Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir, Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair, Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir, Deus lhe pague

 Chico Buarque

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7 Comments

  1. A “construção” é uma música fantástica. A letra tem um efeito fabuloso, pela forma como joga com as palavras, tal como o operário monta os tijolos. Se não estou enganado, Chico Buarque terá ganho um prémio entregue por associação de operários de construção civil pelo facto de ter denunciado a situação miserável em que os trabalhadores se encontravam. Idealmente, este post teria sido colocado no dia 1 de Maio, mas fui impedido por outros afazeres.

    Chamo a atenção para uma frase: “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”, que passa progressivamente para “Morreu na contramão atrapalhando o público” e “Morreu na contramão atrapalhando o sábado”. Há aqui uma (de)gradação a caminho da mais pura futilidade: se de início um corpo de um operário morto no meio da rua ainda atrapalha o tráfego, no final já “só” atrapalha o sábado. Que chatice, dia de fazer compras…

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  2. Sempre que oiço esta canção lembro-me de um operário da carris que também “Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado”. Manhãzinha cedo, numa 3ª feira, vestiu seu fato domingueiro, respondendo ao espanto da mulher com a desculpa de uma reunião com o chefe, e saiu para a rua com a sua pasta a mulher pusera o farnel que arranjara para o dia. Fez um desvio no caminho para o trabalho e num local bonito, no meio da natureza, pousou a pasta no chão com todo o cuidado, subiu numa árvore com uma corda, e despediu-se do mundo e da PIDE que o perseguia diariamente, por lutar pelo seu direito “Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir”, pela “certidão pra nascer (viver) e a concessão pra sorrir”.

    Foi encontrado por um grupo de jovens que iam para a sua aula de atletismo e que acabaram por ter apenas (?) a sua 1ª aula de política ao vivo já que todas as outras tinham sido só de ouvir dizer…

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  3. Também é digno de destaque o facto de o Chico Buarque terminar TODAS as estrofes com uma palavra proparoxítona: última, última, único, tímido, máquina, sólidas, mágico, lágrima, sábado, príncipe, náufrago, música, bêbado, pássaro, flácido, público, tráfego, etc.

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