Gage trabalha para os caminhos-de-ferro Rutland & Burlington e tem a seu cargo um grande número de homens, uma «brigada» cuja tarefa consiste em assentar os carris da linha de caminho-de-ferro através de Vermont.
E é agora que tudo se vai desenrolar. São 4 horas e 30 minutos de uma tarde escaldante. Gage acabou de colocar a pólvora e o rastilho num buraco e disse ao homem que o estava a ajudar para colocar a areia. Alguém atrás dele estava a chamá-lo. Por um breve instante, Gage olha para trás, por cima do ombro direito. Distraído, e antes de o seu ajudante introduzir a areia, Gage começa a calcar a pólvora directamente com o bastão de ferro. Num ápice, provoca uma faísca na rocha e a carga explosiva rebenta-lhe directamente no rosto.
A explosão é tão forte que toda a brigada está petrificada. São precisos alguns segundos para nos apercebermos do que se passa. O estrondo não é normal e a rocha está intacta, O som sibilante que se ouviu é também invulgar, como se se tratasse de um foguete lançado para o céu. Não é porém de fogo-de-artifício que se trata. É antes um ataque, e feroz, O ferro entra pela face esquerda de Gage, trespassa a base do crânio, atravessa a parte anterior do cérebro e sai a alta velocidade pelo topo da cabeça. Aterra no chão a mais de 30 m de distância, envolto em sangue e massa cerebral. Phineas Gage é projectado para o chão. Está agora atordoado, silencioso mas consciente.

Sobreviver à explosão com uma tal ferida, ter sido capaz de falar, caminhar e permanecer consciente imediatamente após o acidente — tudo isto é deveras surpreendente. Mas igualmente surpreendente será também a sobrevivência à inevitável infecção que está prestes a desenvolver-se na ferida.
A narrativa de Harlow, o médico de Phineas Gage, descreve o modo como Gage recuperou as suas forças e como o seu restabelecimento físico foi completo. Gage podia tocar; ouvir, sentir, e nem os membros nem a língua estavam paralisados. Tinha perdido a visão do olho esquerdo, mas a do direito estava perfeita. Caminhava firmemente, utilizava as mãos com destreza e não tinha qualquer dificuldade assinalável na fala ou na linguagem. No entanto, tal como Harlow relata, o “equilíbrio, por assim dizer, entre as suas faculdades intelectuais e as suas propensões animais fora destruído”. As mudanças tornaram-se evidentes assim que amainou a fase critica da lesão cerebral. Mostrava-se agora caprichoso, irreverente, usando por vezes a mais obscena das linguagens, o que não era anteriormente seu costume, manifestando pouca deferência para com os seus colegas, impaciente relativamente a restrições ou conselhos quando eles entravam em conflito com os seus desejos, por vezes determinadamente obstinado, outras ainda caprichoso e vacilante, fazendo muitos planos para acções futuras que tão facilmente eram concebidos como abandonados. Sendo uma criança nas suas manifestações e capacidades intelectuais, possui as paixões animais de um homem maduro”. A sua linguagem obscena era de tal forma degradante que as senhoras eram aconselhadas a não permanecer durante muito tempo na sua presença, não fosse o caso de ele ferir as suas sensibilidades, As mais severas repreensões vindas do próprio Harlow falharam na tentativa de fazer que o nosso sobrevivente voltasse a ter um bom comportamento.

António Damásio, O Erro de Descartes, Europa-América pp. 24-28
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