E se só revelar o sexo do seu filho aos cinco anos?

Os pais sentem-se culpados por castigar os filhos. Dar panelinhas e bebés chorões a raparigas e carros a rapazes é perpetuar estereótipos. As novas Barbies vêm com cintura larga e perna gorda, os legos em cadeira de rodas. Não se atira o pau ao gato, nem se fala no “preto da Guiné”. O poema Abecedário sem juízo, de Luísa Ducla Soares, suscita queixas. O discurso quer-se cada vez mais limpo de qualquer traço de discriminação, seja de que tipo for. Mas estamos mesmo a criar crianças mais tolerantes?

Comecemos pela Barbie: talvez não haja muitos bonecos tão duramente criticados como ela. Face a uma queda nas vendas, e ao sucesso de várias marcas que usam modelos mais próximos das proporções físicas reais, a Mattel lançou uma renovação sem precedentes nos 57 anos de história da boneca mais famosa do mundo: agora, a Barbie também pode ser alta, baixa ou com curvas, tem sete tons de pele, 22 cores de olhos e 24 penteados. A diversidade chegou à Mattel.

Há quem diga que o problema não está sequer (ou principalmente) nas formas do corpo, mas no conceito da própria boneca. “Barbie, como marca, continua a enfatizar a beleza”, escreveu no Washington Post Rebecca Hains, professora no Centro de Estudos da Infância e Juventude da Salem State University. “Apesar de algumas Barbies terem profissões, a história e a atracção da boneca anda à volta da moda, beleza e aparência física, em detrimento de outros potenciais interesses ou paixões. Ao introduzir três novos tipos de corpo e diferentes características raciais, a Barbie reforça a mensagem de que, independentemente das formas ou cor da rapariga, a sua aparência deve ser a montra da sua identidade – uma ideia retrógrada que não é passada de forma igual para os rapazes e que muitos pais tentam desesperadamente ajudar as filhas a ultrapassar.”

Mas, no mesmo jornal, Maria Guido, autora do blogue Guerrilla Mom, defende precisamente o oposto. Diz que, quando era criança, a sua Barbie era proprietária de um cabeleireiro e, quando o tempo permitia as brincadeiras na rua, tornava-se fotógrafa freelance da National Geographic. Já a Elsa – a nova heroína da Disney (e personagem do filme Frozen) que destronou 11 anos de liderança Barbie no sector das bonecas – vem com “uma história detalhada num filme de duas horas. Não pode ser dona de um cabeleireiro nem tirar fotografias na selva Amazónica. Nem sequer pode usar calças de ganga. Ela é uma rainha das neves que vive na solidão do seu castelo de gelo”. Uma história criada por adultos, que não estimula a criatividade das crianças, sobre uma figura que está muito longe da mulher emancipada que a Barbie pode incarnar.

Maria Guido chama ainda a atenção para o facto de ninguém exigir que o Ken seja menos musculado. Para ela, tanto faz: ele era apenas o namorado da Barbie, e nem ele estava autorizado a conduzir o seu carro roxo. “Era sempre ela que guiava e escolhia o destino. Uma vez que o Ken não era o ‘príncipe’ nem o ‘cavaleiro de branco’, a minha Barbie podia ser um reflexo da minha individualidade e independência.”


José Guimarães: “Esta cultura de uniformizar fisicamente tudo, incluindo os brinquedos, hoje em dia não faz grande sentido” marco duarte

Muito diferente é o papel de bonecos onde as limitações físicas (ou deficiências, na terminologia mais politicamente incorrecta) estão representadas. Quase ao mesmo tempo que saía a Barbie de formas mais “humanizadas”, a Lego punha no mercado um boneco numa cadeira de rodas (e nem sequer representava um idoso). A Toy Like Me, por exemplo, tem bonecos com aparelhos auditivos, óculos de invisuais, com pernas amputadas… Pretende que os 150 milhões de crianças que, em todo o mundo, têm algum tipo de limitação possam sentir-se acompanhadas.

