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Mês

Setembro 2007

Das origens do homo sapiens até à ciência como religião

QUATRO CONFERÊNCIAS ATÉ DEZEMBRO  

Perceber as origens da nossa espécie e quais as diferenças que existem dentro da grande família que descende do homo sapiens é o que podem esperar os participantes do próximo ciclo de conferências da Fundação de Serralves, Porto. O comissário da iniciativa, o investigador António Amorim, promete “novidades e não confirmações” e que “quem aprender, não esquece”. É a partir de dia 18, com a moderação de Sobrinho Simões.

Depois da política e da educação, o ciclo “Crítica ao contemporâneo” é dedicado, desta vez, à biologia, mas também poderia dizer-se que é à genética, já que esse é o ponto de partida e em comum às quatro conferências.

O impacto das descobertas da genética na forma como cada um lê o mundo e interpreta a realidade é realçado por António Amorim. “A ciência hoje não pode viver divorciada da cultura”. E explica “As descobertas científicas estão cada vez mais incorporadas na nossa forma de pensar, tanto como a religião ou as correntes filosóficas no passado”.

Se termos como ADN e testes genéticos parecem ter-se vulgarizado no discurso popular, a verdade é que poucos se questionam sobre questões mais profundas, como a nossa origem como humanos, aquilo que nos caracteriza e nos diferencia uns dos outros ou as consequências da sequenciação do genoma.

Se há “verdades” científicas que são usadas, muitas vezes, para ancorar opções políticas, outras descobertas permanecem poucos divulgadas. No domínio da diversidade genética, por exeplo, as grandes diferenças não se encontram em populações distintas, mas, sim, dentro de cada população, explica António Amorim. Numa comparação genética entre os europeus e os africanos subsarianos, as diferenças encontradas não seriam superiores a 15% do total da diversidade presente na espécie humana. Pelo contrário, se o mesmo exercício fosse realizado com uma população demograficamente significativa, como a do Grande Porto, mais de 80% das diferenças existentes entre humanos estariam presentes.

A explicação para o facto de dois chimpanzés serem mais distintos que um esquimó e um bantu parece ter a ver com longevidade. Setenta mil anos, contados a partir das migrações de África, não são suficientes para que ocorram os “erros de cópia” dos genes que levam à diferenciação genética, explica o investigador.

Como evoluímos

Jaume Bertranpeti inaugura o ciclo de conferências, no próximo dia 18, com uma perspectiva sobre a evolução, distribuição e caracterização da diversidade genética da espécie humana.

Impacto na medicina

A sequenciação do genoma abriu caminho às terapias desenhadas à medida de cada pessoa. No futuro, a medicina deixará de se basear em médias e passará a fundamentar-se na individualidade genética. A perspectiva da medicina por Michael Krawczack abordará, a 15 de Novembro.

Origens do homo sapiens

O nascimento da espécie humana e as limitações do nosso hardware são algumas das questões que Tim Crow levantará a 29 de Novembro.

O papel dos vírus

Rosalind Harding falará, dia 13 de Dezembro, sobre a implicação das bactérias “boas” e “más” e até dos antibióticos na evolução da espécie humana.

Helena Norte

Uma vez na vida

Santana Lopes ao seu melhor nível.

Centro Jacques Delors

Para professores: http://www.aprendereuropa.pt/page.aspx?idCat=301&idMasterCat=301

QUEM JÁ NÃO ATURA ELOGIOS AO RÂGUEBI LEVANTE A MÃO

Mais uma palavra elogiosa sobre a selecção portuguesa de râguebi e a sua paixão pela pátria e o seu amadorismo tão profissional e o seu extraordinário esforço e como devemos estar todos tão orgulhosos e como eles são um exemplo para nós – e eu regurgito. A sério. Se os elogios parvos tivessem açúcar estávamos todos diabéticos.

Agradecia que os admiradores do râguebi não me imaginassem já a ser violentamente placado contra um muro de cimento. Juro por todos os santinhos que nada tenho contra a modalidade. Gosto muito de ver os jogos e quase me comovo com a haka neozelandesa. Mas para tudo existe uma medida certa. Sim, os rapazes portugueses são esforçados. Têm o seu mérito. Parecem simpáticos na televisão. Não são dados a peneiras como os tipos do futebol. E cantam o hino nacional com um tal entusiasmo que se Louis Pasteur fosse vivo ainda os vacinava. Mas daí a transformá-los nos maiores heróis da Nação só porque andam num campeonato do mundo a perder os jogos todos (e por muitos) é capaz – digo eu – de ser um bocadinho exagerado.

