Que Escola queremos?

Não sou um adepto das ciências da educação, embora não as renegue; insurjo-me contra o eduquês por convicção intelectual, embora isso me custe alguns amargos de boca e algumas acusações de “fascista” e “conservador”.

O “eduquês” não existe, como se sabe. Não sei se Marçal Grilo tinha ou não alvos políticos quando acusou os professores de falarem em “eduquês”. A expressão popularizou-se e serve, hoje, para designar um certo abastardamento das ciências da educação, do ensino, da actividade docente.

O meu único objectivo ao atacar o eduquês é discutir a Escola que queremos para a nossa sociedade. Pessoalmente, quero uma Escola Inclusiva, uma Escola efectivamente gratuita e uma Escola com qualidade. Ora, isso parece-me impossível quando, cada vez mais, as escolas não dispõem de meios financeiros (e ainda bem que não dispõem de autonomia financeira…), quando as escolas leccionam disciplinas de utilidade mais que duvidosa (Área de Projecto, Estudo Acompanhado, etc) e quando as escolas são, por tendência natural, lugares onde os mais pobres, os que têm mais dificuldades em aceder à cultura e os deficientes são profundamente marginalizados, estabelecendo-se um “currículo oculto”, como diria Bernstein, que os exclui.

Grande parte das teorias pedagógicas são uma trampa – e por isso me insurjo contra elas. São aquelas que designo por “eduquês”. Enfio nesse saco coisas como a pedagogia do projecto que, sendo interessante, me parece um delírio face às condições materiais (das nossas escolas) e profissionais (dos nossos docentes).

Quando surgiu o célebre 115-A/98, afirmei na Assembleia Constituinte da minha escola, da qual fazia parte, que estava aberta a porta para a autonomia das escolas. Mas ninguém na altura parecia muito preocupado com o assunto. Hoje percebemos melhor o que é a autonomia das escolas: autonomia pedagógica e financeira, com liberdade total para as escolas escolherem os seus projectos educativos (ao sabor de interesses locais, leia-se camarários, políticos, empresariais) e em função deles escolherem também os seus professores, com os correlativos constrangimentos financeiros que daí advêm, graças à “autonomia”, e que levarão necessariamente à dispensa de professores efectivos. Li os normativos legais associados ao PRACE e ao SIADAP e articulei isso com o ECD, tendo chegado à conclusão que a maior parte dos nossos colegas ainda não terá interiorizado a gravidade da situação profissional dos docentes e as implicações para o futuro (qual futuro?) da escola pública.

Na internet, os blogues estão dominados por uma ortodoxia do pensamento, em que as colagens — e porque não, os interesses — políticos são excessivamente evidentes. Existem óbvias referências de muita qualidade, mas não seria de bom tom nomeá-las, pois a indicação de uns implicaria a omissão de outros, o que poderia ser injusto. Mas isso não me impedirá de olhar para o livrinho em que Nuno Crato faz um diagnóstico e dizer: “tem razão”, mesmo sabendo que o livro é simplista e redutor. Da mesma forma que olho para as entrevistas que Nuno Crato dá e nas quais aponta as “soluções” e às quais só posso responder “não tem razão”.

As soluções propostas pelo Nuno Crato não me agradam, como é óbvio . Mas quando ataco o eduquês, imediatamente me conotam com as ideias dele, sendo vulgar os bloguistas me tratarem com alguma antipatia. É que Nuno Crato fez um diagnóstico da situação que não é desprezível: excesso de voluntarismo e experimentalismo em educação, uso de máquinas de calcular desde tenra idade, perda de hábitos e trabalho, visão do estudo como “prazer” e não como “trabalho”. Eu, que estudei música até um nível superior, lembro-me bem da exigência, do trabalho, do espírito de sacrifício que eram necessários para, diariamente, estudar 2 ou 3 horas de instrumento, história da música, composição, formação musical (“solfejo”). Mais a “escola” propriamente dita.

O que falha na blogosfera é que as críticas ao Nuno Crato — e, consequentemente, as críticas a uma política educativa orientada para a elitização, para a privatização, para o desmantelamento de uma escola aberta a todos — são inconsequentes, pueris, falaciosas. Facilmente desmontáveis. Se Nuno Crato está correcto quanto ao diagnóstico mas errado quanto às soluções, porque não aceitá-lo? Arrumá-lo para um canto como argumento de ser “de direita”, “conservador” ou, simplesmente, “uma besta” não esgota o assunto e enquadra-se na tal ortodoxia do pensamento em que, tal como George Bush, “quem não está por mim é contra mim”. E isso é errado, pois denota falta de espírito democrático, falta de honestidade intelectual, falta de disponibilidade cívica para nos entregarmos a um debate em que as posições iniciais dos interlocutores sofrem efectivamente alterações se a tal forem conduzidos pelos outros interlocutores. Mas o “debate” na internet não o chega a ser: cada um apresenta umas ideias e dali não sai, dali ninguém o tira. Todas as opiniões formuladas são postulados inamovíveis, dogmáticos, pelo que a discussão se torna evidentemente inútil e inconsequente.

Seguramente não me deixarei vergar por nenhuma das ortodoxias dominantes, ainda que de quando em vez me chamem fascista ou comunista. De um certo ponto de vista, ambos são insultos; ou elogios.

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8 Comments

  1. A única coisa que se pretende que as escolas passem aos seus alunos é o conformismo e a ignorância. Esse é o curriculo oculto para a maioria dos alunos e começa no 1º ano. A teia está a ser cuidadosamente tecida nessa direcção.

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  2. solfejos é coisa de ensino ditatorial, pá! prontos, pá, a malta curte é uns filmes e uns debates para nanar lá no fundo da sala enquanto os sabichões que sabem tudo e marram e decoram e percebem e interpretam e escrevem e… tudo e tudo e tudo… enquanto esses gajos nerds se entretêm a falar com o prof e a adocicar-lhe o ego!!! pcebeste, pá?
    se vens com ensino exigente para cima de nós, vamos é nós para cima de ti, pcebeste, ó cota?!!!

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  3. Caro SL, tal como escrevi em privado:
    Se Piaget e Vygotsky se tivessem encontrado intelectualmente, muitos dos disparates e dislates produzidos nas Ciências da Educação, particularmente nos anos 60-70, não chegariam sequer a ver a luz do dia.

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  4. «A Escola» tem que estar aberta a todos – mas «cada escola» tem que estar aberta só a alguns. Nesta medida eu sou elitista sem problema nenhum. Gosto duma sociedade em que haja muitas elites e em que a escola seja um meio de lhes aceder. Não gosto, nem de poucas elites, nem de elites fechadas, nem duma escola que aprofunde as desigualdades sob a bandeira do igualitarismo.

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