José Guimarães, director de pediatria do Hospital São Francisco Xavier, vê-os com bons olhos. “É uma política bastante inclusiva. Essas crianças sentem-se de facto muito diferentes”, afirma. É provável que, se estiverem numa cadeira de rodas, se não conseguirem ver ou tiverem um implante da cóclea para conseguirem ouvir, “se sintam diminuídas do ponto de vista social. Acho que é uma excelente ideia tornar isso mais normal e vulgar através de brinquedos, de filmes e novelas, porque vêem a sua situação um bocadinho normalizada na sociedade”. Para as outras, sem nenhum desses problemas, torna-se uma forma de integrar a diferença.

O pediatra do neurodesenvolvimento José Boavida também considera que as crianças devem ser educadas numa “cultura de diversidade a todos os níveis, [incluindo] diversidade física… Esta cultura de uniformizar fisicamente tudo, incluindo os brinquedos, hoje em dia não faz grande sentido”. Mas também vê riscos de se “cair no exagero e tudo o que é fisicamente perfeito não presta, e tudo é normal. Aliás, o normal não existe. É uma linha. Quanto mais se afasta da média, maior a probabilidade de não ser [considerado] normal. Mas os limites são cada vez mais frustes”.

De qualquer forma, dar a uma criança sem qualquer problema uma boneca com uma das pernas amputadas, por exemplo, pode ser positivo, mas está muito longe de resolver tudo. “Lido com crianças que têm muitas limitações – sejam intelectuais, físicas, motoras. De vez em quando, há pais muito preocupados porque são colocadas nas salas dos filhos crianças com deficiências. É cada vez menos uma realidade, mas ainda existe uma ideia de que há certas coisas que são como o sarampo, que se pegam. Pelo contrário, a convivência de crianças sem problemas com crianças com problemas ajuda-os muito mais a compreender o mundo em que vivemos do que seleccionando e agrupando.”

O neuropediatra José Paulo Monteiro também não duvida de que não adianta dar uma boneca com uma prótese ou uma cicatriz na cara a uma criança sem limitações: “Está o adulto a encontrar uma solução que parece politicamente correcta, mas não sabemos se estamos a chegar ao sítio certo. A criança aceitar uma criança diferente é mais fácil do que pensamos. Às vezes, é mais difícil para um adulto.” A experiência diz-lhe que as crianças integram facilmente a diferença “sobretudo se for introduzida cedo na sua vida, por volta dos três, quatro anos. Consegue aceitar e conviver, ter uma atitude protectora e maternal.”

O que é o politicamente correcto?

Mesmo que as prateleiras dos hipermercados estejam ainda cheias de brinquedos tradicionais, daqueles acusados de perpetuar os estereótipos, tornou-se muito fácil encontrar alternativas. A diversidade teve um grande impulso com a Internet.

Para a socióloga Ana Nunes de Almeida, do Instituto de Ciências Sociais, “não habituar as crianças a um unanimismo de modelos – de beleza, de função, os modos de brincar, guardar – é muito benéfico”, afirma. Mas, mais do que os brinquedos, “é importantíssimo o ambiente. Pode ter a Barbie muçulmana, a Barbie chinesa, a Barbie negra, a Barbie gorda, a Barbie envelhecida ou obesa… mas, se em casa tiver uma mãe que faz dietas exageradas para manter uma cintura de vespa, vive para o corpo, está sempre a censurar a criança porque ela tem o cabelo despenteado ou não se arranja bem, ou se desconfia do amigo negro que a criança traz lá a casa, tem aqui uma mensagem contraditória com a dos brinquedos”. E será essa mensagem, a que é dada pelo exemplo do adulto, que ela vai assimilar.

Em todo o caso, “educar para a diversidade é um caminho muito mais interessante do que coibir as crianças, ou limitá-las a uma ideia única do que elas devem ser como crianças ou como adultos”, continua a socióloga. “Nas sociedades onde vivemos, é difícil ser de outra maneira. As crianças são socializadas em contextos diferentes, diversificados: a família, escola, amigos, famílias dos amigos, a televisão, os media põem-nas em contacto com uma grande diversidade de valores que às vezes nem são complementares, são antagónicos. Quanto mais cedo as crianças se habituarem a lidar com essa diversidade, melhor. Outra coisa é saber se elas são mais tolerantes. Mas, sem a experiência da diversidade, certamente a tolerância é mais difícil de ensinar.”

