O indizível

Grandes organizações sociais só alcançam sucesso quando se voltam para aquilo que fazem melhor. Esta verdade vale para as escolas. O que as escolas podem e devem fazer? Elas não podem alcançar sucesso a não ser que todos os seus alunos se tornem competentes em leitura, escrita e matemática, assim como sejam capazes de obter um bom entendimento de história , ciências, literatura e um idioma estrangeiro. Elas não podem alcançar sucesso a não ser que ensinem às crianças a importância da honestidade, da responsabilidade pessoal, da curiosidade intelectual, da engenhosidade, da bondade, da empatia e da coragem.

Ass escolas devem preparar os mais jovens para que estes desenvolvam uma “inteligência versátil” nos termos descritos por Willian T. Harris: uma inteligência que proporciona aos indivíduos condições de aprender novas tarefas e de se tornarem senhores de suas próprias vidas. Elas devem ensinar o uso da linguagem simbólica e das idéias abstratas. Elas devem ensinar os mais jovens a respeito da cultura e do mundo no qual vivem, e a respeito de culturas que existiram tempos atrás e em lugares muito distantes.

Se souberem e realizarem o que fazem bem, as escolas podem escapar de modas e panacéias que muitas vezes lhes foram impostas por pressão de grupos, legisladores, e por entusiastas bem intencionados. As escolas não podem competir com a riqueza visual da televisão, com a Internet ou com o cinema. Mas a mídia, errática e impessoal, não pode competir com professores que conhecem , inspiram e guiam os mais jovens para uma maturidade responsável.

Três grandes erros dominam certo pensamento sobre as escolas: o primeiro grande erro é a expectativa de ver as escolas como instituições capazes de resolver todos os problemas da sociedade; o segundo é a crença de que apenas uma parcela das crianças precisa de educação acadêmica de alta qualidade; o terceiro é a crença de que as escolas precisam enfatizar as experiências imediatas dos estudantes e minimizar (ou até mesmo ignorar) a transmissão do conhecimento. O primeiro destes pressupostos leva à perda de foco, afastando as escolas de sua missão mais básica; o segundo contribui para baixos desempenhos e favorece políticas antidemocráticas; o terceiro priva os mais jovens de aprender com a experiência de outros, e impede que eles possam subir sobre os ombros de gigantes em qualquer campo do pensamento e da ação.

Talvez no passado fosse possível deixar sem educação uma parcela importante da população sem causar sério prejuízo à nação. Hoje não. A educação em nosso tempo, mais do que em qualquer outra época, é a chave para uma participação integral na sociedade. Um rapaz ou moça que não possa ler, escrever, ou usar matemática está privado de qualquer oportunidade educacional. Um homem ou mulher sem uma boa escola fundamental e média está virtualmente afastado da educação superior, de muitas carreiras desejáveis, da participação em nosso sistema político, e da apreciação dos grandes tesouros estéticos da civilização. A sociedade que permite que um vasto número de seus cidadãos permaneça deseducado, ignorante, ou semi-alfabetizado desperdiça sua maior riqueza, a inteligência de seu povo.

As disciplinas ensinadas na escola são de uma validade singular, tanto para os indivíduos como para a sociedade. Uma sociedade que não ensina ciências para todos favorece a proliferação de movimentos irracionais e de sistemas de crenças anti-científicos. Uma sociedade que volta suas costas ao ensino de história encoraja a amnésia das massas, fazendo com que as pessoas ignorem eventos e idéias importantes do passado da humanidade, e provocando a erosão da inteligência cívica necessária para o futuro. Uma sociedade democrática que deixa de ensinar às gerações mais jovens seus princípios de auto-governança coloca tais princípios em risco. Uma sociedade que deixa de ensinar aos jovens a apreciação das grandes obras de literatura e arte favorece ao embrutecimento e degradação de sua cultura popular. Uma sociedade étnica e racialmente diversa requer, mais que outras sociedades, um esforço consciente para construir valores compartilhados entre seus cidadãos. Uma sociedade que tolera o anti-intelectualismo em suas escolas favorece ao surgimento de uma cultura idiotizada que cultua celebridades e sentimentalismos em vez de conhecimento e sabedoria.

As escolas não vão se tornar obsoletas por causa das novas tecnologias uma vez que seu papel como instituições de aprendizagem tornou-se mais importante hoje do que o foi no passado. A tecnologia pode suplementar as escolas, não substituí-las. Mesmo as tecnologias eletrônicas mais avançadas são incapazes de converter seus mundos de informação em conhecimento maduro, uma forma de mágica intelectual que requer professores competentes e bem preparados.