Dir-me-ão: “Ah, e tal, são amadores, passaram muitos anos a lavar as suas próprias camisolas, e veja onde eles chegaram.” Até pode ser. Embora, tendo em conta os estratos sociais de onde vem a maior parte daquela rapaziada, seja bem mais provável que tenha sido a dona Mariazinha ou a menina Svetlana a lavar-lhes a camisola. Mas passemos ao lado das questões de classe, ainda que elas expliquem muita coisa. O certo é que, mesmo tendo em conta os objectivos (modestos) anunciados, a selecção ainda não cumpriu nenhum. Contra a equipa da Escócia os portugueses queriam perder por menos de 30 e encaixaram 56-10. Contra a Nova Zelândia queriam que os All Blacks não chegassem aos 100 pontos e perderam por 108-13. Contra a Itália nem percebi qual era o objectivo e levaram 31-5.

Mas o mais extraordinário é que, percam por quantos perderem, os “lobos” têm sempre garantidas umas festas na cabeça por parte da comunicação social. Título do Público após o 31-5: “Ficou a sensação que era possível derrotar a Itália.” Ficou a sensação, ficou. Eu às vezes também tenho a sensação que podia jogar melhor à bola que o Messi. Que podia ser mais esperto que o Bill Gates. E que a Nicole Kidman podia perfeitamente sussurrar-me ao ouvido: “Ao pé de ti, o Tom Cruise é um badameco.” São sensações. Não costumo é puxá-las para título de jornal. Mas, de quando em quando, a Pátria dá nisto: elege os seus heróis, fecha as cortinas do pensamento, e chora muito a ouvir o hino nacional. É esquisito. Mas é assim.

João Miguel Tavares
Jornalista

E o Douro aqui tão perto…

http://aeiou.visao.pt/default.asp?CpContentId=331594

A geração dos trinta

O Nuno Markl costuma dizer que quem não se lembra da música do Verão Azul não faz verdadeiramente parte da nossa geração.» Luís Silveira, 31 anos, elege a série televisiva espanhola, que contava as aventuras de um grupo de amigos numa praia de Málaga, como uma das marcas da sua infância. Javi, Pancho, Piranha e Chanquete entraram no imaginário infantil da criançada da Península Ibérica e marcaram a geração que tem hoje pouco mais de 30 anos.

Estávamos em 1981 e, na televisão (a cores desde o ano anterior), também faziam sucesso os episódios da Abelha Maia, do Tom Sawyer, do Dartacão e da Pantera Cor-de-rosa. Nas rádios, Marco Paulo cantava o dilema dos seus dois amores. Brincava-se na rua, a jogar ao berlinde, a saltar ao elástico ou a passear a bota-botilde. Ninguém tinha telemóvel e os álbuns eram de vinil. O mais próximo que se conhecia de uma Playstation era o ZX Spectrum, um computador que funcionava com cassetes .

Nessa altura, a geração dos kispos, das calças de bombazina com joelheiras e das saias de pregas com meias altas estava longe do que é hoje: «Uma geração partida ao meio, entre os que não acabaram o ensino secundário e os que seguiram os estudos», resume o secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional, Fernando Medina, ele próprio um «trintão», ou antes, «trintinha», de 34 anos. «Indiscutivelmente, esta geração é de todas a mais qualificada e a que mais oportunidades teve. Mas metade dela nem acabou o secundário.»

Mais de 20% dos jovens adultos portugueses completou uma licenciatura, mas ainda há uma grande percentagem desta mesma faixa etária que não foi além do nono ano (25 por cento). «Esta fractura é a mais importante para analisar este grupo. E tem implicações em tudo o resto: nos empregos, nas remunerações, nas expectativas», afirma Fernando Medina.

