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detritus toxicus

Curadoria de conteúdos

Mês

Junho 2007

Dizer bem 5

Uma entrevista muito interessante de Álvaro Gomes ao Educare: 

(…) Os professores estão a atravessar uma fase de profunda turbulência, a todos os níveis da sua profissão. Vêem o seu posto de trabalho em risco; vêem-se humilhados em público e em privado, desde as cúpulas às bases do sistema; vêem-se defraudados nas suas expectativas profissionais; vêem-se violentados na sua dignidade…

 No livro A Escola discorda dos modelos de escola tradicional e escola nova. Qual é o modelo que propõe?
AG: Não é que discorde do paradigma da escola tradicional ou do paradigma da escola nova. Nesse livro, o que faço é revelar algumas das fragilidades de um e de outro, bem como daquela que tem sido designada como escola crítica.
Se todas elas têm aspectos positivos e limitações, talvez valha a pena seguir a estratégia da abelha, quando visita flores muito diferentes. Retiremos de cada uma dessas macroteorias o “pólen educacional” que nos convém e podemos ficar seguros de que, da nossa “colmeia pedagógica e didáctica”, fluirá um “mel” de primeira qualidade.

A Escola é, a meu ver, essa “arca-da-aliança” mediadora entre a coisa privada e a coisa pública, que as sociedades, em geral, disponibilizam, no sentido de dar as mesmas oportunidades a todos os seus cidadãos. Àquelas cabe garantir tais oportunidades. E a estes cabe não as desperdiçar, pois isso representaria uma perda irrecuperável.

Considera que são os alunos provenientes de classes sociais mais desfavorecidas que, mais facilmente, correm o risco de ficar à margem? 

(…) De uma coisa não tenho dúvida: se os estudantes tiverem um bom hardware pessoal (intelectual, emocional, sensorial), se o software for de qualidade, se se protegerem com alguns airbags de contexto, não terão dificuldades de maior. Mesmo nas condições mais ingratas. Mas não me parece que as crianças que nos chegam de certos guetos sejam as mais bem equipadas em todos esses domínios…

(…)

A ler, na íntegra.

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Dizer bem 4

http://www.youtube.com/watch?v=5g8cmWZOX8Q

Dizer bem 3

Dizer bem dos professores, pois claro!

Dizer bem dos muitos professores que trabalham não 12, não 22, mas 40 ou 50 horas por semana sem que lhes seja reconhecido o esforço e a dedicação em prol de um ensino melhor; dizer bem dos muitos professores que têm sido indecentemente agredidos, ofendidos, humilhados na praça pública; dizer bem dos muitos professores que, na falta de um verdadeiro sistema de apoio aos alunos desfavorecidos, providenciam tudo o que é necessário para que nada lhes falte, desde refeições a fotocópias e visitas de estudo; dizer bem dos professores que sacrificam a família e a sua vida pessoal como condição para poderem continuar a exercer a sua actividade profissional; dizer bem dos muitos professores que se esforçam tanto por um país que os reconhece tão pouco.

Dizer bem 2

Hannah Arendt tem posições sobre educação muito interessantes – escusado será dizer que concordo com ela.

Leia-se isto, isto e isto: aqui ela expõe como a Escola Moderna, a pedagogia libertária e o pensamento de Rousseau constituíram aquilo que hoje designamos genericamente como “eduquês” e demonstra como o pensamento político de uma certa esquerda, sobretudo os anarco-comunistas, se identificaram com esses princípios pedagógicos. Demonstra também como esses princípios pedagógicos estão obviamente errados: a negação da autoridade do professor, o primado das competências sobre os conhecimentos, a ênfase nas competências práticas em detrimento da teoria, a confiança na capacidade de auto-gestão das crianças, a iniquidade dos exames nacionais, o facilitismo pretensamente (e pretensiosamente) democrático, etc. Demonstra claramente por que razão esses princípios são maus princípios.

