É professor e director do Centro de Tecnologia da Aprendizagem da Universidade de Manitoba, no Canadá, e juntamente com o seu colega Stephen Downes, do Institute for Information Technology’s e-Learning Research Group (Canadá), George Siemens tem explorado as possibilidades pedagógicas das novas tecnologias da informação e comunicação.

O conectivismo foi dado a conhecer em 2004 através da publicação de um texto online Connectivism: A Learning Theory for the Digital Age (2005) e tem sido desenvolvido e divulgado através da publicação de artigos em suporte de papel e online, de capítulos de livros, da participação em encontros científicos e da organização de um curso online, através da Universidade de Manitoba onde participaram 2 400 pessoas espalhadas pelo globo. As teorias conectivistas estão sintetizadas pela mão de George Siemens na obra Knowing Knowledge (2006).

EDUCARE.PT: Estamos habituados a ver o mundo digital como uma font_tage inesgotável de conhecimento quantitativo, onde o desafio é o de encontrar informação de qualidade, ou seja, proveniente de font_tages confiáveis. De que modo o conhecimento conectivo se posiciona neste contexto?
George Siemens:
Concordo, estamos habituados a ver o mundo digital como uma font_tage inesgotável de conhecimento. Um recente projecto de investigação da Universidade da Califórnia, em San Diego (http://hmi.ucsd.edu/howmuchinfo_research_report_consum.php) dá conta da enorme quantidade de informação que experimentamos e consumimos diariamente.

Actualmente, parece que este fluxo de informação só vai continuar a aumentar através de sites de partilha de imagens como o Flickr, de redes sociais como o Facebook e o Twitter, e de bases de dados livres como o data.gov. Estou convencido de que o maior desafio que os indivíduos e as organizações vão enfrentar nas próximas décadas será dar sentido a esta abundância. Este desafio, no entanto, não será possível através dos sistemas de “dar sentido” usados no passado. Um único indivíduo – um especialista – é simplesmente incapaz de interpretar a totalidade de informação que é produzida.

Teremos de mudar para modelos de trabalho em rede que permitam dar sentido a informação complexa e em rápida transformação. Veja-se o modo como foram investigados a SARS e o H1N1. Uma rede de laboratórios de investigação de todo o mundo trabalhou 24 horas por dia para identificar a natureza de cada doença. A informação foi partilhada e circulou livremente de um laboratório para o outro.

Este modelo de abordar em rede fenómenos complexos ilustra o que eu e outros (como o Stephen Downes) temos chamado de conectivismo e de conhecimento conectivo. Em vez de estarmos face a uma só font_tage confiável, indivíduos e organizações desenvolvem redes de conhecimento especializadas. Esta rede – associada à visualização de dados – torna possível distinguir a informação de valor da irrelevante. De certa forma, a rede é um agente cognitivo que ultrapassa as limitações individuais. Eu posso não ser capaz de identificar todos os elementos que compõem a informação de qualidade, mas uma rede social e tecnológica sim.

E: A teoria do conectivismo diz que “a nossa capacidade de continuar a aprender o que nos fará falta amanhã é mais importante do que aquilo que sabemos hoje”. Há aqui uma desvalorização do conhecimento que já adquirimos em virtude do que ainda vamos adquirir?
GS:
Não sei se desvalorização é o termo mais correcto. O conhecimento é uma função relacional… conexões entre font_tages de informação. Apercebemo-nos desta realidade cada vez que um país enfrenta um ataque terrorista ou depois da crise económica de 2008. Depois destes acontecimentos, ficou claro que os elementos da informação existiam, mas simplesmente não estavam conectados de modo que se produzisse o conhecimento necessário para agir. Eu levo esta ideia mais longe e digo que a informação se torna conhecimento através das conexões. Então, neste sentido, o conhecimento é um sistema de formação de conexões…

Quando eu frequentava a escola, Plutão era um planeta. Hoje não é. Uma década atrás a China não era vista como uma superpotência económica. Hoje é. Há cinco anos atrás, os media sociais (redes sociais como o YouTube e Facebook) eram em grande medida a margem do desenvolvimento da Internet. Hoje em dia constituem uma força social, influenciando o marketing, os negócios e a política. A informação que fomos conectando para formar conhecimento está constantemente em mudança. Como resultado, é decisivo que os indivíduos e as organizações continuem a avaliar e a actualizar a informação existente… e que tenham a capacidade de o fazer rapidamente. A incapacidade de se adaptar pode ser catastrófica em períodos de rápida mudança.

E: Que consequências tem o conectivismo enquanto novo modelo de aprendizagem no modo como se ensina e se aprende nas escolas?
GS:
Não quero sobrevalorizar a importância do conectivismo. Nas últimas décadas inúmeros teóricos têm avançado com teorias e ideias sobre a aprendizagem. Os mais notáveis são os que enfatizam a distribuição cognitiva, complexidade, comunidades, teoria do activismo, a teoria do actor em rede. Portanto, não é só o conectivismo que tem implicações no modo de ensinar e aprender. As salas de aula começam a ser invadidas por mudanças substanciais no modo como criamos e difundimos a informação na nossa era e no modo como os indivíduos comunicam entre si.

Um professor, hoje em dia, pode trazer um orador convidado via Skype, partilhar videos no YouTube, e aceder a font_tages abertas de recursos educacionais de dezenas de universidades. Um professor pode ainda criar redes globais de turmas – em que uma turma em Portugal, por exemplo, colabore com uma turma do Canadá, outra de África e ainda outra de Singapura.

As implicações educacionais desta “abertura” são numerosas. Mais crítica, creio eu, é a capacidade dos estudantes de criar e formar redes de aprendizagens pessoais válidas para avaliar e filtrar a excessiva informação, para conectar com outros para indicar falhas no conhecimento, e para oferecer novas e criativas recombinações de informação com vista a avançar e a expandir os seus conhecimentos.

E: Não será perigoso fazer depender a aprendizagem de uma rede de conexões feita por uma pessoa, se essa pessoa não possuir a competência para descobrir as melhores font_tages? E, neste caso será que a escola pode ser considerada responsável pela “ignorância” destas escolhas individuais?
GS:
Não creio que seja perigoso. Sim, em diferentes estádios de competência num determinado campo ou área de estudo, podemos requerer mais orientação por parte de quem está há mais tempo a trabalhar nesse campo. Mas penso que é mais perigoso limitar o nosso input de informação a uma mão-cheia de peritos…

Os peritos são importantes, mas podem enganar-se. Os educadores jogam um papel muito importante ajudando os alunos a formarem nuances e diversas redes de trabalho para que eles (os alunos) sejam capazes de experimentar uma matéria sobre múltiplas facetas.

Veja-se o que acontece ao conhecimento de ponta. Que boas font_tages de informação tem quem é líder em áreas de investigação? Apenas a sua rede de pares. De um modo semelhante, os métodos que os peritos usam para dar sentido ao mundo podem ser modelados por novas descobertas realizadas nesse campo. Como já disse, um aprendiz irá com certeza necessitar de níveis mais elevados de apoio para formar a sua rede, mas depois de algum tempo, ele estará apto a criticar, avaliar e a conectar sem confiar exclusivamente em outros para lhe providenciarem um guia.

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