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que o vencimento mensal médio de quem tem entre 25 e 34 anos ronda os 668 euros líquidos (a média do País é 712 euros). Porém, o salário aumenta para 1 355 euros, no caso de o trabalhador ser licenciado. Ao nível do desemprego, por exemplo, o tempo que se fica sem trabalhar também é diferente consoante se tenha frequentado o ensino superior (8 meses) ou não (15 meses). E a própria taxa de desemprego aumenta de 6,5% para 7,9%, se não se tiver seguido os estudos.

Esta é a dupla realidade da geração a que Vicente Jorge Silva chamou «rasca».

Geração pós-revolução

Quem acabou de entrar nos «trintas» viveu a revolução tecnológica, a guerra do Golfo e a queda do muro de Berlim, mas não o holocausto, o antigo regime de Salazar e a guerra fria. As memórias do Portugal reprimido não são fruto da vivência própria dos «trintões», mas dos relatos dos pais, dos professores ou dos livros de história. Mesmo quem foi criado no seio de famílias politizadas, como Fernando Medina, não viveu na pele a censura ou a guerra colonial.

«O primeiro momento político de que me lembro tem a ver com Sá Carneiro e a eleição da AD», conta o filho de antigos funcionários do PCP (Edgar Correia e Helena Medina). Mas Fernando Medina conhece bem as limitações de quem vivia no regime de Salazar. «Aos 18 anos, o meu pai contou-me que soube do meu nascimento, na clandestinidade, através de um anúncio no jornal. Dizia: ‘Perdeu-se uma mala de senhora no comboio Lisboa-Porto’. O sentido da viagem determinava se eu tinha nascido rapaz ou rapariga.»

A história familiar terá, eventualmente, ditado a entrada de Fernando Medina na política, assim como a sua tendência para a intervenção social. Nos anos 90, esteve na linha da frente da luta contra as propinas e por um ensino superior de qualidade.

A geração de Medina tem uma relação pouco intensa com a política. Números do Eurostat dizem que Portugal é o terceiro país da Europa a 25 com mais abstenção (20%) na faixa dos 30 anos. «Há uma distância em relação ao poder que se manifesta em abstenção eleitoral», explica o sociólogo João Teixeira Lopes, do Instituto de Sociologia do Porto.

«Não vejo, na classe política, nem sedimentação nem linha de conduta para o País evoluir», assume Luís Silveira, licenciado em Gestão e actualmente à procura de emprego. Apesar de votar quase sempre, Luís garante ter uma «relação de descrédito com os políticos». E o seu distanciamento prende-se até com questões profissionais. «A política, em Portugal, interfere muito com o mercado de trabalho. Infelizmente, a questão das cunhas mantém-se. E isso prejudica quem está à espera de uma boa oportunidade para trabalhar», sublinha o jovem que integra a estatística dos 9,2% de portugueses licenciados, entre os 25 e os 34 anos, desempregados em Agosto de 2007.

Geração enrascada

Há dez anos no mercado de trabalho, Luís Silveira já teve cinco empregos, a maior parte dos quais a contrato com termo certo. «O meu pai trabalhou sempre no mesmo sítio e isso proporcionou-lhe, desde cedo, uma segurança que hoje já não existe», lamenta. Com currículo desenvolvido na área da consultoria e controlo de gestão, Luís já passou pelo estrangeiro para não ficar sem emprego. «Na altura, a empresa onde eu trabalhava ia extinguir o meu posto, em Portugal, e eu tive de escolher entre perder o lugar ou ir para Gibraltar.»

A decisão não foi fácil, mas o gestor tinha uma casa para pagar e preferiu manter o emprego e o nível de vida. Aos 30 anos, em Portugal, um dos motivos de maior preocupação dos jovens adultos, ao nível das finanças, é o crédito à habitação. Essa é, aliás, a principal despesa, no orçamento familiar. «Os indivíduos com cerca de 30 anos têm uma estrutura de consumo muito específica. A maior parte do seu orçamento é gasta com a casa. Seguem-se os transportes, as telecomunicações e despesas de alimentação fora de casa», refere Isabel Cruz, docente do Instituto de Sociologia especializada na área do consumo.

