O campo da teoria da música, no mundo ocidental, tem sido atravessado desde a antiguidade por um conjunto de problemas frequentes e estritamente ligados entre si: o carácter intrinsecamente dúplice do facto musical, dividido entre uma forma em que predomina a matemática das proporções harmónicas e uma dimensão perceptiva na qual prevalecem os seus aspectos sensíveis; a questão dos efeitos que a música provoca em quem a ouve, com as temáticas correlativas da função social da música e da sua AUTONOMIA ou dependência relativamente a outras formas de expressão, começando pela linguagem; por fim, a questão da origem da música, entendida não só em sentido histórico, mas também como definição da sua natureza, das suas tarefas e dos seus limites.
Tradicionalmente, faz-se remontar à escola pitagórica a determinação das relações matemáticas da HARMONIA, concebida como união dos opostos na ordem do número, estabelecendo assim uma analogia geral entre as proporções do cosmos, dos sons, a saúde do corpo e da alma. Para os pitagóricos a harmonia musical, do ponto de vista teórico, segue as mesmas leis do cosmos, podendo mesmo falar-se de uma inaudível «música das esferas>> para definir as relações entre os corpos celestes. No âmbito do exercício prático, para os pitagóricos a música representa uma espécie de terapia, cujo objectivo é o equilíbrio do corpo e a purificação da alma através dos sons.
A avaliação ambígua que se observa em Platão relativamente à música depende, por um lado, do aprofundamento das analogias estabelecidas pelos pitagóricos e, por outro, da clara separação entre o nível especulativo e o nível prático da arte musical. Para Platão, se se considerarem as leis da harmonia, então a música é uma forma de conhecimento associado à cosmologia (República, VII, 530 c-53 1 c; Timeu 34), já o seu exercício, pelo contrário, pode ser utilizado para reforçar a correcta formação do cidadão no contexto do Estado, mas também pode ser orientado para a «adulação da alma e do corpo», ficando estes retidos no âmbito da aparência e desviados do conhecimento autêntico (Górgias, 507; República 376 e-378 e). Portanto, a ambivalência da música pressupõe uma fundamental AMBIGUIDADE das suas conotações éticas e, para Platão, confirma aquela «antiga divergência» entre a música e a filosofia (República), que só esta última pode sanar se se constituir, ela própria, como forma «altíssima» de música (Fédon 60 c-61 b).
O valor ético e pedagógico intrínseco aos diferentes géneros musicais e a cada um dos «modos» da música grega foi tratado de maneira sistemática pelo pitagórico Damone de Oa, cujas teorias influenciaram profundamente a posição de Platão e a de Aristóteles, mais abertas aos aspectos técnicos e práticos do facto musical.
Se, na Poética, Aristóteles considera a música apenas marginalmente no contexto do «espectáculo» dramático, já na Política lhe dedica imenso relevo quando valoriza positivamente o PRAZER que dela resulta. Aristóteles explica: se a música respeitar as leis da harmonia, produz um alívio que traz serenidade» e prepara o efeito catártico que a arte poética obtém através de diferentes meios. A única música capaz de obter semelhantes prestações é, até ao momento, aquela executada com a lira ou com a cítara, oferta de Apoio. Já a flauta, sendo um instrumento melódico por excelência, é sobretudo considerada apanágio da desordem dionisíaca.
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