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detritus toxicus

Curadoria de conteúdos

Mês

Setembro 2008

Texto 009 – Escola versus televisão

 

«Todos conhecemos a opinião dominantemente negativa da influência da televisão sobre as crianças e os jovens, nomeadamente no que respeita ao fascínio que sobre eles exerce em detrimento do estudo. A televisão é acusada de roubar tempo que deveria ser utilizado na leitura, no estudo, na prática do desporto ou no convívio familiar; é acusada de habituar à passividade e de criar maus hábitos alimentares, de desinteressar as crianças e os jovens da leitura e, de uma forma geral, da escola, de habituar à violência e de criar modelos sociais de agressão física e moral, de destruir o convívio familiar, de legitimar a vul­garidade e o mau gosto.

Por outro lado, qualquer professor pode constatar nos recreios e nas aulas que os seus alunos imitam comportamentos e atitudes, utilizam uma lin­guagem recheada de onomatopeias, léxico e referências implícitas, directa­mente vindos de séries televisivas, de publicidade, de filmes e de desenhos animados passados na televisão. ( … )

Os universos da escola e da televisão opõem-se pelas normas que os regem: à facilidade, à simplificação e ao imediatismo da TV, a escola con­trapõe a complexidade do raciocínio, o esforço continuado e a reflexão crí­tica.

No estrito campo da oralidade, a televisão representa a língua vária, os modelos orais não valorizados ou mesmo ignorados pela norma escolar, o reforço e a legitimação de situações conversacionais diversas e a-escolares. Por outro lado, e no campo dos ins­trumentos de socialização, a TV ganha à escola em precocidade de intervenção, não só pelo lugar privilegiado que actualmente ocupa como guardiã da infância como na apresentação de modelos sociais, de normas de comportamento e mesmo de projectos de futuro a que a criança e o jovem se vai habituando como telespectador.»

Maria José Seixas, “, Mesmo nos concursos a gente aprende coisas»,

 Televisão e Escola – um conflito de universos e discursos”

in Educação, Sociedade e Culturas, n.° 8, 1997

A opção do Estado Novo sobre o conteúdo do ensino

«O Estado Novo, não podendo isolar-se em absoluto das novas exigências, teve de escolher (…). Amparando-se na contraposição entre a “instrução” e a “educação”, aquela como treino do intelecto e esta como formação do carácter, valorizou a função educativa da escola em detrimento da sua finalidade instrutiva. Destinada a incutir a “virtude”, e não a propiciar o treino profissional ou a transmitir conhe­cimentos úteis, a escola passa a ser concebida mais como instrumento vantajoso de doutrinação do que local de aprendizagem para a vida profissional.»

Medina Carreira, O Estado e a Educação, Cadernos do Público, n.° 7, s/d

 

Andam por aí uma série de eduqueses que insistem que a escola deve “educar”. Pois eu insisto que quem educa são os pais, pois à escola cabe instruir. Na sua feliz ignorância filosófica, tais eduqueses igniram que educar pressupõe valores, e que quem educa, educa para determinados valores. A isso chama-se doutrinação. O que esses eduqueses não assumem é que é isso mesmo que eles pretendem: doutrinar as criancinhas nos maravilhosos amanhãs que cantam.

A experiência de Solomon Asch

Que razões ou factores nos induzem ao conformismo social?

Texto 008: O comportamento desviante

O estudo do comportamento desviante é uma das áreas mais intrigantes e complexa, da Sociologia, ensinando-nos que ninguém é tão normal quanto gosta de pensar. Ajuda-nos igualmente a perceber que aquelas pessoas cujo comportamento pode parecer estranho ou incompreensível são seres racionais quando compreendemos a razão dos seus actos.

O estudo do desvio, tal como outros campos da Sociologia, centra-se no poder social. bem como na influência da classe social – as divisões entre ricos e pobres. Quando olhamos para o desvio ou para a conformidade às normas ou regras sociais, temos sempre que ques­tionar: “as regras de quem?”. Como veremos, as normas sociais são fortemente influenciadas pela divisões de classe e poder.

 

O que se entende por desvio?

O DESVIO pode ser definido como uma inconformidade em relação a determinado conjunto de normas aceite por um número significativo de pessoas de uma comunidade ou sociedade. Nenhuma sociedade, como já foi enfatizado, pode ser dividida de um modo linear entre os que se desviam das normas e aqueles que estão em conformidade com elas. A maior parte das pessoas transgride, em certas ocasiões, regras de comportamento geralmente acei­tes. Quase toda a gente, por exemplo, em determinada altura já cometeu actos menores de roubo, como levar alguma coisa de uma loja sem pagar ou apropriar-se de pequenos objec­tos do emprego – corno papel de correspondência – e dar-lhe um uso privado.