Hannah Arendt foi uma teórica política alemã, muitas vezes descrita como filósofa, apesar de ter recusado essa designação.

Nascida numa rica e antiga família judia de Linden, Hanôver, fez os seus estudos universitários de teologia e filosofia em Königsberg (a cidade natal de Kant, hoje Kaliningrado). Arendt estudou filosofia com Martin Heidegger na Universidade de Marburgo, relacionando-se passional e intelectualmente com ele. Posteriormente Arendt foi estudar em Heidelberg, tendo escrito na respectiva universidade uma tese de doutoramento sobre a experiência do amor na obra de Santo Agostinho, sob a orientação do filósofo existencialista Karl Jaspers.

A tese foi publicada em 1929. Em 1933 (ano da tomada do poder de Hitler) Arendt foi proibida de escrever uma segunda dissertação que lhe daria o acesso ao ensino nas universidades alemãs por causa da sua condição de judia. O seu crescente envolvimento com o sionismo levá-la-ia a colidir com o anti-semitismo do Terceiro Reich o que a conduziria, seguramente, à prisão. Conseguiu escapar da Alemanha para Paris, onde trabalhou com crianças judias expatriadas e onde conheceu e tornou-se amiga do crítico literário e místico marxista Walter Benjamin. Foi presa (uma segunda vez) em França conjuntamente com o marido, o operário e “marxista crítico” Heinrich Blutcher, e acabaria em 1941 por partir para os Estados Unidos, com a ajuda do jornalista americano Varian Fry.

Trabalhou nos Estados Unidos em diversas editoras e organizações judaicas, tendo escrito para o “Weekly Aufbau”. Em 1963 é contratada como professora da Universidade de Chicago onde ensina até 1967, ano em que se muda para a New School for Social Research, instituição onde se manterá até à sua morte em 1975.

O trabalho filosófico de Hannah Arendt abarca temas como a política, a autoridade, o totalitarismo, a educação, a condição laboral, a violência, e a condição de mulher.

Dizer bem 1

A Idalina Jorge lançou o desafio para daqui a umas semanas, mas vou antecipar-me desde já: dizer bem de alguém, dizer bem de alguma coisa na educação.

Os meus alunos são trabalhadores e estudantes . São alunos “nocturnos” e não sabem ainda que tenho este blog. São pessoas que trabalham durante todo o dia, adultos com 30, 40 ou 50 anos, cujo quotidiano é preenchido entre a escola e o emprego.

São pessoas que trabalham das 8 da manhã às 6 da tarde; que dispensam o jantar cinco dias por semana, 36 semanas por ano; que têm filhos e maridos ou esposas que só podem ver ao fim de semana; que se despedem dos filhos de manhã, ainda eles dormem, mas só chegam a casa à noite, quando eles já dormem. Que têm empregos mal pagos, motivo que os leva a fazer mais um esforço para conseguir melhores habilitações e melhores empregos. Que não estudaram quando eram “novos”, porque os respectivos pais precisaram de braços para pagar as contas. Que têm pais acamados, idosos, de quem tratam com os maiores cuidados mesmo em tempo de aulas. Os meus alunos aguentam o “balanço”, apesar das “novas oportunidades” e das falsas promessas de computadores a cento e cinquenta euros.

Os meus alunos da noite são um belíssimo exemplo para grande parte dos alunos de “dia”. Não sabem, mas são uns heróis.

O eduquês em discurso indirecto

É tão difícil explicar isto às pessoas…

Irra!

Adenda (porque tem tudo a ver): senti-me menos só ao ler isto.

A globalização da Estupidez

Leia-se.

E leia-se.

Lá por fora, já se lhes chama “estúpidos”. Cá, parece mal. Pior é não o pensar: são estúpidos, é só.

O segundo link faz-me lembrar uma história: o Imbecil que foi meu “Orientador” de Estágio dizia-me que era necessário pôr os alunos a debater as regras da Lógica formal.

