Trabalho produzido no âmbito de uma acção de formação na FLUP em 2003:


A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Culturafoi fundada para promover a paz e a felicidade, agindo sobre o espírito dos homens e mulheres. O presente Manifesto proclama que os serviços das mediatecas escolares são essenciais para uma efectiva educação de todas as crianças e adolescentes, e que a educação é um agente vital na manutenção da paz e entendimento entre povos e nações.

in Manifesto das Nações Unidas sobre mediatecas escolares

Tradicionalmente a biblioteca é vista como um depósito passivo, se não inerte, de livros. Nada mais errado.

A Biblioteca Escolar/ Centro de Recursos Educativos é uma peça fundamental, central, fulcral do ensino, e não apenas do ensino enquanto mera transmissão de conhecimentos: é um elemento de educação e formação, cultural e recreativa, na mais profunda significação de ambas as palavras. O trabalho do bibliotecário não é, nem pode ser, o de um mero gestor de livros: é, isso sim, um gestor de pedagogia, um profissional cujo trabalho pode ser central em todo o Projecto Educativo da escola em que está integrado.

Algumas questões fundamentais se levantavam antes da realização desta acção:

  • Que razões existem para se proceder à informatização de bibliotecas escolares? A informatização é um passo imprescindível, ou um mero luxo tecnológico?
  • Qual o software disponível no mercado para proceder à informatização?
  • Quais os critérios a aplicar no caso de selecção de um software específico?
  • Quais as tendências de evolução da biblioteca no futuro?
  • Qual o papel que está reservado à biblioteca escolar na era da sociedade da informação?
  • Correlativamente, qual o papel do professor bibliotecário? Quais as suas competências? Até que ponto essa função o aproxima ou distancia do ensino?

Como veremos, estas são questões que a Acção de Formação “Informatização de Bibliotecas Escolares” não deixou sem resposta.

Ao ser solicitado em relatório, entendeu o signatário conferir-lhe uma carga maximamente reflexiva e minimamente descritiva. Não se encontrará aqui, por certo, um relato pormenorizado de cada uma das sessões, mas sim uma reflexão pessoal sobre as incidências profissionais, isto é, efectivamente formativas que esta acção proporcionou.

A importância da Biblioteca Escolar

Hoje, seja qual for o nome por que são designadas, as bibliotecas escolares sobre as quais nos propomos reflectir surgem como recursos básicos do processo educativo, sendo-lhes atribuído papel central em domínios tão importantes como: (i) a aprendizagem da leitura; (ii) o domínio dessa competência (literacia); (iii) a criação e o desenvolvimento do prazer de ler e a aquisição de hábitos de leitura; (iv) a capacidade de seleccionar informação e actuar criticamente perante a quantidade e diversidade de fundos e suportes que hoje são postos à disposição das pessoas; (v) o desenvolvimento de métodos de estudo, de investigação autónoma; (vi) o aprofundamento da cultura cívica, científica, tecnológica e artística

A biblioteca escolar é um sector de importância fundamental numa escola, desde os tempos em que o livro constituía uma fonte para disseminar o conhecimento. Uma biblioteca bem apetrechada, com uma rica variedade em fontes, é um pré-requisito para o preenchimento do curriculum e para dar resposta às necessidades individuais do aluno e dos restantes elementos da comunidade educativa.

A biblioteca escolar desempenha um papel essencial ao auxiliar os estudantes a desenvolver os conceitos de recuperação de informação e ao auxiliá-los a adquirir destreza para utilizar e gerir fontes de informação.

A biblioteca escolar é um armazém de informação dentro da escola, organizada de forma semelhante a outras instituições que detêm o mesmo fim. A biblioteca escolar age, assim, como uma ponte entre a escola e a sociedade, trazendo conhecimento aumentado para a escola, de modo a fornecer desafios às mentes inquiridoras dos jovens. Os principais objectivos das bibliotecas escolares são fornecer e explorar informação organizada a fim de ajudar a alargar o conhecimento de base de cada aluno individual, e preparar os estudantes a manusearem informação com destreza para os auxiliar a procurar e utilizar informação na sua vida futura.