«Não fujo muito dessa equação», confessa Luís Silveira, que se define, sem hesitar, como «consumista». Recuando umas linhas – e voltando à diáspora gibraltina do jovem gestor – a sua mulher acabou por despedir-se do emprego para ambos se lançarem na aventura não planeada do outro lado da fronteira. Passados dois anos, e já de regresso a Portugal, Luís vê-se na situação que tentou evitar na altura: sem emprego, a actualizar o currículo, a fazer contactos e a procurar a estabilidade que teima em fugir-lhe.

Estabilidade: eis uma palavra que não define a geração dos 30 anos. «O termo saiu do vocabulário da geração mais nova», defende Pedro Moura Ferreira, professor do Instituto de Ciência Sociais. «Há uns anos, as pessoas com licenciatura sentiam-se mais protegidas no plano do emprego.»

«Estive sempre desempregado, apesar de ter muito trabalho», conta Nuno Carneiro, um psicólogo de 35 anos, com 11 de carreira, habituado a viver no fi o da navalha à custa da instabilidade imposta pelos recibos verdes. No fundo, nunca parou. Deu aulas e consultas, foi bolseiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, fez investigação, tirou o doutoramento e colabora, há oito anos, com um centro psicoterapêutico privado.

«Todo o meu trajecto profi ssional é marcado por constantes incertezas. Não sei o que é um subsídio de férias ou de Natal», confessa. Como única certeza, o pagamento da prestação à segurança social: 151 euros.

Durante o tempo que passou a investigar e a trabalhar na tese de doutoramento, o jovem psicólogo viu as actividades pontuais de docência e de formação serem pagas a um valor mais elevado do que o habitual. Mas, ao mesmo tempo, continuou a lidar com a imprevisibilidade do futuro. Hoje, Nuno Carneiro ganha uma média de 750 euros mensais e tem de compensar com trabalho extra as carências dos meses de Verão. As dificuldades forçaram-no a sair de uma casa alugada para um apartamento que o pai tinha desocupado, no centro do Porto. Gere a vida rigorosamente, sem excessos. «Disciplino o prazer e regro o consumo.» À excepção de um ou outro livro ou CD por mês, poucas compras faz, o que o ajudou a superar as situações de maior dificuldade. Conduz o mesmo carro há 12 anos.

Geração adiada

O resultado da precariedade é o retardar de vários projectos pessoais. Nos anos 70, a idade média para o casamento e nascimento do primeiro filho era 25 anos. Hoje, ronda os vinte e oito. Na altura, cada mulher tinha, em média, 2,6 crianças. Hoje, tem 1,4. A família mais comum, em Portugal, passou a ser, em 2005, a de apenas um filho.

Mara, 20 meses, é a filha única de Ricardo Pinto, 31 anos, e Susana Almeida, 28. Juntos, não casados, demonstram o que as estatísticas anunciam: o número de casamentos está a decrescer ao contrário das novas formas de conjugalidade. O estudo Portugal Social, do INE, que comparava a evolução do País na década de 90, concluía já que o total «de indivíduos em união de facto quase duplicou entre 1991 e 2001, passando de 194 315
indivíduos para 381 120».

A primeira filha do casal veio na «altura certa», passada a euforia inicial com a carreira. Ricardo é engenheiro informático e está na mesma empresa desde o final do curso, em 1998. «Se a Mara tivesse nascido mais cedo, admito que isso poderia ter tido alguma influência, na minha carreira», assegura o engenheiro. A gravidez chegou aos 26 anos da mãe e aos 29 do pai, dentro da média da geração. «Quisemos seguir o percurso normal: estudar, arranjar emprego, ter estabilidade financeira e casa própria», explica Ricardo.
Mas mesmo a estrutura preparada leva um abanão quando nasce uma criança. «Decidimos logo mudar para uma casa maior e comprámos um carro com bagageira grande», conta o pai. Além disso, a disponibilidade emocional também se altera. «O tempo com a família tem necessariamente de aumentar», assume a mãe, que gostaria de fintar as estatísticas e arriscar um segundo filho. Ricardo admite o cenário, mas é prudente: «A decisão de ter um primeiro filho é fácil. É emocional. Toda a gente tem esse instinto. A decisão de ter o segundo já é racional. Há muitos factores em jogo.»

Paulo Caldas, jovem autarca, também tem uma filha, mas, há onze anos, decidiu casar-se. Aos 34, está na presidência da Câmara do Cartaxo e apesar de estar muito acima do nível de vida do português médio (o salário autárquico ronda os 2 750 euros líquidos), revela que há a forte possibilidade de se ficar apenas por um rebento.