É bom não juntar no mesmo saco o politicamente correcto e a defesa da diversidade, alerta. “Muitas vezes, o politicamente correcto é uma ditadura. É um discurso dominante sobre as coisas, favorece uma certa ordem estabelecida – moral, ética, política. Os conteúdos podem variar imenso consoante os meios sociais, as idades das pessoas – é uma noção muito fluida, muito escorregadia. É um discurso autoritário e muito adultocêntrico” que “fecha o caminho à diversidade”.

O que é, então, o “politicamente correcto?”, perguntámos ao antropólogo Miguel Vale de Almeida, do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). A expressão foi massificada por volta dos anos 1970, 80, “como uma proposta positiva de académicos, educadores, pessoas ligadas a diferentes movimentos sociais (como os direitos dos negros, das mulheres, dos homossexuais…), preocupados com a aplicação de uma teoria consagrada nas ciências da linguagem” e que defendia que “as palavras têm efeitos na realidade: reproduzem ideologias, valores”. Pretendia combater os hábitos de linguagem e escrita que “reproduziam hierarquias e desigualdades e que podiam ser perfeitamente mudados com alternativas”; e, por outro lado, “abrir [a linguagem] a variações, nomeadamente de género, de inclusão racial…”

Por exemplo, o masculino não deve ser utilizado para designar o neutro quando falamos de género (e por isso tantos políticos se dirigem aos portugueses e portuguesas) – “isso significa um cuidado com a inclusão”. Ou “não usar certas metáforas que têm uma história ligada ao racismo…, expressões como ‘cigano’ para querer dizer ladrão, ou ‘trabalhar como um negro’”.

Depois, nos anos 90, veio o movimento de reacção. E foi este que se instalou. “Começou a ser, por um lado, alvo de humor, o que é óptimo, e por outro, [surgiram] acusações a pessoas mais fanáticas da aplicação de certas formas de correcção política. Isso é que se espalhou muito para a opinião pública”, afirma o antropólogo. Actualmente, a expressão é usada para se referir a uma “boa educação excessiva, preocupação em não ferir os outros, e até mesmo à hipocrisia de dourar a pílula quando a realidade é mais crua do que isso. Até se acusa o politicamente correcto de ser uma censura”.

Para Miguel Vale de Almeida, esta reacção contra o politicamente correcto existe porque “as pessoas se sentem incomodadas com a necessidade de mudar o seu ponto de vista. ‘Deixa-me continuar a pensar como sempre pensei.’ Isso vem da parte de quem está numa posição em que não se sente tocado pelos hábitos de linguagem.” Voltar agora atrás será difícil. “Do ponto de vista linguístico, já ninguém muda isto.”

O que há a fazer é uma pedagogia sem autoritarismos (“embora as minorias e as pessoas mais excluídas não tenham grande poder para ser autoritárias”). “Faço-a muito com os meus alunos, porque a Antropologia está muito ligada a isto. Quando ponho negros, mulheres, ou gays mais fragilizados a discutir um bocadinho a questão, já não acham que seja uma hipocrisia: ‘Vem ver a minha experiência, ver como é’.”

O antropólogo afirma que se preocupa “muito mais com as velhas desigualdades e ofensas que sobrevivem, que estão muito expandidas, do que com estas pequenas resistências, que não têm o mesmo peso”. Mas, ainda assim, este é “um debate interessante, porque no meio dele vem ao de cima uma insensibilidade baseada na falta de experiência, na ignorância da média das pessoas, que têm a sensação de que não há problema nenhum”.