O âmbito do conceito de desvio é bastante vasto, como alguns exemplos o podem ilustrar. O milionário americano Howard Hughes construiu a sua imensa fortuna através de uma combinação entre trabalho árduo, ideias imaginativas e decisões astutas. Em termos de desejo de sucesso individual, as suas actividades empresariais conformaram-se com alguns valores-chave das sociedades ocidentais – valores que acentuam o desejo de recompensa material e o êxito individual. Por outro lado, em certos aspectos, o seu comportamento desviou-se profundamente das normas ortodoxas. Viveu os últimos anos da sua vida prati­camente isolado do mundo exterior, raras vezes saindo da suite de hotel onde morava. Deixou crescer o cabelo e uma longa barba que faziam com que parecesse mais uni profeta bíblico do que um homem de negócios de sucesso.

 

Hughes foi, ao mesmo tempo, muito bem sucedido e altamente desviante quanto ao seu comportamento. Um exemplo contrastante é o da vida de Ted Bundy. O modo de vida de Bundy. na aparência, conformava-se com as normas de comportamento de um bom cidadão. Mantinha, à primeira vista, o que parecia ser não apenas uma vida normal, mas mesmo meri­tória. Tinha, por exemplo, um papel activo nos Samaritanos. uma associação que prestava um serviço telefónico de 24 horas para apoio a pessoas sob tensão ou com intuitos suicidas. Não obstante, Bundy cometeu uma série de homicídios horrendos. Antes de o sentenciar à morte, o juiz que presidiu ao seu julgamento elogiou Bundy pela sua habilidade (tinha preparado a sua própria defesa), mas acabou por sublinhar o desperdício que havia sido a sua vida. A vida de Bundy demostra que uma pessoa pode parecer perfeitamente normal e envolver-se secre­tamente em actos de desvio extremo.

 

O desvio não se refere apenas ao comportamento do indivíduo, mas também às acti­vidades dos grupos. Exemplo disto é dado pelo culto de Hare Krishna, um grupo religioso cujas crenças e forma de vida são bem diferentes das da maioria das pessoas que vivem no Reino Unido. O culto estabeleceu-se em Nova Iorque no ano de 1965, quando Sril Prabhupada chegou da Índia para difundir a palavra de Krishna no Ocidente. Dirigia a sua mensagem particularmente aos jovens consumidores de drogas, pregando que uma pessoa podia “estar sempre na maior, descobrindo a bênção eterna”, se seguisse os seus ensinamen­tos. Os Hare Krishna tornaram-se conhecidos, dançando e cantando nas ruas, aeroportos e outros locais. Eram vistos de forma tolerante pela maior parte da população, ainda que as suas crenças parecessem excêntricas.

Os Hare Krishna representam um exemplo de uma subcultura desviante. Embora os seus membros sejam hoje em menor número, têm sobrevivido facilmente na sociedade englobante. A organização é rica, financiada através de donativos feitos pelos seus membros e simpatizantes. A sua posição diverge da posição de uma outra subcultura que pode ser aqui referida em contraste: os sem abrigo permanentes, pessoas que vivem nas ruas, passando a maior parte do tempo em parques ou edifícios públicos (como bibliotecas); dormindo na rua ou refugiando-se em abrigos. A maioria dos sem abrigo mantém a custo uma existência mise­rável nas margens da sociedade.

 

Anthony Giddens, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian

Terá a vida sentido sem Deus?

Um ensaio de Paula Cristina Alves Teixeira.

 

 

Pretendo, com este ensaio, fazer uma reflexão pessoal acerca do sentido da existência e reflectir sobre se a mesma terá sentido sem Deus, tendo como base as diferentes teorias de Soren Kierkegaard, que defende que Deus é o sentido da nossa existência (existencialismo cristão), Jean-Paul Sartre, que defende exactamente o contrário (existencialismo ateu) e Desidério Murcho, que nos apresenta a alternativa naturalista.

 

A ideia mais popular é a de que Deus é o único sentido da nossa existência. No entanto, podemos colocar a questão: que certezas temos nós acerca da efectiva existência de Deus? Não existe nada que nos prove a sua existência ou não existência, pelo que não faz muito sentido atribuir o sentido da nossa vida a uma possível ilusão. Não terá mais sentido a nossas existência se o nosso caminho se pautar por finalidades e acções com objectivos, valores éticos e morais que contribuam para o Bem universal? Na minha perspectiva, a resposta a esta questão é afirmativa, se as nossas escolhas e os nossos conhecimentos forem usados em pró da humanidade.

