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detritus toxicus

Curadoria de conteúdos

Mês

Janeiro 2007

Convém lembrar…

Passam hoje 115 anos sobre a proclamação da república no Porto.

A Rua lá continua. Nem “Santo António” lhe valeu…

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Façam o favor de ser violadas com responsabilidade!

Clique no link abaixo para ver as declarações  de uma das defensoras do Não:

Alexandra Teté, no “Sociedade Civil”

Roubado indecentemente do Diário Ateísta.

O exibicionista

indivíduos verdadeiramente indecentes!…

🙂

At-tambur

Os At-tambur são uma grupo lisboeta de música tradicional, cruzando diferentes estilos e sonoridades. Do disco de estreia destaca-se esta “arabesca“, com arranjos muito bem conseguidos.

O aborto

Tal como seria de esperar, o debate à volta do aborto tem sido intelectualmente miserável. Nada que não espelhe os políticos que temos, obviamente.

Na excelente Crítica, de Desidério Murcho, encontram-se vários artigos cuja leitura aconselho vivamente. É, tanto quanto sei, o único sítio onde se pode ter acesso a todas as perspectivas filosóficas sobre o assunto de forma isenta, séria e intelectualmente estimulante. De resto, o debate roça a indigência mental.

Quanto a mim, o assunto deve ser colocado em dois registos: ou discutimos casuisticamente em que situações reais de vida o aborto é moralmente admissível; ou o discutimos em função da barreira temporal que fixa a moralidade ou imoralidade do aborto.

A primeira forma de o discutir é, quanto a mim, errada. Parece ser pacífico que, nos três casos já previstos pela lei (malformações congénitas, risco de vida para a mãe e violação) o aborto é socialmente admissível até às 10 semanas [e nem vou agora discutir o porquê de serem 10 e não 7; ou 14 ou 24]. Mas a coisa não é tão simples assim: que circunstâncias reais de vida levam as mulheres – e porque não os pais? – a abortar? É evidente que não defenderei aqui o aborto como forma de contracepção, mas…

1) O que fazer quando uma rapariguinha de 12 anos aparece em casa a dizer que está grávida? Será condenada pela mesma sociedade que ainda não estipulou a educação sexual? A mesma sociedade que tantas lacunas revela no planeamento familiar?

2) Que fazer se uma mulher decide não ter (mais) filhos, toma as devidas providências para isso mas um orifício milimétrico ou um antibiótico tomado na altura errada lhe traem os planos?

3) Os casos possíveis são muitos. Não vou enumerá-los: seria fastidioso. Mas a análise casuística tem este senão: é que não se pode pré-determinar em que situações concretas o aborto seria eticamente aceitável ou não.

Sobre o assunto, recomendo também a leitura do blogue do professor Júlio Machado Vaz :

http://murcon.blogspot.com/2007/01/um.html

http://murcon.blogspot.com/2007/01/dois_29.html

http://murcon.blogspot.com/2007/01/e-outro.html

A discussão deve, pois fazer-se noutro registo: sendo o aborto necessário, existe algum prazo temporal após o qual se torne eticamente reprovável?

Penso que esse é o grande problema. A partir do momento em que existe vida senciente, o aborto provoca necessariamente sofrimento a outro ser vivo. E nesse momento passa a ser eticamente reprovável. Mas qual é esse limite? Confesso que não sei, pois das leituras que fiz a conclusão a que cheguei é que não há unanimidade científica à volta da questão.

O melhor argumento contra o aborto é conhecido por “argumento de Marquis“. Basicamente, afirma que o feto aspira a um futuro como o nosso (FCON). É um argumento sério e que merece poderação. Mas poderão os interesses do feto sobrepor-se aos da mulher que lhe garante a vida? E a partir de que momento o feto passará a aspirar a um FCON?

O aborto não é uma forma de contracepção. Nem a mulher é uma vaca parideira.

Haja bom senso.

John Miles

Chamem-lhe lamechas, “kitsch” ou piroso, mas este John Miles de “Music” é um autêntico hino à Música. Nesta versão do youtube, há uma série de pormenores de mau gosto, mas é a única em vídeo que encontrei na net sem ter necessidade de descarregar o meu próprio vídeo e ocupar espaço na página. Repare-se no maestro, completamente desenquadrado com a orquestra: só pode tratar-se de mais uma caso de deficiências de edição, comuns em música orquestral. Ou então, será um daqueles maestros “convidados” apenas para ganhar prestígio. O melhor que se pode dizer é que, a ser o caso, a orquestra é boa: sobreviveu-lhe.

