A Ministra do eduquês

Já por mais de uma vez afirmei que nunca nenhum outro ministro da educação esteve tão claramente ao lado do pensamento pós-modernaço das teorias vulgarmente associadas ao “eduquês” (seja lá o que isso for). Infelizmente, numa cobarde demonstração de renúncia ao debate livre de preconceitos, os meus fascinantes colegas de trabalho que obtêm orgasmos intelectuais à custa da leitura de imbecilidades que deveriam fazer corar de vergonha qualquer relapso mental, nunca tiveram um assomo de dignidade para dizer o que quer que fosse — e não é na internet que o farão, com certeza.

O facto é que tenho aqui em casa, por manifesta falta de  lembrança de o usar como fonte de combustível no fogão de sala, um daqueles livrinhos típicos do “pensamento” eduquês: “Projecto Educativo”, de A. Carvalho e F. Diogo, edições Afrontamento, com o altíssmo patrocínio do Miistério da Educação, na altura liderado por alguém que, se tivesse polegar oponível, teria sido um excelente escritor de historinhas.

Reza assim:

“A evolução, nos últimos anos, do Estado-Providência para um Estado que se anuncia como catalizador das iniciativas locais conduz a uma cada vez maior transformação da concepção escola. Do núcleo professor-aluno passa-se a um espaço comunitário, envolvendo todos os actores que nela interaccionam. De sistema fechado passa-se ao conceito de comunidade educativa onde muros e fronteiras se esbatem, ligadas a outras comunidades (familiares, recreativas, económicas, etc.). (…) Esta visão de uma escola de interesse público é compatível com uma concepção de escola que tem como função participar no alargamento e aprofundamento da educação fundamental, não ignorando a sua relação com a comunidade envolvente que será também agente educativo.”

Ora muito bem. Traga-se lá a comunidade para dentro da Escola e institua-se o Encarregado de Educação como “agente de ensino”: passa ele a avaliar os professores.

Mas vem isto a propósito das palavras da senhora ministra, hoje, à TSF:

Para Maria de Lurdes Rodrigues a transferência de competências de matérias de educação para as autarquias vai permitir fazer mais e melhor, conseguido melhor qualidade.

A governante acrescentou que é sempre possível efectuar a transferência do pessoal docente se for essa a forma de conseguir «uma educação de melhor qualidade e mais eficiente». No que respeita à possibilidade dos professores do Ensino Básico serem também transferidos para as autarquias, Maria de Lurdes Rodrigues garantiu que esta é uma possibilidade que não está a ser equacionada nesta altura.

Digam lá agora se há ministra mais neoliberal e mais eduquesa do que esta.

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9 Comments

  1. A propósito, por deveres pessoais estou a ler essa fantástica prosa que é “como lidar com mudanças” de Robert Heller e “Psicologia das relações interpessoais” de O. Fachada. O primeiro só afirma banalidades; o segundo é de uma falta de densidade intelectual que poderia ser prejudicial a uma amiba; em todo o caso, pasmo por saber que constituem bibliografia de referência em alguns cursos pós-graduados que andam por aí. Julgava que os encontraria na secção de literatura infantil, mas pelos vistos estava enganado: é com livros destes que se formam “cientistas”.

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  2. Gosto do nome das edições que publicaram o tal
    “Projecto Educativo”…Afrontamento…pois é o que eu sinto quando leio os disparates que esse
    duo defende!
    Perdão! Quarteto! Esquecia-me do “Olimpo” da Educação e da Medusa que comanda as tropas!

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  3. O que eu sei é que este discurso cada vez mais enche a boca e a cavidade craniana dos meus respeitabilíssimos colegas. Tanto que se me arremelga a tripa nas reuniões de avaliação, com a atenção às qualidades enão às quantidades, à intenção e não ao produto. O aluno é malcriado, não estuda a ponta de um corno? Mas vai às aulas e cumprimenta-nos; por isso tem uma boa atitude, vamos subir este 8 para um 10, dar-lhe uma nova oortunidade. Acho que vou voltar a fazer a escola: com a minha boa atitude, rebento com a escala e tiro as notas que me negaram aqueles sacanas dos profs que tinham a mania de ser exigentes. Vou ter mais uma reunião: já trouxe o saco para o vómito.

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  4. engraçado que o eduquês tem um reverso da medalha curiosíssimo. Ocasionalmente tenho alunos que merecem 20 e «dou-lhes» 20. nas reuniões ouve-se de tudo sobre os meus 20s… «20?», « como é possível?», «a filosofia? o aluno deve ser um génio»…
    é que a não marcação de balizas cognitivas definidas como fazem os e-duqueses (!!!) leva-os a colocar sempre mais um elemento qualquer que o aluno deveria aprender mas não aprendeu… apenas para evitar o 20 e dizer que se é muito exigente!

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  5. É com efeito a ministra do eduquês. Pressente-se que para ela o ideal seria um sistema de ensino (perdão, «educativo») com Ministério, com burocratas e com pedagogos, mas sem escolas, sem professores e sem alunos…

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  6. O Ministério está cheio de pedagogos brilhantes a preparar exames com erros e perguntas para níveis de escolaridade inferiores. Se o meu cão tivesse polegar oponível, também tinha boas notas numa escola do “eduquês”.

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