«Os primeiros cinco anos de vida da minha filha não os acompanhei como devia. Com a política, a família fica sempre penalizada», confessa, admitindo ter dúvidas em relação a ter um segundo filho enquanto a sua vida for exigente e agitada como é. Mas o autarca encontra algumas recompensas na política: «O cargo político tem uma vastidão de regalias que não estão incluídas no salário. E não estou a falar do telemóvel ou do carro. Há benefícios que não são mensuráveis: os contactos, a leitura de vida. O currículo sai enriquecido», reconhece.

A descendência não é o único desejo que os jovens adultos adiam. Dados do Inquérito à Fecundidade e Família, do INE, apontam para um aumento gradual da idade média à saída de casa dos pais nas gerações mais novas: 28,5 anos.

João Rico tem 30 e continua a viver, como sempre, em casa da mãe, em Massamá. O prolongamento dos estudos até à licenciatura em Economia, a entrada no mercado laboral aos 24 anos e a precariedade não deixou espaço para grandes aventuras. A sucessão de trabalhos à peça e os contratos a prazo são muito comuns nesta faixa etária. «Creio que a principal mudança que se deu com esta geração, além das questões de conjugalidade, é a forma como se encara o mercado de trabalho», analisa Moura Ferreira. «Os jovens adaptaram-se à incerteza. » João Rico acrescenta: «Acho que esta é uma geração que se preocupa, sobretudo, com o presente. Não planeia muito.»

«Eu vou agora entrar na fase de procurar casa e assumir a responsabilidade de uma renda», assegura João Rico, confessando que não desgosta de viver com a progenitora. Nem mesmo quando há uma namorada? «Não. É normal», garante. Aumenta-se o número de passeios e de fins-de-semana fora. E viajar nunca fez mal a ninguém.

Geração sem fronteiras

Paula Lobo Antunes, actriz internacional, pensa o mesmo. Filha de pais portugueses, nascida em terra de americanos e formada em solo de ingleses, a jovem está em Portugal, temporariamente, como já esteve em Itália, Reino Unido, EUA, Brasil e Escócia. Nunca comprou casa, nem assentou arraiais. Diz-se «internacional», porque cresceu pelo mundo, o que lhe deu uma educação e uma formação diversificada. «Eu não comecei por estudar os rios ou os reis portugueses. Estudei a Coreia, os egípcios, os gregos, as guerras mundiais?», lembra a actriz, protagonista da novela Deixa-me amar, na TVI.

Aos 31 anos, a experiência permite-lhe concluir que, no estrangeiro, a vida acontece ainda mais tarde do que em Portugal. «Eu tenho amigos no mundo todo, africanos, japoneses, iranianos, e acho que só tenho dois amigos casados e uma amiga que está agora grávida», exemplifica, para mostrar o diferente ritmo com que se vive lá fora.

Em comum com os jovens adultos portugueses, Paula tem o facto de ter adoptado um animal de estimação. A gata, Lara, coloca-a nas estatísticas mais comuns: 62,9% dos adultos até 34 anos têm animais.

Miguel Stanley, o dentista glamouroso e de look moderno que idealizou o programa Dr. Preciso de Ajuda, da TVI, corrobora a ideia de que, em Portugal, apesar das mudanças dos últimos anos, a vida começa a ser vivida a sério, mais cedo do que lá fora. «Cá, sinto-me o último dos moicanos», ironiza o bem sucedido médico. «Todos os meus amigos da minha idade estão casados e com filhos. Sinto-me um sortudo por ainda ter 34 anos e muita coisa para fazer. Thirties are the new twenties (os trinta são os novos vinte)», entende este «cidadão do mundo», como se define. E a sua pronúncia mostra-o bem. As quatro línguas que fala (inglês, português, francês e espanhol) fundem-se constantemente.