Corredor azul, corredor rosa

Entrámos num hipermercado na zona da grande Lisboa. O corredor dos brinquedos não está assinalado como “zona de meninos” e “zona de meninas”, mas nem precisa. De um lado, um banho de azul, do outro, um banho de cor-de-rosa. De um lado está o castelo medieval da Playmobil, os super-homens e os Transformers. Do outro, os bebés-chorões, os tachinhos, os kits de cabeleireiro. Há uma Nerf (metralhadora que dispara balas de esponja) roxa, a Nerf Rebelle – se uma rapariga a usa, só pode ser rebelde; as dos rapazes têm nomes como Elite Sharpfire, Strongman ou Firestrike. A máquina de gelados está ao lado dos estojos de maquilhagem. No final do corredor rosa há duas prateleiras dos chamados “jogos unissexo”: Dá cá um bigode, Cluedo, Ciência Explosiva, Corpo Humano…

A socióloga Elizabeth V. Sweet, da Universidade da Califórnia (Davis), tem vindo a estudar a relação entre brinquedos e questões de género. Com base numa análise a sete mil catálogos de publicidade a brinquedos, conclui que, em 1905, o género desempenhava um papel insignificante; mas que, em 1925 e 1945, cerca de metade dos anúncios tinha essa componente e muitos reflectiam os estereótipos de género. Na década de 70, esses estereótipos foram desafiados por brinquedos mais neutros, mas no final do século XX os níveis voltaram aos de meados do século e emergiram novos mecanismos de marcação do género. Hoje em dia, diz, eles estão mais presentes do que alguma vez estiveram.


“Todos os miúdos têm de negar ou abandonar uma parte de si próprios para encaixarem nestas caixas azuis e rosas”, explica a socióloga Elizabeth Sweet Marco Duarte

Sweet fala no “fosso do corredor azul e rosa” – no dos rapazes há “acção, agressão e excitação”, no das raparigas “ideais de beleza, prestação de cuidados, domesticidade”. O que acontece à menina de seis anos que quer uns binóculos ou um microscópio? Terá de ir a uma zona onde se lê “brinquedos de rapaz” e ficar a saber que não se espera que brinque com aquilo. “O que é que estes corredores dizem a uma rapariga sobre quais devem ser os seus interesses? Ter de ir ao corredor azul procurar um brinquedo semeia uma dúvida”, disse Sweet numa TEDxTalk no ano passado. “Todos os miúdos têm de negar ou abandonar uma parte de si próprios para encaixarem nestas caixas azuis e rosas. Os que recusam pagam um preço elevado”, adiantou. “Milhares de crianças são atormentadas e até agredidas por isso.”

Segundo a socióloga, a investigação revela que “os estereótipos estão na origem dos preconceitos dos adultos” e têm um impacto na forma como se desempenham os papéis. O facto de os estojos de química estarem no corredor azul pode “ajudar a explicar a inferior representação feminina na investigação científica”. O mesmo acontece com os rapazes em relação às profissões relacionadas com a prestação de cuidados. Retirar essa carga de género aos brinquedos permitirá às crianças explorar mais livremente os seus vários interesses.

Tem havido algumas tentativas de acabar com a separação. O facto de a demarcação de género não ser tão acentuada na década de 1970 prova que talvez seja preciso andar para trás. “Aconteceu numa altura em que a sociedade debatia a igualdade de género e como a conquistar… Agora, debatem-se os interesses das empresas… Temos de voltar aos debates antigos.”
Mais radical foi um casal inglês que até o seu filho fazer cinco anos não revelou a ninguém o sexo da criança. Beck Laxton e Kieran Cooper queriam que Sasha não fosse influenciado pelos preconceitos sociais. Não tinha brinquedos que não fossem “livres de género”, alternava as calças com as saias – e assim foi até a criança entrar na primária.