 

Desidério Murcho refere alguns argumentos na sua teoria que vão ao encontro da minha posição. A vida humana pode fazer sentido se a ética é objectiva e se lutarmos por valores éticos correctos, como a conservação da natureza, o combate à fome, a luta contra a guerra e a construção de um mundo melhor para os nossos filhos.

Logo, a nossa vida tem valor se cultivarmos esses nobres valores éticos a favor do Bem universal. Se a vida que vivermos for mesquinha e centrada apenas em nós próprios, não terá grande sentido a nossa existência, pois não tem valor universal.

 

Jean-Paul Sartre defende na sua teoria algo que também vai ao encontro desta reflexão. O ser humano é um ser livre que deve utilizar a sua liberdade para atingir a essência do que é ser humano. Deus é apenas a esperança e a ilusão daquilo que cada homem gostaria de ser.

Mas existem objecções a esta posição. Para um teísta, a existência só tem sentido porque Deus é o criador de todo o Universo o que, só por si, garante um sentido para a nossa existência. A finalidade da vida humana é a felicidade que, não podendo ser alcançada nesta vida cheia de vicissitudes, será vivida após a morte, alcançando a felicidade eterna no Paraíso onde a alma viverá em comunhão com o próprio Deus. A eternidade só pode ser alcançada através da fé e do sofrimento e não pelo conhecimento do mundo.

 

Mas não concordo com estas objecções, pelo que passo a refutá-las.

 

Como posso afirmar a existência ou não existência de Deus? Esta é uma das primeiras questões que podemos colocar perante as perspectivas teísta e ateísta. Se os desígnios de Deus são divinos e incompreensíveis, como sei o que Ele prevê como sentido para a existência? Por que razão devo levar uma vida de culpa e sofrimento? Na perspectiva teísta, esse é o caminho para a felicidade eterna e essa é a ilusão que dá sentido à vida. E qual será, então, o sentido de uma Eterna Felicidade?

 

Concluo então que não sendo a minha vida resultado da vontade de uma entidade divina mas apenas o resultado das leis da natureza, apenas eu e só eu posso atribuir sentido à minha existência.

Então, ainda assim, dois caminhos a seguir. Posso viver uma vida de acordo com os nossos valores éticos procurando e aprofundando o conhecimento e aplicando-o em prol de um verdadeiro amor à Humanidade. Atribuo assim um verdadeiro sentido à minha existência lutando contra a pobreza, combatendo a guerra, a fome, lutando pelo direito à educação e lutando tenazmente pelos Direitos Humanos. Ou posso atribuir um sentido à minha existência centrando-me apenas em mim própria, vivendo uma vida fútil, o que poderá ser muito bom e agradável mas sem valor universal.

A escolha está nas minhas, nas tuas, nas nossas mãos. Sigamos sempre a razão, embora a uns agrade e outros não, porque a razão, ainda que severa, é sempre a amiga mais sincera.

 

 

Fontes bibliográficas:

  • Warburton, Nigel – Elementos Básicos de Filosofia. Lisboa: Gradiva
  • Rodrigues, Luís, Filosofia 10. Lisboa: Plátano Editora

 

Outras referências:

 

Paula Cristina Alves Teixeira

Escola Secundária da Trofa

Ano Lectivo 2007/8

 

Émile Durkheim

Dois vídeos sobre Émile Durkheim:

Texto 007 – Definição de “sociedade”

Sociedades (tipos de): A enumeração e a classificação das sociedades globais são uma das tarefas que os sociólogos se atribuíram desde a constituição da sua disciplina. Os inventários e as tipologias que daí resultaram manifestam, pela sua própria diversidade, a relatividade de uma empresa que está em primeiro lugar estreitamente dependente dos critérios escolhidos. Além disso, uma hierarquização das diferentes formas de organização social acha-se aí muitas vezes sub-reptícia ou abertamente associada.