Para Stanley, o mundo não se esgota dentro das fronteiras de Portugal. «Não vejo obstáculos. De vez em quando, preciso de oxigénio», assegura. E nem sequer precisou de crescer para começar a viajar. Aos 9 anos, os pais meteram toda a família num barco e foram dar uma volta ao mundo. Durante um ano inteiro, o dentista e os três irmãos receberam lições de Geografia ao vivo e a cores. «Quando cheguei a Portugal e a professora perguntou o que tínhamos feito no Verão passado, eu contei a minha aventura. Ela achou tão estranho que chamou os meus pais para lhes dizer que eu tinha uma imaginação muito fértil», relata, jovial.

Mais tarde, no fim do secundário, o menino a quem nunca faltou nada teve o primeiro banho de realidade. Com 40 contos metidos pelo pai no bolso do blaser e um bilhete de avião, foi viver um ano em Paris e Londres. Tocou guitarra no metro, cantou na rua, trabalhou em restaurantes e entrou no mundo da moda, como manequim. «Aprendi a lidar com o facto de não ter dinheiro», lembra. Um ano depois, vivia sozinho e estava na faculdade, a estudar Medicina Dentária. Entretanto, e após algum tempo de insegurança profissional, montou a Clínica da Lapa, onde está desde 1999 a mudar o sorriso dos portugueses ricos.

Segundo o sociólogo João Teixeira Lopes, «esta é a primeira geração a sair de Portugal, em massa, para estudar e não para ganhar dinheiro». A facilidade de mudar de país reflecte um Portugal diferente, que a faixa etária em causa viu nascer: o Portugal sem fronteiras, do mercado comum, do euro, do espaço Schengen e da globalização. E esta nova realidade tem implicações. Desde logo, a geração dos 30 é mais «verde» do que as anteriores. «Apanha as questões ecológicas na década de 90, altura em que se lhes deu grande atenção», sublinha Hélder Spínola, presidente da Quercus.

«Foi também quando eu despertei para a temática, por influência de toda essa dinâmica e da comunicação social.» Para o jovem de 34 anos, esta geração marca a fronteira entre as mais sensíveis e as menos sensíveis em relação ao ambiente.

Geração partida

Nos seus estudos de Sociologia, João Teixeira Lopes especializou-se em comportamentos culturais e, a esse respeito, também tem qualquer coisa a dizer. «Nos trinta e tal anos temos uma grande concentração dos consumidores de actividades artísticas. Mas é uma geração com perfis muito dissonantes: gosta de ir a exposições em museus consagrados, mas também em galerias underground, lê literatura erudita e livros do Tio Patinhas.»

Na verdade, não há só uma geração dentro dos «trintas». Uma outra realidade escapa por completo aos perfis de consumo, aos dilemas dos licenciados e às hesitações dos recém-unidos de facto. Trata-se de pura sobrevivência. É o caso de Madalena Coito. Com 31 anos, já tem três filhos, entre os 4 e os quinze. Abandonada pelos pais quando tinha meses, a jovem «maria-rapaz» foi criada pela avó, «muito rigorosa», no bairro de Chelas, em Lisboa. «Eu era muito bandida. Dizia que ia para a escola, mas não ia nada», confessa, com a rebeldia cravada no rosto – uma longa cicatriz, no centro da testa, arranjada aos 8 anos, numa briga.

À entrada nos 20, a morte da avó mudou Madalena. «Dormia nas ruas, onde calhava, e comecei a tentar as drogas.» Consequência: ficou sem os dois filhos, que a sogra levou para longe da sua vista. «Fiquei muito sozinha. Enterrei-me por completo. Abandonei tudo», assume. Com a entrada na toxicodependência vieram os pequenos furtos e, mais tarde, os assaltos a vivendas «para manter o vício», até que foi presa, pela primeira vez, em Janeiro de 2001. Sem provas incriminatórias, passou apenas um mês na cadeia e convenceu-se de que poderia ter sempre a mesma sorte. Acabou por ir presa mais duas vezes, entre 2002 e 2005.

Dentro da cadeia, Madalena limpou a alma e o corpo de drogas e banditagens e a vida começou a correr-lhe melhor. Ainda presa, arranjou um emprego que lhe permitia trabalhar fora e dormir atrás das grades. Hoje, com mais uma filha de um novo relacionamento, conserva esse mesmo trabalho, já efectiva, no Centro Recreativo da Quinta dos Lombos, em Carcavelos.