José Guimarães, do Hospital São Francisco Xavier, comenta: “A minha preocupação seria com os pais. Toda a vida houve várias orientações do ponto de vista do género, mas 90% da população tem a sua definida. Temos de encarar com naturalidade: se nasceu um menino, até prova em contrário é um menino. Seria muito confuso para uma criança tratá-la sem esse tipo de diferenciação.”
Isto é muito diferente de não respeitar as tendências de uma criança para um tipo de brincadeira mais conectada com o sexo oposto. “Uma rapariga que se sente muito mais atraída para andar a brincar com os carrinhos, que gosta de andar a correr e saltar e a subir às árvores e em lutas com os amigos, não temos nada que intervir. Tal como com o rapaz que se sente bem a brincar com as raparigas, porque acha que os outros [rapazes] são intempestivos e desassossegados e andam sempre em lutas. Forçar é que não tem justificação.”

José Boavida afirma que “a criança está geneticamente programada para explorar o ambiente” e é assim que se desenvolve. Idealmente, fará isso sem condicionamentos em termos de brinquedos, jogos, ou mesmo roupas. “Mas há uma coisa espontânea. Há uma tendência para um determinado tipo [de brinquedos].” As bonecas para elas, as espadas e pistolas para eles.
E por falar em armas, devemos evitar brinquedos que traduzam violência? “Não sei se é dessa forma que se vai evitar mais tarde que haja tendências para a agressividade. Não tenho a certeza disso. O que se sabe é que a criança, se não lhe dão a pistola, pega num pau com o formato de uma pistola e anda aos tiros.”

José Guimarães fala também do que distingue ambos os sexos: “As raparigas, de uma forma geral, têm um comportamento mais concentrado, mais tranquilo e menos físico, e os rapazes a partir de certa altura têm necessidade de correr, de dispêndio de energia – mas há raparigas que são também muito físicas, isso é normal e não devemos combater nem controlar.”

Menus mais neutros

Em Março, Fernanda Câncio escreveu no Diário de Notícias que a McDonald’s designava os seus menus infantis – os Happy Meals – como “de rapaz” e “de rapariga”; “ao balcão, se não houver pedido em contrário, os empregados entregam as refeições infantis com o brinquedo de acordo com o sexo das crianças”, como o My Little Pony para as meninas e os Transformers para os rapazes, escreveu a jornalista. Isto para além de um questionário diferenciado em que, para a primeira pergunta, “qual o teu maior talento?”, “as opções de resposta para elas são ‘rapidez’, ‘liderança’, ‘criatividade’ e ‘culinária’. No questionário dos rapazes, as duas primeiras opções mantinham-se, mas as duas últimas passavam a ‘trabalho de equipa’ e ‘força’”. A cadeia de fast-food mudou entretanto as suas práticas – agora os empregados têm de perguntar que brinquedo a criança quer em vez de os entregar de acordo com o género.

O assunto levou a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Catarina Marcelino, a afirmar: “Não há brinquedos de menino e de menina. A prática de dividir brinquedos por sexo é uma atitude discriminatória que reforça os estereótipos de género.” E fez João Miguel Tavares escrever uma crónica no PÚBLICO intitulada “O Happy Meal é sexista?”. “O mundo ocidental está a ser tomado por uma fúria normativa que começa a meter medo”, escreveu.


O jornalista João Miguel Tavares fala em “infantilização da sociedade”, em que “o lobo mau não é comido pelos porquinhos”. Mas, lembra, “comer o lobo mau é acabar com o mal”

Agora, por telefone, manifesta-se contra esta “projecção das preocupações dos adultos nas crianças. Há uma espécie de vício das causas fracturantes. Durante muitos anos lutou-se por coisas que valem a pena [como a igualdade para as mulheres, direitos dos homossexuais, aborto, etc.]. Depois, chegou-se a um ponto em que já conquistámos o fundamental, mas estamos viciados naquilo. Tornamo-nos burocratas das causas fracturantes”.

Aceita que a solução encontrada pela McDonald’s é melhor do que a prática anterior. “O problema é que aquilo seja um problema. Tem subjacente a ideia de que a sociabilização e a cultura é totalmente responsável por aquilo que somos, como se não houvesse nenhuma predisposição biológica… É uma visão pouco enriquecedora.”

