Em 2020, oito em cada dez profissões vão exigir experiência técnica. Na Putnam Vocational Technical High School a aposta é no ensino vocacional.

 

 Um Lincoln branco reluz bem no meio da oficina de mecânica. Atrás dele, junto à porta da garagem, um grupo de estudantes rodeia outro automóvel, com panos e escovas nas mãos. Estão a limpá-lo como já fizeram com o carro branco. A Roger L. Putnam Vocational Technical High School, em Springfield, Massachusetts, EUA, é uma escola secundária que oferece 19 cursos profissionais e tecnológicos, da cosmética à horticultura, das técnicas de ar condicionado à restauração.

São cada vez mais os jovens que procuram estes cursos, congratula-se o director Kevin McCaskill. Esta é também uma das ofertas que o Governo Federal dos EUA pretende que mais escolas tenham, com o objectivo de combater o abandono escolar, que no secundário ronda os 30 por cento, mas também porque se prevê que, em 2020, oito em cada dez profissões venham a exigir experiência técnica, refere o Departamento de Educação da Administração de Obama.

Numa das oficinas da Putnam há um cartaz que espelha o objectivo destas formações: “A metalomecânica prepara-te para uma grande carreira e é uma óptima oportunidade para entrares no ensino superior!”

Anualmente, mais de 20 por cento dos estudantes desta escola candidatam-se aos community colleges – escolas onde estudam mais dois anos e que podem dar acesso à universidade. A maioria dos que conseguem entrar acaba por ingressar no mercado de trabalho – e a escola acompanha o seu percurso ao longo de dois anos, uma exigência do Governo Federal para que continue a ser financiada.

Os community colleges recebem cerca de 12 milhões de estudantes por ano, quase metade dos que terminam o secundário (cursos gerais, vocacionais ou tecnológicos). A vantagem de estudar mais uns anos é que, quando entram no mercado de trabalho, estes jovens podem esperar ganhar, em média, ao longo da vida, 1,6 milhões de dólares, ao passo que alguém que tenha terminado o secundário aspira a uma média de não mais do que 400 mil dólares, de acordo com estimativas do Departamento de Educação federal.

Lista de espera

Em 2004, a Putnam tinha 900 alunos. Hoje são 1600. E há lista de espera, nem todos conseguem entrar. Na hora de seleccionar os que entram, a Putnam tem em conta a avaliação que o candidato traz do 3.º ciclo (as notas, a assiduidade e o comportamento) e ainda uma carta de recomendação.

Ainda assim, existe algum preconceito relativamente a este tipo de ensino, reconhece o director. Quem vai para Putnam é pouco inteligente ou não quer prosseguir os estudos, diz-se. “A escola tem que descobrir formas de manter os alunos e os cursos profissionais são a maneira de eles não abandonarem”, defende. Aqui, a taxa de abandono é de 4,6 por cento, mas já foi de 20 por cento (em 2002, ainda McCaskill não era director).

A escola tem um gabinete de aconselhamento, oferece aulas de recuperação ao sábado e criou um programa para mães adolescentes com o mesmo objectivo – o de responsabilizar mãe e pai e apoiá-los para que terminem os cursos e possam ter um futuro diferente do que o de depender da segurança social, explica McCaskill, durante um almoço preparado e servido pelos alunos de restauração. O projecto já acompanhou cerca de uma centena de grávidas.

“Há muita gente a trabalhar para o bem-estar destas crianças”, continua McCaskill, à medida que mostra a escola e vai apanhando papéis, latas de bebidas e outros despojos deixados no chão pelos estudantes. Mais de metade dos alunos é de origem hispânica, 27 por cento afro-americanos, 12 caucasianos, dois por cento asiáticos. E 22 por cento têm necessidades educativas especiais.

O detector de metais é ponto de passagem obrigatório logo pela manhã, antes das 7h35, hora a que as aulas começam. O director admite que há alunos que fazem parte de gangs, mas, na escola, não podem usar um único acessório que os identifique. Caso entrem em conflito, a medida mais grave prevista é a suspensão por 30 dias e o encaminhamento para escolas alternativas onde, nas palavras do director, “quando se entra, existe um grande silêncio e os únicos adultos são polícias e professores”. “Quando os nossos alunos voltam, vêm mais calmos.”

A Roger L. Putnam Vocational Technical High School é, apesar de tudo, considerada uma escola modelo. E é paradigmática da aposta que se está a fazer no ensino técnico, considerado pela Administração Obama uma via para garantir que mais alunos conseguem chegar ao ensino superior. 

Bárbara Wong, em Massachusetts

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