No início do séc. XIX, designa-se assim a burguesia, por oposição à aristocracia agrária, que, no plano político, vive as suas últimas horas de classe dirigente. As primeiras reflexões sobre a classe incidem sobre este grupo, cujo conteúdo não cessa de alargar-se, a ponto de englobar a pequena burguesia independente e os empregados superiores. Seguidamente, e para numerosos autores, como Marx, a tomada em conta de uma classe média constitui problema, porquanto se integra mal nos esquemas habituais da estratificação que reduzem a divisão da sociedade a duas grandes classes: a burguesia (que assimilou e depois suplantou a aristocracia) e o proletariado, que a revolução industrial remodelou completamente.
No seio do conglomerado constituído pelas classes médias, é corrente distinguir dois (Lavau et al. 1983): a pequena burguesia dita tradicional, que reúne os chefes das empresas artesanais ou comerciais, aos quais se associa por vezes os camponeses abastados; as “novas camadas sociais”, constituídas por intelectuais, quadros ou técnicos. Durante o século passado, mas bastante tardiamente, a composição do grupo mudou no sentido esperado. Os pequenos patrões perderam, nomeadamente desde há quarenta anos, mais de 20 por cento do seu efectivo, ao passo que as categorias médias assalariadas, sobretudo graças ao sector público, mais que dobraram em número. E, se se incluir na estatística a parte mais qualificada dos empregados, as camadas médias reúnem actualmente cerca de metade da população activa. Será preciso ainda interrogar-se sobre a pertinência do reagrupamento proposto? Não residirá o seu único e verdadeiro denominador comum, paradoxalmente, na heterogeneidade dos índices de posição social que caracterizam cada uma delas? A esta pergunta, vários sociólogos procuraram dar uma resposta. Pode avançar-se à maneira de F. Simiand (1929), que define as outras classes (campesinato, burguesia, operariado) antes de considerar que o que resta constitui a classe média. Inspirando-se neste exemplo, mas numa perspectiva marxista, C. Baudelot et al. (1974) caracterizam o grupo, que denominam “pequena burguesia”. Só a burguesia e o proletariado devem considerar-se como classes propriamente ditas: uma, reunindo os possidentes, a outra, agrupando os excluídos da “retrocessão da mais-valia”. Todos os autores partilham no fundo a ilusão de crer que basta conhecer as categorias extremas para que, por defeito, sejam definidas as camadas intermédias. Recentemente, Monjardet e Benguigui (1982) quiseram situar as camadas médias na intersecção dos eixos que estruturariam as sociedades contemporâneas: o das relações de classe à volta da oposição capital/trabalho e o da relação entre o Estado e a sociedade civil. A zona em que se cruzam os dois eixos seria o lugar de implantação dos “aparelhos”, cujos agentes ocupam os lugares compreendidos entre as funções dirigentes e os empregos de execução. A vantagem principal desta análise é fornecer elementos de apreciação positivos das camadas médias, pelo menos das que se encontram no aparelho de Estado ou na empresa capitalista. Mas ao excluir várias categorias, cruciais de facto como os não assalariados, os autores limitam demasiado a sua ambição, ao mesmo tempo que confirmam a disparidade profunda das classes médias.
Raymond Boudon
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