O jornalista, pai de quatro filhos e autor do blogue Pais de Quatro, considera que “os adultos têm dificuldade em entender o mundo das crianças” e “projectam os seus medos” nelas. O resultado é “uma Disneyficação do mundo”, uma “infantilização da sociedade”, em que “o lobo mau não é comido pelos porquinhos [como na história original] mas foge com o rabo a arder. Mas comer o lobo mau é acabar com o mal” e ter a certeza de que a ameaça não fica a espreitar ao virar da esquina, explica. Não traumatiza as crianças, pelo contrário, dá-lhes segurança.

Onde a coisa não avança

Para Miguel Vale de Almeida, as crianças portuguesas estão ainda longe de viver num ambiente politicamente correcto. “Sobretudo em algumas áreas do ensino, a coisa não avança.” As “grandes narrativas”, como a narrativa histórica, continuam muito longe do que seria politicamente correcto. “Substituímos o discurso do Estado Novo sobre o colonialismo como uma coisa excepcional, diferente dos outros [colonialismos], por uma ideia universalista, humanista, de contacto de culturas, que sendo melhor não fez o trabalho crítico de falar [aprofundadamente] do nosso papel na escravatura, do trabalho forçado, da guerra colonial.”

É verdade que “nas pequenas coisas simbólicas”, como o tipo de personagens que aparecem nos manuais escolares, “a coisa melhorou um bocadinho, por exemplo ao nível da representação racial nos desenhos”, adianta Vale de Almeida. (Recentemente, surgiram várias queixas sobre conteúdos racistas nos manuais escolares, como por exemplo num exercício do Livro de Fichas Alfa – Português – 2.º Ano, da Porto Editora (2015): “Lê as seguintes lengalengas. Coloca os Acentos nas palavras onde faltam/ Truz Truz/Quem é?/É o preto da Guiné…/ O que traz?/ Café.” Noutro livro da Porto Editora, foi a letra da canção A Lenda de El Rei Dom Sebastião, de José Cid e do Quarteto 1111, a visada: “Ciganos vindos de longe/Falcatos desconhecidos/ Tentando iludir o povo/ Afirmaram serem eles/ El Rei D. Sebastião/E que voltava de novo”).

Mas “há uma área onde não mexeu nada mesmo: a área do género”. Os papéis desempenhados pelo pai ou pela mãe, as profissões atribuídas aos homens ou às mulheres, continuam a ser distinguidos como antes. “E há muito pouca coisa sobre diversidade familiar, mesmo a que tenha a ver com os miúdos que só vivem com um dos pais, porque eles são divorciados, para já não falar de famílias de casais do mesmo sexo. Está muito, muito, muito atrasado e há um tabu muito grande.”

Salsichas e buracos

Em Janeiro do ano passado, a Oxford University Press saltou para as notícias por querer impedir qualquer referência a porcos ou salsichas nos seus livros infantis, de forma a não ofender judeus e muçulmanos. “No Reino Unido, tomamos como garantido que não vão ser incluídas referências a sexo, violência ou álcool nos nossos manuais; fazê-lo seria inapropriado e ofensivo para muitos. Para termos um impacto em todo o mundo, há outras sensibilidades que, apesar de não serem necessariamente evidentes para nós, são extremamente importantes para outras pessoas”, escreveu Jane Harley, da editora, no Guardian.

O politicamente correcto passa por neutralizar na terminologia os sinais que nos diferenciam – “não se diz buraco, diz-se orifício”, brinca o pediatra José Boavida. Passa pelo que pode causar desconforto, medo, sentimentos de inferioridade.
Muita gente considera que se está a ir longe demais nestas cautelas. Segundo uma sondagem feita pela empresa de sondagens Rasmussen no ano passado, 71% dos americanos acham que “o politicamente correcto é um problema na América actual”, bem acima dos 58% de quatro anos antes.

Nos Estados Unidos, instalou-se o debate sobre o facto de haver humoristas que se recusam a ir a universidades fazer performances e acusam o politicamente correcto de estar a matar o humor (Jerry Seinfeld, Chris Rock, ou John Cleese). No Verão, estudantes da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, quiseram que fosse colocada na capa de alguns clássicos da literatura uma advertência sobre o “perigo” para o “bem-estar mental” que representam os seus conteúdos, potencialmente causadores de sofrimento, trauma ou angústia.