Os Professores

“Já de si, a vida dos professores não é fácil. Para já, os outros grupos sociais têm-lhes um desprezo latente. Este deve-se ao facto de nunca terem abandonado o sistema escolar para se afirmarem na vida fora do mesmo. Após o tempo da escola, transferem-se para uma universidade, de onde regressam à escola para se tornarem funcionários públicos. Semelhante percurso pode ser interpretado como sinal de medo perante a vida, e de incapacidade.  (…) Acresce que os professores têm mesmo uma determinada doença profissional: lidam, dia após dia, com adolescentes e crianças; assim, é inevitável que facilmente se tornem infantis. (…) Os professores são, por isso, facilmente capazes de se exaltar com coisas secundárias e de fazer de uma mosca um elefante.

Mas este desprezo é injusto face a uma tarefa que nem um gestor experiente, nem um empresário com nervos de aço haveria de aguentar durante uma manhã sem pensar em fugir: nomeadamente a de levar uma horda de selvagens sem interesse na aprendizagem, mal-educados e habituados ao entretenimento televisivo a interessarem-se pela sublimidade do idealismo alemão, enquanto esses não pensam noutra coisa senão organizarem ataques à dignidade do professor. Ninguém fora do recinto escolar faz uma pequena ideia dete combate diário contra a insolência pura e simples, a maldade sádica e a crueza mental. E o que é pior é que o professor ainda por cima tem de suportar que lhe sejam apontadas responsabilidades pela rudeza e falta de educação dos seus alunos: ele próprio tem a culpa; ele é que não tem mão na turma, os alunos não curtem as suas aulas, pelo contrário, sentem-se maçados. (…)  O seu comportamento é unicamente imputado às aulas, ao passo que na realidade padecem de falta de capacidade de concentração e de défices educacionais de fabrico caseiro.”

Dietrich Schwanitz, “Cultura – Tudo o que é preciso saber

 

Vem isto a propósito da descrição que me foi feita por um colega de trabalho do comportamento de uma das suas turmas; e após 90 minutos de tortura a que sou submetido, semanalmente, quando tenho de fazer na escola aquilo que os paizinhos deveriam ter feito em casa.

Coerência

Não gosto dos Gatos Fedorentos. Depois das “Fawlty Towers” de John Cleese, depois do fantástico “Coupling“, depois de “Black Adder“, ver os Gatos deixa-me sempre com uma sensação estranha de… insatisfação.  Mas de vez em quando os moçoilos lá fazem um sketch em que lhes reconheço algum mérito. Desta, retrataram na perfeição a incoerência do protagonista principal das homilias de domingo, Marcelo Rebelo de Sousa. O retrato deve ser visto aqui.

Pode existir moral sem fé religiosa?

“O pequeno, muito alto no ar, com as pernas retesadas contra a barra do trapézio, descia sobre o terraço, cavando o espaço largamente, com os cabelos ao vento; depois elevava-se, serenamente, crescendo em pleno sol (…)

– Bela coisa, a ginástica! – exclamou Afonso da Maia, acendendo com satisfação outro charuto.

Vilaça já ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abade, depois de dar um sorvo ao café, de lamber os beiços, soltou a sua bela frase, arranjada em máxima:

– Esta educação faz atletas mas não faz cristãos. Já o tenho dito…

– Já  o tem dito, abade, já! – exclamou Afonso alegremente. – Diz-mo todas as semanas… Quer você saber, Vilaça? O nosso Custódio mata-me o bicho do ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A cartilha!…

Custódio ficou um momento a olhar Afonso, com uma face desconsolada e a caixa de rapé  aberta na mão; a irreligião daquele velho fidalgo, senhor de quase toda a freguesia, era uma das suas dores.

(…)

O bom homem achava horroroso que naquela idade um tão lindo moço, herdeiro de uma casa tão grande, com futuras responsabilidades na sociedade, não soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao Vilaça a história de D. Cecília de Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do escrivão, tendo passado diante do portão da quinta, avistara o Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga de crianças como era, e pedira-lhe que lhe dissesse o Acto de Contrição. E que respondeu o menino? «Que nunca em tal ouvira falar!» Estas coisas entristeciam. E o sr. Afonso da Maia achava graça, ria-se! (…)

E Afonso da Maia respondia com bom humor:

– Então que lhe ensinava você, abade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que não se deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar os inferiores, porque isso é contra os mandamentos da lei de Deus, e leva ao Inferno, hem? É isso?…

– Há mais alguma coisa…

– Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que se não deve fazer, por ser um pecado que ofende a Deus, já ele sabe que não deve praticar, porque é indigno de um cavalheiro e de um homem de bem

– Mas, meu senhor…

– Ouça, abade. Toda a diferença é essa. Eu quero que o rapaz seja virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas não por ter medo às caldeiras de Pêro Botelho, nem com o engodo de ir para o Reino do Céu

Eça de Queiroz, “Os Maias

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