 

A distribuição das sociedades entre diferentes tipos é solidária de qualificações (“tribal”, “teocrática”, “industrial”…) que condensam os traços específicos respectivamente comuns a agrupamentos humanos. Podemos classificar estes últimos em função do modo de ocupação do solo, do volume e da densidade. Distinguiremos assim as sociedades de caçadores e as de agricultores, opondo o nomadismo pastoril ao tipo de vida sedentária. É a partir deste ponto de vista, que é o da morfologia social, que É. Durkheim estabeleceu os grandes tipos de estrutura social. Da horda, simples justaposição de indivíduos às sociedades polissegmentárias complexas, passando pelo clã, pelas sociedades polissegmentárias simples, etc., foram “unidades sociais” que ele combinou, adiantando que as sociedades são tanto mais volumosas quanto mais avançadas. A divisão do trabalho forneceu a Durkheim um princípio geral de oposição entre a solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica, do mesmo modo que a análise do acordo social levou F. Tönnies (1887) a distinguir o tipo comunitário e o tipo societário, categorias fundamentais que seguidamente cruzou com as noções genéricas de relações, agrupamentos e associações. É igualmente qualificando-as de primitivas ou modernas, de arcaicas ou desenvolvidas, de tradicionais ou industriais, de holistas ou individualistas, que historiadores, etnólogos e sociólogos distinguem os principais tipos de sociedades. Estas séries de oposição assentam na tomada em consideração de variáveis diferentes. Estas últimas são, por exemplo, essencialmente económicas na dupla tradicional/industrial concebida a partir das mudanças consecutivas à Revolução Industrial; a sua valorização corresponde, portanto, à do económico na sociedade moderna e é acompanhada de uma alteração dos caracteres originais das sociedades “tradicionais”.

 

Simples ou complexa, a distribuição das sociedades em tipos distintos não chega, em última análise, a desligar-se de um esquema evolutivo. Se fica claro que o nomadismo pastoril não é “inferior” à vida sedentária, é igualmente evidente que a corrente principal da evolução histórica vai da caça para a agricultura, que traz consigo a fixação ao solo. Centrada no papel determinante dos modos de produção, a tipologia das sociedades globais em Marx reconduz-se também a uma sucessão dialéctica de tipos sociais que vão da sociedade primitiva – fundada no parentesco, na apropriação colectiva do solo e das ocupações “naturais” (caça, pesca, apanha) – à sociedade comunista sem classes. A diferenciação complica-se com a especificação dos modos de produção: escravista, feudal, germânica, asiática, capitalista, socialista.

 

A questão da escolha dos critérios e dos tipos intermédios coloca-se igualmente a partir do momento em que se pretende classificar politicamente as sociedades. Deste ponto de vista, é preciso ter em conta a utilização do espaço, a forma do governo e a estrutura da colectividade, assim como o sistema jurídico em vigor. Mas o critério fundamental será a atribuição do poder global.

 

A dupla preocupação de evitar toda a categorização prévia e de afinar ao máximo a tipologia das sociedades globais levou G. Gurvitch (1955) a distinguir uma enorme variedade de tipos sociais. Decompôs as sociedades arcaicas em quatro espécies, as sociedades históricas em seis (carismáticas, patriarcais, feudais…) e as que são posteriores à Revolução Industrial dão lugar a uma longa enumeração (sociedades democrático-liberais, dirigistas, planificadas…) de difícil exploração. Privilegiando os sistemas de valores e as orientações fundamentais, T. Parsons (1966) propôs também ele uma tipologia complexa. Voltamos pois à questão formulada por A. Giddens a propósito da pesquisa dos princípios estruturais: “Quais são os níveis de abstracção que valem a pena ser distinguidos no estudo das propriedades estruturais dos sistemas sociais?” Para lhe responder, abandonou o lado formal da tarefa para se pôr à procura “de elementos situados mais perto do conteúdo empírico”. Definiu assim os princípios estruturais como “princípios de organização das totalidades societais” e, mais precisamente, como conjunto de “factores postos em jogo no alinhamento global das instituições de uma sociedade ou de um tipo de sociedade”. A distribuição dos tipos de sociedades em três grupos que ele propõe (sociedade tribal/sociedade dividida em classes/sociedade de classes) tem o mérito de integrar um número bastante elevado de elementos distintivos, sem cair na esquematização demasiado sumária nem na interminável enumeração.

 

Raymond Boudon, Dicionário de Sociologia

Texto 006 – Definição de “desvio”

Desvio: Transgressão, identificada como tal e portanto sancionada, das normas em vigor num dado sistema social.