José Boavida fala da importância do medo. “Estamos a diminuir as capacidades adaptativas das crianças a situações menos agradáveis”, afirma. É certo que é preciso evitar a todo o custo o chamado “stress tóxico” – a “exposição em idade precoce a maus tratos, durante os primeiros dois, três anos de vida”, criando níveis elevados de cortisol, o que tem uma influência negativa no desenvolvimento da estrutura cerebral, inclusivamente das sinapses, explica. Mas há outro tipo de stress, o chamado “stress positivo”, que é fundamental. Desencadeia-se “quando uma criança é sujeita a uma situação menos agradável por períodos curtos de tempo [como levar uma vacina] e quando existe uma relação afectiva com um adulto que exerce um efeito protector. Faz falta à criança para que ela se desenvolva e consiga ganhar defesas para situações menos agradáveis. Privar a criança de tudo o que é desagradável não a prepara seguramente para a vida”. Quanto mais precoce, mais impacto tem no sistema nervoso, desenvolvendo a neuroplasticidade cerebral, explica.

Não contrariar a criança, não lhe provocar este “stress positivo”, cria “uma deformação do ambiente, que permite aos miúdos fazerem tudo o que querem quando querem”, diz Pedro Cabral, director clínico do Cadin (Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil). E isto por sua vez deixa-os “muito insatisfeitos muitas vezes, muito inseguros, sem saber lutar pelas coisas. Quando chegam à idade adulta, não sabem exercer a sua autonomia. Habituaram-se a controlar a situação em casa. Há uma distorção completa do que é o mundo exterior”.

Reconhece que “é uma coisa que me dá que pensar todos os dias: a influência do politicamente correcto nas práticas de intervenção em pediatria e desenvolvimento. De que maneira isto pode estar a distorcer a nossa visão das coisas?”. Por exemplo, os castigos. Há agora “o dogma” de não castigar as crianças. Para Pedro Cabral, isto traz duas consequências. “Primeiro, faz colapsar a estrutura familiar”, porque anula a hierarquia. “A separação de gerações é muito importante e foi a primeira vítima do politicamente correcto porque impede os pais de exercer a sua autoridade em casa. Põe os pais numa camisa de forças e põe os miúdos a funcionar ao mesmo nível que os pais… O miúdo sabe que não existe diferença de gerações e pode dizer: ‘Eu não faço porque não quero fazer.’ Vai replicar lá fora [na escola, por exemplo] um comportamento que em casa já nem precisa de ter.”

Tentar fazer só o que se quer “é uma coisa muito biológica: todos nós procuramos o prazer, a saciedade e o bem-estar e fugimos do desprazer. Saber adiar a procura do desejo é fundamental para conseguirmos aprender, estudar, fazer exames”, adianta Pedro Cabral. “A criança tem de perceber que para ter uma coisa, um bem ou até uma pessoa para amar, precisa de prescindir do imediato. O adiamento da satisfação, do prazer, é fundamental na sua aculturação.” Quando isso não acontece? “Vemos pessoas que são excelentes naquilo que gostam de fazer e não querem saber de mais nada, que são muito pouco solidárias e incapazes de construir soluções em situação de adversidade. São uns eternos insatisfeitos.”

Uma questão geracional?

A revista Forbes (conservadora) escrevia em Junho do ano passado que as políticas politicamente correctas estão a ser acompanhadas de uma crescente “cultura de vitimização” que transcende a ideologia. Tornou-se mais sobre a protecção das sensibilidades do indivíduo do que sobre a defesa de certos grupos. Passou de um debate centrado na liberdade de expressão para integrar agora algumas formas de censura, segundo os seus críticos.

Será uma questão geracional? Porquê este regresso em força do politicamente correcto? A Forbes refere que uma das razões foi a emergência das redes sociais, “cuja velocidade e enorme alcance ampliou um ciclo infindável de raiva que recompensa as vozes mais estridentes”.