Entre os seus sonhos, há dois recorrentes: arranjar uma casa da Câmara para poder ter perto de si os dois filhos mais velhos, entretanto entregues à Misericórdia; ser «muito remediada e arranjar um sítio onde recolher animais abandonados». Para já, tem dois cães e duas gatas, na casa exígua de Chelas. Afinal, Madalena também vem nas estatísticas. Faz parte dos «trintões» com animais de companhia.

*COM HENRIQUE BOTEQUILHA E JOANA LOUREIRO

Memórias de infância

Há quem lhes chame «Geração Heidi», alcunha inspirada numa das séries de culto da geração dos trinta. Mas houve outras séries, músicas, livros, episódios, brinquedos e até roupas que fi zeram as delícias de quem foi criança nos anos oitenta

>> LIVROS A Condessa de Ségur, Uma Aventura, Astérix, Tintim, Michel Vaillant, Lucky Luke, O Principezinho, Os Cinco, Os Sete, Patrícia, Mafalda

>> MÚSICA PORTUGUESA Eu Vi um Sapo (Maria Armanda), Bem Bom (Doce), Cinderela (Carlos Paião), Sobe, Sobe, Balão Sobe (Manuela Bravo), Eu Tenho Dois Amores (Marco Paulo)

>> PASSATEMPOS Jogar às escondidas, à apanhada, ao pião, ao berlinde, à carica, à macaca, ao bate-pé, ao monopólio e à bola, saltar ao elástico, andar de bicicleta

>> BRINQUEDOS Tucha, estrunfes, bebé careca, playmobile, bota-botilde, hula-hoop, legos, calquitos, ZX Spectrum 48k, cadernetas de cromos

>> ROUPAS Calças de bombazina com joalheiras, kispos, pulóveres às riscas, saias de pregas, camisolas de tricot, fatos de treino com riscas brancas de lado, meias pelo joelho

>> TELEVISÃO A Abelha Maia, Heidi, Sítio do Pica-Pau Amarelo, Pantera Cor-de-Rosa, Verão Azul, Era Uma Vez a Vida, Dartacão, Topo Giggio, Marretas, Tom Sawyer, Vitinho, Willy Fog

Exemplo de desportivismo

Enquanto por cá discutimos fruta, chocolatinhos e murros no focinho, em Inglaterra há exemplos destes.

A história é simples: um jogador sofreu uma paragem cardíaca durante o jogo. A sua equipa ganhava 1-0. O jogo é interrompido. A Federação Inglesa manda repetir o jogo com o resultado a 0-0. A equipa adversária propõe que o reinício do jogo se faça com a marcação do golo que estava em falta.

Novo link

Aliás, há uma série de novos links. Vou publicitando sob a forma de posts a entrada ed novas ligações: http://www.stopogm.net/

Palhaço rico

Chama-se Ana Paula, tem 15 anos, e recebeu um computador portátil. Está feliz com a prenda: a mãe inscreveu-a no programa e-escola, e agora tem direito a um portátil a preços mais baixos e Internet de banda larga a custos apetecíveis. A cada nome ouvido, esta quarta-feira, nas colunas montadas na escola secundária Quinta do Marquês, um aluno no palco, um computador na mão e uma salva de palmas de colegas, pais e professores.

Foram 62 os alunos e 24 os docentes que foram para casa carregando um portátil e para o primeiro-ministro isto é sinal de «modernidade no centro do sistema de ensino». Até porque neste programa integrado no Plano Tecnológico há já mais de 70 mil pessoas pré-inscritas, candidatas a computadores com acesso à Internet de banda larga. No âmbito deste plano, todos os alunos inscritos no 10º ano poderão receber um portátil com ligação à Internet, que varia consoante os rendimentos do agregado familiar. [Veja os diferentes escalões e preços].

A escolha por este liceu de Oeiras para assinalar o início do ano lectivo – apesar de na grande maioria dos estabelecimentos de ensino do país as aulas só começarem na próxima segunda-feira – vê-se nos indicadores de sucesso da escola, apontou Sócrates que, no entanto, chamou erradamente «escola Marquês de Pombal» à secundária Quinta do Marquês. Para o primeiro-ministro para aumentar os indicadores de sucesso é preciso potenciar os indicadores da sociedade de informação» e para isso a prioridade está na Internet, banda larga e computadores.

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