Harmonia (ingl. harmony; fr. harmonie; al. Harmonie; it. armonia)

O conceito de harmonia constituiu-se originariamente no âmbito da concepção cosmológica da escola de Pitágoras, e no seu fundamento estão especulações de natureza musical. Enquanto a música moderna faz uso da escala temperada, que é aproximada-mente a escala natural baseada no princípio das relações simples, os pitagóricos elaboraram uma escala musical baseada no princípio das quintas. Com esta lei das quintas, determinavam todas as sete notas, definindo a oitava como «harmonia». As notas fundamentais desta gama, ou oitava, das quais, com a lei das quintas, se deduzem as outras, são a prima, a quarta ou syllaba, a quinta ou diapente e o diapasão, ou seja, as quatro cordas do tetracorde de Filolau (dó, fá, sol, dó).

Segundo a tradição, Pitágoras havia descoberto através da observação e da experiência que as relações entre o comprimento destas cordas e o comprimento da primeira eram expressas pelas relações numéricas 4:3, 3:2, 2: 1, isto é, pelas relações da tetractis (o número 10, soma dos primeiros quatro números, representável por um triângulo que tem o quatro por lado), quer dizer, as mais simples relações possíveis. O tetracorde de Filolau revelava que, no âmbito da harmonia, estão na base os mesmos núme ros 1, 2, 3, 4 que se encontram na tetractis. Quanto a esta última, a seita dos acusmáticos, representando as tradições mais puras e mais arcaicas do pitagorismo, defendia que a sua sede se situava no santuário de Apolo em Delfos: «A tetractis, porque nela está a harmonia, na qual estão as Sereias» (Delatte, Études sur la littérature pythagoricienne, 1915, p. 255). Dada a função reconhecida à música sacra no âmbito do pitagorismo, as Sereias representam a harmonia das es- feras. Segundo Giamblico, a maior revelação que Apolo e Pitágoras fizeram ao mundo é a da harmonia das esferas e da música erudita que nela se inspira. Duas causas, sobretudo, explicam a grande veneração de que a tetractis era objecto junto dos pitagóricos: por um lado, ela explicava com a harmonia as leis da música celeste e humana, encamando assim a fonte e a raiz da natureza; por outro, permitia aos pitagóricos imitarem com a música erudita a harmonia das esferas e aproximarem-se assim da perfeição divina. A função catártica da música, além disso, fazia da tetractis uma doutrina particularmente preciosa quanto ao contributo que podia dar para o aperfeiçoamento moral e religioso dos seres humanos. Depois de Pitágoras, Platão foi o pensador que mais reflectiu sobre a harmonia, por ele entendida sobretudo como proporção. Harmonizar, ou preencher o intervalo entre dois termos dados, con-siste em achar o meio que dá origem à proporção. Esta procura manteve-a Platão, indiferentemente, quanto às proporções da matemática, da música e da cosmogonia. Segundo a República, o «problema harmónico» geral consiste em pôr em proporção os intervalos por meio de termos que estejam em relações definidas com os termos iniciais dados, a fim de obter a «sinfonia» ou acordo dos intervalos. No Teeteto e no Timeu, além disso, Platão indica toda uma série de operações que são «análogas» à criação da harmonia musical escolhida pelos pitagóricos para modelo de harmonia perfeita: unir as superfícies e os volumes arquitectónicos (problema retomado depois por Vitrúvio) com base na euritmia fundamentada na analogia das formas, introduzir o termo médio num silogismo, etc. (cfr. M.C. Ghyka, Le nombre d’or, 1931 e 1959). Ao tratar do ritmo da alma do mundo, no Timeu (34 b-36 d), Platão serve-se da dupla tetractis musical dos pitagóricos: (l +3+5+7)+(2+4+6+8)=36, soma dos primeiros quatro números ímpares e dos primeiro quatro números pares, para obter a gama celeste cujos tons permitiriam orquestrar a harmonia das esferas. Foi enorme a influência sobre o pensamento ocidental das passagens do Timeu que expõem a correlação entre o ritmo da alma do mundo e o da alma do homem, seja no âmbito filosófico (teoria do macrocosmo e do microcosmo), seja no âmbito estético (cânone da divina proporção de Pacioli e de Leonardo da Vinci), seja no âmbito científico (influência sobre a descoberta das leis da astronomia de Kepler).

Em A Grécia e as Instituições Pré-cristãs (1951), Simone Weil salientou, no quadro de uma elaboração autónoma da dimensão ético-religiosa do conceito de harmonia, a continuidade entre a visão grega pitagórico-platónica da harmonia como unidade dos contrários, e a concepção cristã da Trindade. «Deus é sempre mediador. Mediador entre si e si mesmo. Mediador entre si e o homem. Mediador entre um homem e outro homem. Deus é essencialmente mediação. Deus é o único princípio de harmonia» (lbidem, Roma, 1980, p. 230).

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