Nos últimos 20 anos do séc. XX verificou-se uma transformação radical: a introdução das novas tecnologias de informação, que trazem um novo potencial para a funcionalidade de cada biblioteca. È a Biblioteca sem paredes: podemos encontrar um livro, um documento, uma fonte não no espaço físico em que nos encontramos mas sim em qualquer lugar com o qual tenha sido estabelecida uma relação em rede.

A Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade do Porto: um exemplo de profissionalismo

Um momento marcante desta Acção de Formação foi, inequivocamente, a visita a 3 de Novembro às instalações da Biblioteca da Faculdade de Letras, imponente não pela sua arquitectura mas pela demonstração de profissionalismo e competência. Trata-se de uma Biblioteca de inegável interesse não só pelo seu vastíssimo fundo documental, mas sobretudo pela organização e conhecimentos técnicos que exige.

Longe vão os tempos em que uma biblioteca se constituía como depósito de livros. Hoje, as bibliotecas são Centros de Recursos, locais aprazíveis de trabalho e lazer, investigação e fruição. Exemplo disso é esta biblioteca, que coloca aos seus utentes um vasto leque de funcionalidades que permitem uma utilização intensiva e extensiva de todos os recursos possíveis.

A preparação do Professor Bibliotecário

A tarefa do bibliotecário não é fácil, nem exequível sem limites de tempo razoáveis. Desempenhar cabalmente essa tarefa é algo que não se compadece com meros “preenchimentos de horários”, pois a complexidade da tarefa não o permite. O Professor bibliotecário deverá, no mínimo, ter frequentado acções de formação de três tipos:

  • gestão e catalogação
  • informatização
  • dinamização

de bibliotecas escolares.

A primeira permite a mera selecção, organização e utilização da biblioteca.

A segunda permite colocar a biblioteca num nível tecnológico moderno, capaz de dar resposta às solicitações exigíveis numa sociedade de informação.

A terceira permite vislumbrar a biblioteca como um lugar de ensino e não um mero depósito passivo de “livros”.

O Professor Bibliotecário deverá receber formação específica na área da biblioteconomia para que se perspective a si próprio e seja reconhecido por todos como um especialista em informação, designadamente através do recurso a todas as novas tecnologias.

Isto implica também um investimento a longo prazo: não faz sentido formar especificamente um Professor, no caso de não ser possível a existência de um técnico superior de documentação, e mudar de coordenador da biblioteca escolar no ano lectivo seguinte. É necessário um planeamento atempado, devidamente inserido no Projecto Educativo da escola, que permita alguma estabilidade e a melhor rentabilização dos recursos humanos disponíveis.

A aquisição e organização de recursos de aprendizagem é o requisito para o funcionamento sistemático de uma biblioteca escolar como armazém de informação. Sem organização adequada, os recursos de aprendizagem são inúteis como ferramentas para a prática da perícia de informação e para um mais fácil acesso às fontes, que podem alargar o conhecimento inicial dos estudantes.

A extensão para a qual a aquisição e competências de organização são necessárias depende dos serviços de apoio que a biblioteca escolar tem disponíveis; contudo, os bibliotecários escolares deveriam, em qualquer caso, ser capazes de desenvolver sistemas para processamento de material e deveriam ter conhecimentos de classificação e catalogação.

Informatização de Bibliotecas escolares

A Sociedade da Informação é aquela que tem na informação o seu principal bem de consumo, entendendo-se a informação como um produto de valor acrescentado que gera riqueza e contribui decisivamente para o desenvolvimento sócio-económico das sociedades modernas.

É nesse contexto que se deve entender o papel da biblioteca dos nossos dias: trata-se de ser capaz de dar resposta às solicitações, possibilitando o acesso à informação de forma rápida. Para tal, é necessário proceder à informatização dos serviços: numa biblioteca de uma escola secundária que cresça a uma média de 2600 volumes por ano, conforme surge referenciado no site da Rede de Bibliotecas Escolares, teremos um crescimento efectivo de 26000 volumes num prazo de 10 anos, o que constitui uma tarefa hercúlea para qualquer tentativa de efectuar o tratamento da documentação manualmente. Por outro lado, há a questão da acessibilidade: só com a informatização é possível processar rapidamente a informação, de modo a localizar o documento pretendido; só a informatização permite registar, a baixo custo, tão grandes volumes de dados acessíveis para pesquisa com a funcionalidade de interconexão de ficheiros.

