Contos infantis devem ter lobos «maus» e que morrem no fim ?

Para que as crianças aprendam a distinguir o bem do mal, o pediatra Mário Cordeiro defende que o «lobo» tem de continuar a ser «mau» nos contos de fadas e «o pau deve ser atirado ao gato» nas canções infantis  

O médico está a preparar um novo livro onde pretende contestar a forma politicamente correcta como as histórias e canções tradicionais infantis tendem a ser hoje em dia contadas e cantadas às crianças.

«Acho que deve ser como sempre foi. Não se devem suavizar as histórias. Quando se fala de lobos, reinos ou príncipes encantados nas histórias de ‘Era uma Vez’, isso significa o próprio percurso de vida», explicou em entrevista à Lusa Mário Cordeiro, que em Novembro lança O Livro da Criança, da editora Esfera dos Livros.

Na história dos «três porquinhos», as casas de palha, madeira e tijolo significam as várias etapas da vida do indivíduo, em que há uma evolução e estruturação social e pessoal, exemplifica o pediatra.

«A casa de tijolo transmite a noção de que o trabalho e a segurança são necessários à brincadeira e ao lazer», sustenta.

Mas, segundo o pediatra, essa casa deve ter sempre a chaminé e um caldeirão de água a ferver onde o lobo morre, já que a presença destes elementos na história lembram sempre a vulnerabilidade do ser humano e a sua capacidade para superar situações.

«Porque se o porquinho vivesse num ‘bunker’ sem chaminé não poderia cozinhar e, logo, morreria de fome», explica.

Da mesma forma, o lobo da história tem de morrer e não se deve contar uma versão em que a fuga é a solução, até porque isso deixa a porta aberta para a possibilidade de um regresso: «Isso sim é que provoca pesadelos às crianças», diz o pediatra.

E por mais cruel que pareça, também as várias histórias em que morre a mãe de uma personagem devem ser contadas tal e qual, para preparar os filhos para uma vida própria e autónoma.

E é também por isso que as mães, segundo Mário Cordeiro, são substituídas por madrastas más, para deixar de haver um pólo de segurança.

«Um dia vais ter de fazer a tua própria vida», esta é a mensagem, explica o pediatra.

Para Mário Cordeiro, «os adultos são arrogantes a contar histórias e contam-nas para si próprios».

«Não é por o lobo ibérico estar em extinção que não se deve matar o lobo na história. Não se pode confundir realidade com fantasia», argumentou.

A falta de definição entre o bem e o mal pode levar a um medo de crescer, que, segundo o médico, é a causa de grandes problemas na adolescência.

Para realizar este trabalho, Mário Cordeiro está a comparar várias versões de histórias e canções tradicionais e tem verificado que «estão a desajudar imenso as crianças com versões absurdas».

Neste livro, que deverá estar pronto dentro de um ano, o pediatra propõe-se explicar como se diferencia a família psicológica da família real e qual é a construção que a criança faz do seu triângulo familiar.

A partir dos 18 meses, explica o pediatra, a criança perde a noção da omnipotência e deixa de se sentir Deus para passar a perceber as fragilidades de qualquer ser humano.

«Tenta, então, refugiar-se no seu próprio triângulo e tenta projectar o seu futuro dentro de casa, perspectivando os seus próprios filhos. O primeiro sinal disso é quando uma criança começa a embalar um boneco ou um urso».

Nesta altura, a criança começa a identificar-se mais com o progenitor do sexo oposto e a rivalizar com o do mesmo sexo.

No fundo, Mário Cordeiro tentará explicar «o medo de crescer», dando aos pais ferramentas para se responsabilizarem na definição de limites para os filhos.

«É fundamental uma criança conhecer os limites da sua relação com o outro», afirma.

A obra que o pediatra lança em Novembro, O Livro da Criança, pretende responder a algumas dúvidas e inquietações dos pais de crianças com entre um e cinco anos de idade e segue-se ao O Grande Livro do Bebé, também da Esfera dos Livros, uma obra do mesmo género sobre bebés até aos 12 meses.

Com estas obras, o autor «não pretende criar manuais de instruções», mas antes aumentar a sabedoria dos pais para que tomem decisões informadas e fundamentadas em relação aos seus filhos.

Nos planos futuros de Mário Cordeiro estão ainda mais dois livros, um para crianças em idade escolar e outro para a adolescência.

Lusa / SOL

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10 Comments

  1. Finalmente bom senso!
    Uma das coisas que mais gostava de brincar quando era miúda era aos “cowboys”…fartei-me de “matar” os meus irmãos e os meus primose e amigos. Vai daí nunca notei que …(vcs sabem)

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  2. O bom senso começa a ser motivo para se bater palmas!