Para serem bem sucedidas, as escolas precisam estar voltadas para sua missão fundamental de ensinar e aprender. E elas precisam fazer isso para todas as crianças. Essa deve ser a meta mais abrangente das escolas no século XXI.

Trecho final do livro Left Back: a century of failed school reforms, de Diane Ravitch, New York: Simon & Schuster, 2000. Tradução de Jarbas.

6 Comments

  1. Vi aqui e no De Rerum Natura os comentários sobre o eduquês, praga que assola o planeta [isso mesmo, exemplos de eduquês podem ser encontrados às pencas também aqui no Brasil]. Venho brigando contra o eduquês numa Faculadade de Educação. É uma luta inglória. Mas há esperança. Por isso gostei tanto do livro de Diane Ravitch, escrito em idioma humano, perfeitamente compreensível, e mostrando os males que o escolanovismo e outras modas trazem para a ciência. Por isso traduzi as páginas finais da obra de Diane. E parece que minha impressão de que tais páginas fariam bem aos educadores, pelo menos para aqueles que se sentem mal com o eduquês, andou acertada [ao menso aí em Portugal…]. Abraço grande, Jarbas.

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  2. Caro Jarbas,

    Seja bem-vindo ao meu pasquim.
    Encontrei este seu texto precisamente no “De Rerum Natura”e pareceu-me tão interessante que resolvi colocá-lo aqui, identificando a origem e o autor. Efectivamente, também por cá se vai discutindo o que se pretende com a educação, havendo algum extremar de posições: os profissionais e académicos da área das Ciências da Educação parecem sentir-se atingidos pela expressão “eduquês” e os “anti-eduqueses” são frequentemente conotados com o neopositivismo e o neoliberalismo.
    Polémicas políticas à parte, parece-me interessante que os assuntos sejam discutidos despreconceituosamente. Infelizmente, tal nem sempre é possível, num país onde todos se conhecem e onde as mentalidades são ainda mais fechadas que os próprios círculos e circuitos académicos.
    Quando uma teoria, pedagógica ou não, é aceite como ideologia de forma acrítica e acéfala, toda a centelha de discussão deixa de ser possível.

    Poderá encontrar mais artigos sobre educação em http://professorsemquadro.blogspot.com

    Cumprimentos,

    SL

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  3. Custa-me entrar assim num qualquer lugar em que se fala de educação. E custa-me porque por mais que leia não encontro o que sinto ser primordial.
    Ninguém fala de que a escola corresponde quase a um terço da vida de cada criança que lá entra (as que entram).
    Ninguém fala que os adultos que frequentam essa escola têm uma noção de tempo nos antípodas das crianças.
    Ninguém refere que adultos e crianças deviam viver esse tempo para se juntarem no mais elementar dos sentidos, que é aprenderem coisas uns com os outros.
    As crianças (as que podem frequentar escolas) não escolhem estar em casa ou na escola, não escolhem quando podem brincar, não escolhem como se aprende, não escolhem o humor do adulto que não está com pachorra para a ouvir, porque tem filhos, casas para pagar, supermercados para ir, filmes que lhe apetece ver, notícias de jornais interrompidas pela puta da campainha que diz que tem que ir dar uma aula precisamente quando até o café lhe estava a saber bem.
    Ninguém refere o fosso entre a vontade do adulto e a constante vontade da criança.
    Ninguém se pronuncia sobre as crianças. Todos se pronunciam por eles próprios (até porque dá muito trabalho).
    Desculpem o desabafo
    Ricardo Serrano

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  4. Tem razão no que afirma, Ricardo.
    Mas talvez o egocentrismo a que se refere esteja a ser justificado pela degradação das condições profissionais que são impressivamente sentidas por aqueles que [ainda] gostam da sua profissão.

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  5. acrescento mais uma nota politicamente incorrecta: será que a maioria dos alunos (pessoas) consegue atingir 50% das competências que se lhes exigem na escola? Julgo que não. Julgo que apenas uma minoria nasce dotada de capacidades. O erro é pensar que somos todos iguais. Não somos.

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  6. Caro Rui, apetece-me, depois do seu comentário, ser ainda mais incorrecta: será que a maioria dos professores (pessoas) consegue atingir 50% das competências que se lhes exigem na escola?

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