O Dr. P. era um músico distinto, muito conhecido por ter sido cantor durante bastantes anos e por, mais tarde, ter começado a ensinar na escola de música local. Foi aí, em relação aos seus alunos, que se reparou pela primeira vez em alguns dos seus estranhos problemas. As vezes, quando um aluno intervinha nas aulas ele não o reconhecia, mais exactamente, não reconhecia o seu rosto. Assim que o aluno começava a falar o Dr. P. reconhecia-o pela voz. Estes incidentes tornaram-se cada vez mais frequentes causando vergonha, perplexidade, medo e por vezes situações cómicas porque o professor não só não reconhecia os rostos como os via onde eles não existiam. Como se fosse um pitosga a passear na rua, fazia festas nas bocas de incêndio e nos taxímetros convencido de que estava a acariciar crianças, dirigia-se educadamente aos candeeiros, e ficava muito admirado por não receber resposta. (…)
Bastaram apenas alguns segundos para perceber que não havia nele traços de demência na acepção vulgar do termo. Era um homem culto, educado, que conversava com à-vontade, imaginação e humor. Não consegui perceber porque razão lhe tinham recomendado a nossa clínica. No entanto havia algo um pouco estranho. (…) Afundamos as nossas inquietações na rotina calma de um exame neurológico: força muscular, coordenação, reflexos, tonicidade… foi ao examinar os seus reflexos apenas ligeiramente anormais do lado esquerdo que aconteceu a primeira coisa estranha. Eu tinha-lhe tirado o sapato do pé direito para lhe arranhar a planta do pé com unia chave, um teste de reflexos que parece frívolo, mas que é essencial, depois, desculpando-me com o pretexto de ter de mostrar o meu oftalmoscópico deixei-o calçar-se sozinho. Fiquei admirado quando vi que ele, ao fim de um minuto, ainda não se tinha calçado.
 “Posso ajudar ?“, perguntei.
 “Ajudar quem? A fazer o quê?
 “Ajuda-lo a pôr o sapato ?“    –
 “Ah “, exclamou “tinha-me esquecido.” e acrescentou sotto voce .“ o meu sapato? O sapato?” Parecia estar baralhado.
“Sim, o seu sapato”, repeti, “não o quer calçar ?“
Ele continuou a olhar para o chão, mas não na direcção do sapato, com uma concentração intensa mas mal colocada. Finalmente fixou o olhar no pé. “Mas isto é o meu sapato, não é ?“
Seria eu que não estava a ouvir bem ou ele que estava a ver mal? Ele pôs a mão no pé e repetiu: Isto é o meu sapato, não é ?“
“Não, isso é o seu pé. O seu sapato está ali.”
“Ah! Pensei que isso era o meu pé.”
Estaria a brincar? Estaria louco? Cego? Se este era um dos seus “enganos que eu já tinha visto.
Ajudei-o a calçar o sapato ( o pé) para evitar mais confusões. O Dr. P. estava impávido e sereno, talvez até divertido. Apressei o resto do exame.
Eu devo ter ficado assombrado mas ele parecia pensar que tinha feito bons testes.
Havia quase um sorriso no seu rosto. Parecia ter decidido que os testes tinham terminado e começou á procura do chapéu. Estendeu a mão e agarrou na cabeça da mulher para a tentar levantar e pôr na cabeça. Tinha confundido a mulher com um chapéu!
Em geral não reconhecia ninguém: nem a família, nem os colegas, nem os alunos, nem mesmo a si próprio. Reconheceu um retrato de Einstein porque se apercebeu do seu belo cabelo e bigode característicos.
Ele olhava para os rostos, mesmo o das pessoas mais chegadas como se fossem puzzles ou testes abstractos. Não se relacionava com eles nem os observava. Não havia rostos familiares vistos como um “tu”, eram apenas identificados como um conjunto de características, como uma “coisa”.
Um rosto, para nós, é uma pessoa (o espelho de uma pessoa), vemos a pessoa através do seu rosto, da sua persona. Mas para o Dr. P. não havia nem persona exterior nem uma pessoa por detrás do rosto. (…)
Nada lhe era familiar. Visualmente estava perdido num mundo de abstracções sem vida. Não tinha um mundo visual tal como não tinha imagem visual dele próprio. Sabia falar acerca das coisas mas não as via face a face.
O Dr. P. , por outro lado, funcionava precisamente como funciona uma máquina. Não apenas demonstrava a mesma indiferença de um computador face ao mundo visual mas, e isto era ainda mais impressionante, construía o mundo como um computador o constrói: através de pontos-chave e relações sistemáticas. Os esquemas podem ser identificados sem que a realidade seja de todo apreendida.
Como é que ele faz seja o que for? Perguntei-me. O que é que acontece quando vai à casa de banho, quando se veste, quando toma banho?
Faz tudo a cantar. Se há uma interrupção perde o fio à meada, pára completamente, deixa de reconhecer a roupa e o seu próprio corpo. Tem canções para tudo: para comer, para se vestir, para tomar banho… para tudo. Só consegue fazer aquilo que transforma em música.”
Sads, Oliver, O homem que confundiu a mulher com o chapéu
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