    «É fundamental uma criança conhecer os limites da sua relação com o outro»

    Não apenas com o outro , mas também com tudo o que a rodeia . Não conhecer, senti-los sem que haja sempre alguém a defender a pobre criança dos “perigos”. É através da experiência e do cair que se aprende. é através de uma “luta de galos” que se aprende não só o uso da força, do dá e leva, mas também o respeito pelo outro. Quando os adultos intervêm (não nas lutas a sério) mas nos pequenos despiques, criando forças de pressão, estragam tudo.

    PS: acho que não consegui explicar-me muito bem, mas tu percebes do que falo. Estou farta das mariquices destes putos de agora, em que qualquer toque de um colega é motivo para um conflito que envolve toda a gente. E nas minhas aulas é uma desgraça!

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  3. Não estou em desacordo convosco. Mas também não concordo com este pedopsiquiatra. E porquê?

    Porque “matar os irmãos” numa luta de cowboys ou adocicar a realidade com “paninhos quentes”, como ambas referem é evidentemente bom — e isso é incontestável. Mas não gosto que o «lobo» continue a ser «mau» nos contos de fadas nem que «o pau deva ser atirado ao gato» nas canções infantis. E não gosto porque é assim, é por aí, que se instigam comportamentos incorrectos. Há muitos outros “maus” a que se atirar o pau — só políticos, arranjo várias palettes 🙂 E por isso, preferiria que as histórias infantis não diabolizassem os animais – pobres animais, que são sempre as vítimas.

    Para me fazer entender, socorro-me de um exemplo: durante a Idade Média os gatos eram encarados como animais diabólicos. A instilação dessa “cultura” nas crianças conduziu a inúmeros sacrifícios de gatos, rituais sangrentos em que os animais eram dolorosamente torturados. Em alguns países islâmicos, ainda hoje os cães são espancados até à morte, porque o profeta Maomé não gostava de cães. Por isso, entrea cultura islâmica chamar “cão” a um humano é o pior dos insultos.

    Não me importo mesmo nada que os “maus” sejam castigados; mas seria possível deixar os bichinhos de fora disto, por favor? 🙂

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  4. o pau ao gato tu tu
    mas o gato tu tu
    não morreu, reu, reu…

    acho que na cabecinha deles só fica a rima divertida…não me parece que fique a ideia de atirar o pau! muito menos ao gato!!

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  5. Bem pertinente este assunto. Muito pouco falado e perspectivado na realidade. Ser criança é uma situação passageira: vivemos a maior parte da nossa vida como adultos e portanto há que preparar essa vida. Começar de pequeno e não porque é politicamente correcto proteger, proteger… assim deixa-se as crianças desprotegidas para sobreviver como adultos.

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  6. Se o mau for mau tanto faz que seja bicho como humano. Deve ser castigado em qualquer história! Se o lobo comer as galinhas ou a fada más envenenar a princesa merecem ser castigados, seja qual for a sua espécie. Não podem é ser politicamente redimidos em “provas de recuperação”!!!!
    Eheheheheheh!!!! 😉

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  7. só gostava que certas histórias fossem escaladas etariamente… lembram-se da menina que vendia fósforos? o padrasto ou lá quem é manda-a vender fósforos para as ruas de dezembro em moscovo ou lá onde é, e ela usa os fósforos para se aquecer em vão pois morre ao frio depois de umas quantas alucinações??? Porra, esta porra traumatizou-me… tive pesadelos durante anos com esta e outras histórias DECLARADAMENTE INFANTIS E VENDIDAS COMO INFANTIS!!!!!!!!!!!!!!
    a não ser que um dos objectivos destas histórias seja socializar as mentes infantis pelo terror.
    vejam-se todos os contos do dinamarquês Anderson e digam-me quantos é que são apropriados para crianças.
    Não sou apologista do maniqueísmo… passar do menino que faz asneira e é castigado para o menino MAU é um salto muito muito grave. O menino mau é incapaz de fazer o bem, o que faz a asneira pode ser um puto normal…
    inventam-se novas histórias!

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  8. chorei horrores por causa da “menina dos fósforos”, mas tmbém chorei or causa do Pinóquio e do Dumbo ..nunca impedi as minhas filhas de os lerem e verem (os filmes da Disney continuam nos top 10!). Não me parece que lhes tenha feito mal.Pelo contrário…a menina dos fósforos foi a motivação para um gesto lindo de solidariedade que tiveram num Natal, por inicativa própria.
    Acho que faz parte do crescimento, do amadurecimento e da aprendizagem. Como faz o andarem na terra, sujarem-se com lama, andar à chuva etc…que estupidamente hoje se impede que as crianças façam e que leva que os casos de alergias e de autoimuidade sejam cada vez mais…

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  9. Caros,

    Bruno Bettelheim escreveu um livro, “Psicanálise dos contos de fadas”, onde explica o significado profundo dos mais variados contos infantis. Vou deixar uma entrada específica sobre o assunto.

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