Simultaneamente, a informatização permite o acesso à informação onde quer que ela se encontre, permitindo o estabelecimento de protocolos de cooperação com outras bibliotecas, ligadas em rede. Este aspecto permite a transformação da biblioteca num espaço sem delimitações físicas, integrando-se num contexto mais amplo, em sintonia com as exigências da sociedade da informação.

De resto, várias razões foram enunciadas durante a Acção para informatizar a biblioteca:

1. melhoria da gestão administrativa

  • produção fácil de instrumentos auxiliares de gestão
  • comunicação mais rápida e eficaz
  • racionalização de recursos humanos e materiais
  • aumento de produtividade

2. reabilitação dos serviços bibliográficos

  • maior eficiência nas operações de tratamento documental
  • maior qualidade da informação bibliográfica
  • maior controlo na gestão das colecções

3. melhoria dos serviços ao utilizador

  • mais eficácia e qualidade na pesquisa bibliográfica
  • maior rapidez nos procedimentos de empréstimo
  • possibilidade de gestão de ficheiros à distância
  • maior facilidade de manuseamento da informação

4.  desenvolvimento e criação de novos serviços

  • difusão selectiva da informação
  • serviços de alerta e reserva
  • diversificação dos fundos documentais

5.  cooperação inter-bibliotecas

  • constituição de redes e cooperativas
  • partilha de recursos bibliográficos
  • empréstimo inter-bibliotecas

Como se verá, a possibilidade de estabelecer parcerias protocoladas com outras instituições e de oferecer novos serviços depende, em grande medida, da informatização. No entanto, as oportunidades e funcionalidades possibilitadas pelas novas tecnologias são aspectos que devem pesar na altura de avançar ou não com a informatização da biblioteca.

No caso concreto da escola onde o signatário exerce funções, foi apresentado um dossier de estudo para selecção de um sistema informático de gestão para a biblioteca, em função dos critérios rigorosamente definidos nos textos de apoio fornecidos no decorrer da Acção de Formação.

Foi seleccionado o software Bibliobase por ser aquele que melhor se adaptava às condições específicas da biblioteca escolar. Posteriormente, um contacto de um organismo superior anunciou a atribuição gratuita do software Porbase à escola, pelo que o critério económico acabou por ser preferencial na escolha do sistema. De resto, o próprio coordenador da biblioteca, signatário deste relatório, tinha já apresentado o Porbase como segunda escolha, pelo que, quanto a essa matéria, não se opõe à adopção desse software. O importante é, indubitavelmente, a informatização da biblioteca de forma profissional e responsável, de forma a permitir a sua futura integração em rede.

Parcerias com outras bibliotecas

Um dos pontos mais interessantes possibilitado por esta acção de formação é o conceito de biblioteca em rede. Podem ser estabelecidas parcerias com a biblioteca pública da região ou com bibliotecas mais distantes, mas o conceito de biblioteca em rede vai muito mais longe: trata-se da possibilidade de estabelecer parcerias em tempo real com centenas de outras bibliotecas em todo o país através das ligações possibilitadas pelas novas tecnologias.

As bibliotecas escolares devem ser organizadas pelas mesmas linhas do que outras bibliotecas servindo a comunidade, utilizando o mesmo tipo de classificação e arrumação das colecções e deverá ser dado ênfase ao domínio das componentes de organização do trabalho da biblioteca.

Assim, foi constituída uma equipa de coordenadores da biblioteca orientada pelo signatário que estudará, no âmbito da Rede de Bibliotecas Escolares, as possibilidades de estabelecimento de um protocolo com a Biblioteca Pública de Paredes. Esse protocolo será elaborado e, se possível, estabelecido durante o presente ano lectivo.

O estabelecimento deste protocolo não surge em detrimento de outras cooperações que possam ser desenvolvidas: a intenção será a de estabelecer um interface informático com outras escolas, ligadas em rede, partilhando documentos e permitindo a funcionalidade do empréstimo inter-bibliotecas.

