dos sistemas educativos de cada estado, a Administração Obama está sensível ao impacto da crise. E ela fez-se sentir em quase todas as escolas do país. Essa é uma das razões pelas quais o Governo Federal tem procurado injectar dinheiro num sistema onde é o financiamento local aquele que tem maior peso. A última iniciativa chama-se Race to the Top e propõe aos estados a adopção de medidas de combate ao insucesso e abandono escolar, a troco de financiamento extra.

Concorreram 41 estados mas, na primeira fase, apenas o Delaware e o Tennessee conquistaram uma fatia de 600 milhões de dólares. Falta ainda distribuir 3,4 mil milhões e o secretário de Estado Arne Duncan prevê que 10 a 15 estados possam dividi-los entre si. Os resultados só serão conhecidos em Setembro.

A jornalista viajou a convite do Departamento de Estado dos EUA e a viagem foi financiada pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

Anúncios