Txapote assassinou seis pessoas, faltando ainda apurar a sua responsabilidade em muitos outros atentados. Tem cara de mau – os maus que se vulgarizaram nos filmes e que, de tão estereotipados, parecem ser apenas produto de ficção. Mas Txapote existe. Não sente culpa, nunca se arrependeu, riu-se diante dos familiares de quem matou. É um terrorista, operacional da ETA, cuja obsessão pela causa desumanizou a sua cara. Os que não acreditam na sua missão não merecem viver.

Há dez anos, no dia 12 de Julho, assassinou Miguel Ángel Blanco, um vereador do PP, com 29 anos, de Ermua, uma pequena vila do País Basco. Matou-o com dois tiros na nuca. Miguel tinha as mãos atadas com um cabo eléctrico, estava amordaçado e um lenço cobria-lhe os olhos. Txapote disparou o primeiro tiro num bosque, ao lado de uma auto- -estrada. Miguel Ángel andou uns passos, perdeu um sapato, caiu de joelhos, e Txapote libertou a segunda bala. Miguel foi encontrado ainda com vida, mas com o cérebro irreparável, por uma matilha de cães.

Txapote, também conhecido por Jon, foi registado como Francisco Javier García Gaztelu, na localidade de Galdakao, em 1966. O meio social violento e o perfil de adolescente rebelde faziam dele um candidato para a ETA – havia uma causa, a pulsão juvenil para a agressividade, um país saído de uma ditadura que oprimira a identidade basca. Em 1991 participou num tiroteio, em Bilbau, em que morreram um etarra e um polícia. Fugiu então para França. Regressou três anos depois e matou um guarda municipal em San Sebastián. Mais dois homicídios em 1995, o mesmo ano em que foi apanhado enquanto colocava uma bomba. Escapou, mas despistou-se, conseguindo, ainda assim, desarmar e algemar os polícias que o perseguiam. Entrou na serra e desapareceu.

No dia 10 de Julho de 1997, Txapote e a sua companheira, Amaia, raptaram um rapaz que tocava bateria num grupo, e decidira ser vereador para ajudar a sua comunidade – Miguel Ángel não era um político, não era uma ameaça. A ETA dava 48 horas ao Governo para transladar todos os presos etarras para estabelecimentos penitenciários no País Basco. Sabiam que as autoridades nunca cederiam, como sabiam que, logisticamente, não se podem mudar centenas de presos em dois dias. Miguel Ángel estava sentenciado desde o início. Nas palavras do jornalista José Luis Barberia: “Os terroristas realizaram a experiência de chantagem emocional massiva mais depurada e depravada da sua história.”

Milhões de espanhóis saíram à rua, com lenços brancos e as mãos levantadas (sem manchas de sangue como os terroristas), a pedir a libertação de Ángel. Nunca o país se tinha manifestado daquela maneira contra a ETA. Os espanhóis, cansados, revoltados, gritavam: “Basta Ya!” No julgamento, o procurador recordou essas 48 horas: “Poucas vezes um assassino teve tantos motivos para não levar a cabo uma assassinato. É inexplicável não ter ouvido o clamor de uma sociedade que reclamava clemência.”

Txapote, que não concordou com o cessar-fogo de 1998, seria capturado pela polícia francesa, enquanto bebia numa esplanada. No final de 2005 entrou em Espanha, para responder por seis acusações de homicídio. Durante o julgamento pela morte de Blanco, dentro de um cubo transparente que o separava do resto do tribunal, teve a seu lado Amaia, companheira e cúmplice. Riram-se diante da mãe de Miguel Ángel e continuaram a rir e a contar segredos durante a leitura da sentença – 50 anos para cada um.

Em muitas fotografias, mesmo algemado, aparece com o sorriso de quem acha que é dono da verdade, de quem acredita que vai poder pegar numa arma e eliminar todos os que não concordam com ele. Para ele, a coerência, mesmo que envolva dar tiros na nuca a inocentes, parece ser um valor absoluto. Nada mudou na suas convicções. No fim do julgamento, gritou: “Somos militantes da ETA e, até que se liberte o País Basco, não vamos parar. Dá-lhes duro.”

in DN

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