Biblioteca inclusiva

Outro momento marcante desta acção de formação foi a sessão com a responsável pelo serviço de tratamento de documentação acessível a deficientes.

É possível proceder à informatização/digitalização dos textos fundamentais dos alunos usuários da biblioteca recorrendo às novas tecnologias: ampliação no ecrã dos textos pretendidos, recurso a programas sintetizadores de voz para leitura dos textos para invisuais, equipamento informático adaptado a portadores de deficiências motoras, articulação dos textos escritos com a linguagem gestual dos surdos-mudos, etc.

Esta sessão revelou-se particularmente interessante por constituir a abertura a um novo conceito de Biblioteca: uma Biblioteca Inclusiva, capaz de colocar os recentes avanços tecnológicos ao alcance de todos os cidadãos, mesmo que aparentemente (mas só aparentemente!) impossibilitados de aceder ao fundo documental.

Uma consulta posterior ao catálogo de publicações áudio da Biblioteca Pública Almeida Garret permitiu ainda descobrir algo que parece ser desconhecido na maioria das escolas: a existência de um conjunto assinalável de manuais, textos e outros documentos especialmente concebidos para alunos portadores de deficiência. As próprias editoras começam também a distribuir manuais em suporte digital acessível ou adaptável às diversas circunstâncias.

Assim sendo, o signatário deste Relatório entendeu que deveria passar à acção, pelo que foram desenvolvidos contactos com a equipa de Apoios Educativos da Escola para averiguar as necessidades existentes e previsíveis nos próximos anos. Posteriormente, deu-se início a um estudo de viabilidade financeira da introdução de suportes digitais (hardware e software) na actual Biblioteca. Assim, a ideia de Biblioteca Inclusiva foi assumida como projecto a iniciar já no presente ano lectivo por toda a equipa de coordenação da Biblioteca da Escola Secundária de Paredes, tendo sido dado conhecimento ao respectivo Conselho Pedagógico.

Conclusão

Esta Acção de Formação foi efectivamente proveitosa ao permitir a resposta a todas as questões – e muitas outras, por certo – enunciadas na introdução deste Relatório.

Em plena Sociedade da Informação, existem variadíssimas razões para informatizar as bibliotecas escolares, pois só assim será possível melhorar a gestão administrativa, prestar novos e melhores serviços ao utilizador, melhorar a qualidade dos serviços bibliográficos, desenvolver e criar novos serviços e estabelecer acordos de cooperação com outras bibliotecas. Existem variadíssimos suportes informáticos no mercado, desde o Bibliobase ao Docbase, passando pelo avançadíssimo Aleph ou por sistemas mais popularizados como o Porbase. O importante será estabelecer os critérios em função dos quais será feita a selecção, devendo o Professor Bibliotecário ser o principal referencial na opção, e não um mero funcionário administrativo.

A evolução futura das bibliotecas exige que exista um trabalho prévio de catalogação, indexação, informatização de todo o fundo documental que possa ser partilhado com outras bibliotecas integradas numa rede. Os alunos em particular e toda a comunidade educativa só têm a lucrar com o profissionalismo dos coordenadores de biblioteca, que têm como (bom) exemplo aquele que nos foi proporcionado com a visita à Biblioteca Central da Faculdade de Letras. Como se viu, a biblioteca do futuro não é uma entidade isolada, nem se limita ao armazenamento dos documentos convencionais; outros suportes, nomeadamente os digitais, constituem uma área de desenvolvimento da biblioteca e a utilização das novas tecnologias permitirá o acesso universal à informação e a ligação em rede dos recursos de muitas bibliotecas. Assim sendo, o papel da biblioteca escolar do futuro é o de órgão central da acção pedagógica nas vertentes formativa, informativa, cultural, lúdica e recreativa.

Deste ponto de vista, o Professor Bibliotecário assume particular relevância ao constituir-se como nó górdio de toda a acção educativa, com implicações não apenas na comunidade educativa mas, de forma mais ambiciosa, em todo o contexto social envolvente.

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