Pois.

Hoje, é orientador de mestrado em ciências da educação.

A Ministra do eduquês

Já por mais de uma vez afirmei que nunca nenhum outro ministro da educação esteve tão claramente ao lado do pensamento pós-modernaço das teorias vulgarmente associadas ao “eduquês” (seja lá o que isso for). Infelizmente, numa cobarde demonstração de renúncia ao debate livre de preconceitos, os meus fascinantes colegas de trabalho que obtêm orgasmos intelectuais à custa da leitura de imbecilidades que deveriam fazer corar de vergonha qualquer relapso mental, nunca tiveram um assomo de dignidade para dizer o que quer que fosse — e não é na internet que o farão, com certeza.

O facto é que tenho aqui em casa, por manifesta falta de  lembrança de o usar como fonte de combustível no fogão de sala, um daqueles livrinhos típicos do “pensamento” eduquês: “Projecto Educativo”, de A. Carvalho e F. Diogo, edições Afrontamento, com o altíssmo patrocínio do Miistério da Educação, na altura liderado por alguém que, se tivesse polegar oponível, teria sido um excelente escritor de historinhas.

Reza assim:

“A evolução, nos últimos anos, do Estado-Providência para um Estado que se anuncia como catalizador das iniciativas locais conduz a uma cada vez maior transformação da concepção escola. Do núcleo professor-aluno passa-se a um espaço comunitário, envolvendo todos os actores que nela interaccionam. De sistema fechado passa-se ao conceito de comunidade educativa onde muros e fronteiras se esbatem, ligadas a outras comunidades (familiares, recreativas, económicas, etc.). (…) Esta visão de uma escola de interesse público é compatível com uma concepção de escola que tem como função participar no alargamento e aprofundamento da educação fundamental, não ignorando a sua relação com a comunidade envolvente que será também agente educativo.”

Ora muito bem. Traga-se lá a comunidade para dentro da Escola e institua-se o Encarregado de Educação como “agente de ensino”: passa ele a avaliar os professores.

Mas vem isto a propósito das palavras da senhora ministra, hoje, à TSF:

Para Maria de Lurdes Rodrigues a transferência de competências de matérias de educação para as autarquias vai permitir fazer mais e melhor, conseguido melhor qualidade.

A governante acrescentou que é sempre possível efectuar a transferência do pessoal docente se for essa a forma de conseguir «uma educação de melhor qualidade e mais eficiente». No que respeita à possibilidade dos professores do Ensino Básico serem também transferidos para as autarquias, Maria de Lurdes Rodrigues garantiu que esta é uma possibilidade que não está a ser equacionada nesta altura.

Digam lá agora se há ministra mais neoliberal e mais eduquesa do que esta.

Computadores a 150 euros?

Humm… vejamos:

Para os professores, o preço do pc é de 150 euros. Mas com o pc vem um apêndice que, pelos vistos, é obrigatório: uma chamativa ligação à net 5 euros inferior ao preço de mercado, durante três anos (36 meses). O preço de mercado anda à volta dos 34,99 euros (vantagens da concorrência tresloucada e desleal dos nossos múltiplos operadores). Donde, temos 30 euros durante 36 meses (1080 euros) mais 150 de entrada. Total: 1230 euros, por um pc que, segundo os próprios fabricantes, custaria, a preços de mercado, 800 euros.

Ok, ok, só na internet já se recupera o gasto. Mas se do ponto de vista do comprador o negócio até nem é mau , ainda que não seja grande coisa (as características técnicas vão ser objecto de piada entre os técnicos de informática: “olha, lá vem mais um prof com um daqueles computadores rafeiros”), já do ponto de vista do Estado não deixa de ser um fantástico golpe publicitário: afinal, as mensalidades da net acabam todas nas mãos da PT. Ou não?

O passo seguinte é a distribuição de senhas para a sopa dos pobres.

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