 

A palavra é de uso recente. Aparece na sociologia americana no fim dos anos 50, substituindo-se a outras noções rubricas tais como desorganização ou patologia social. O seu rápido êxito deve-se ao facto de a noção que recobre ser muito mais extensiva que as de delinquência ou de criminalidade. A sanção social não se limita às sanções penais ou legais; pode tratar-se de uma simples reprovação. A noção de desvio permite também reagrupar todas as espécies de comportamentos, grande número dos quais não são tidos comummente como delituosos. Vê-se isso nas tipologias do desvio propostas por R. K. Merton (1949) ou T. Parson (1951), que prevêem, ao lado dos comportamentos “inovadores”, caracterizados pelo uso de meios ilícitos, o ritualismo (hiperconformismo passivo segundo Parsons), o recuo (alienação passiva) ou a rebelião (alienação activa).

 

A noção sociológica de desvio não é uma categoria estatística. Não se aplica às condutas ou aos indivíduos que se afastam, mesmo nitidamente, da média. Para que haja desvio, é preciso que haja uma norma de grupo e não uma simples opinião maioritária.

 

As teorias sociológicas do desvio podem ser reagrupadas em três correntes principais: as teorias da regulação social, as teorias da contradição social e as teorias culturais.

A primeira perspectiva, a mais tradicional, funda-se na oposição entre os desejos ou as pulsões individuais e os constrangimentos impostos pela pertença a um grupo social. O desvio resulta do falhanço da sociedade em conter e regular as paixões humanas. Produz-se quando os laços do indivíduo com a ordem social são rompidos. As teorias da contradição social rejeitam a ideia de que a motivação para o desvio está inscrita na natureza humana e vêem nela, pelo contrário, um produto da sociedade. Os homens seriam conformistas se não fossem empurrados para o desvio pela pressão de desejos legítimos, encorajados ou mesmo prescritos pela sociedade, mas não satisfeitos em virtude da falta de meios para realizá-los. Nesta perspectiva, ilustrada nomeadamente por Metron, o vício é o produto da virtude. As teorias culturais, por seu turno, põem em causa o postulado da uniformidade das normas no seio de uma sociedade. A interiorização das normas do seu grupo pode pôr o indivíduo em conflito com as normas dominantes ou legais da sociedade. O desvio, neste sentido, é o fruto de uma aprendizagem cultural, tão moral como toda a aprendizagem social. Podem ligar-se a esta terceira corrente as teorias interaccionistas do desvio, ditas teorias da reacção social ou da marcação (labeling). Sublinham elas que o desvio não é uma propriedade característica do acto de uma pessoa mas antes a consequência das reacções dos outros a esse acto. Como escreve H. Becker (1963), o desviado é aquele a quem a etiqueta de desviado foi aplicada com sucesso. O desvio é uma categoria construída num processo de interacção colectiva que implica aqueles que acabarão por ser etiquetados como desviados, os que os rodeiam, os que fazem respeitar as normas, os que querem impor novas normas. Esta perspectiva, dominante na sociologia do desvio no fim dos anos 60, contribuiu para uma reorientação da pesquisa sobre a delinquência. Verificou-se um afastamento da etiologia social da delinquência para estudar os agentes e os mecanismos do controlo social.

 

Raymond Boudon, Dicionário de Sociologia

 

 

Texto 005 – Definição de “norma”

Indissociáveis de uma ordem de valores que em cada sociedade orienta os comportamentos dos actores e dos grupos, as normas são regras que regem as condutas individuais e colectivas. Organizadas em sistema, constituem um modo de regulamentação social estudado pelos sociólogos a partir de Durkheim (1893, 1895, 1897).

 

O respeito das regras foi primeiro pensado como a obediência às leis, em referência à autoridade social que se impõe na norma jurídica. A espera de sanções positivas e o receio de sanções negativas asseguram, nesta óptica, o funcionamento do sistema normativo. É claro, no entanto, que não são apenas normas juridicamente codificadas que o indivíduo interioriza no decurso do processo de socialização. O que obriga o sujeito, e donde procede a oposição entre acções permitidas e acções proscritas, explica-se também pelo estado dos costumes numa dada época. O fenómeno normativo deve igualmente ser referido a códigos morais inerentes a práticas particulares; apresenta-se então, como na medicina, sob a forma de deontologias profissionais. Em todos os casos, a interiorização das normas pode efectuar-se de maneira interessada, por cálculo, ou resultar de uma identificação altruísta com o grupo. O desfasamento entre o que as regulamentações promulgam e o que é efectivamente praticado leva por fim a privilegiar, no estudo das condutas sociais, as categorias de conformidade e de desvio.

 

Raymond Boudon, Dicionário de Sociologia

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