Mas, sobretudo, há a emergência de uma geração que cresceu a ouvir falar de tolerância e inclusão nas salas de aula – o mesmo espaço onde antes se exigia liberdade de expressão e agora se reclama por censura a livros ou humoristas. “Os millenials [nascidos no início dos anos 1980 até 2000] encaram o politicamente correcto não tanto como um posicionamento mas como uma forma de vida”, que inclui “cruzadas pela segurança emocional” de cada elemento.

A ministra alemã da Família, Kristina Schroeder – que defendeu que Deus não deve ter género –, criticou um dos livros Pipi das Meias Altas, de Astrid Lindgren, que se refere a um personagem como “preto”. Vários clássicos da literatura infantil – incluindo os contos tradicionais reunidos pelos irmãos Grimm há 200 anos – estão a sofrer alterações por se considerarem desadequados ou terem partes consideradas demasiado violentas. Algumas editoras, mantendo os termos ou passagens polémicos, optam por notas de rodapé para explicar que a terminologia original já não é utilizada.


corbis

Jacques Schuster escreveu num editorial do Die Welt: “Porque é que não hão-de ser os pais a escolher aquilo que lêem aos filhos”, fazendo eles essa selecção? “Uma pessoa que ache que a arte deve ser alterada porque contradiz a moralidade prevalecente deve ter ficado contente quando os taliban destruíram os budas de Bamiyan.”

Num blogue do Huffington Post, BJ Gallagher, autor de livros sobre a diversidade, escrevia que “o movimento do politicamente correcto foi longe demais” e que, apesar de as suas intenções iniciais serem positivas – evitar que se firam sensibilidades sobre raça, género, orientação sexual, capacidades físicas… –, o efeito agora é “simplesmente evitarem-se esses assuntos e, consequentemente, impedindo-nos de nos sentirmos confortáveis vivendo e trabalhando com aqueles que são diferentes de nós”. Adianta que, “nos dias que correm, as pessoas têm tanto medo que lhes chamem ‘sexistas’ ou ‘racistas’ ou ‘anti-semitas’ que andamos cheios de rodeios ao falar de temas como a diversidade e a evitá-los sempre que conseguimos”. E questiona: “Se não podemos falar das diferenças que nos intrigam, ou das coisas sobre as quais temos curiosidade, sem medo de sermos ofensivos, então como poderemos ultrapassar a nossa ignorância sobre culturas e raças – ou até sobre o sexo oposto?”

João Miguel Tavares também considera que a onda do politicamente correcto “está a ter um impacto grave na liberdade de expressão, de as pessoas poderem dizer aquilo que querem”. E a esquerda, que fazia da liberdade de expressão uma bandeira, tem aqui as suas responsabilidades por causa dos tais “burocratas das causas fracturantes”, denuncia. O politicamente correcto (que nos EUA já é referido simplesmente pela sua sigla, PC) espelha uma “absolutização do nosso lugar no mundo: acha que somos nós, e a sociedade, que define e condiciona tudo o que acontece” a uma criança. “É colocar-nos no papel de Deus. Sabemos que não temos esse controlo. Tanto o argumento de que tudo é natural é absurdo, como é o seu contrário – já nada é natural, genético.”

Já em relação a questões de racismo, por exemplo, a situação é distinta e o meio desempenha um papel fundamental. A linguagem que se usa em casa é determinante. “Há uma diferença gigante da minha geração para a dos meus filhos. Aí, os pais têm uma enorme responsabilidade.” Em todo o caso, talvez este não seja o exemplo de discriminação que vale a pena debater. “A distinção de classes é que dura muito, é muito menos falada e muito dificilmente ultrapassada. Os pais estão mais preparados para ter na família um negro, um chinês, um gay. Mas a sua menina, que andou na faculdade, casar com um tipo das obras? Isso é que não.” É um fosso que “há-de ser ultrapassável, mas é dificílimo”.

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