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Curadoria de conteúdos

Para acabar de vez com a Cultura

Miguel Guedes, in https://www.jn.pt/opiniao/miguel-guedes/interior/para-acabar-de-vez-com-a-cultura-9232450.html

A Cultura, essa coisa das artes num país miseravelmente assimétrico. Tantas vezes encarada como o reflexo menor do pão para a boca, como algo que se alimenta por autojustificação contorcionista a fazer caminho directo dos olhos para o umbigo. Com a sua barriguinha nova-rica e macrocéfala, o centralismo continua a olhar para a Cultura como o parente pobre das dotações, sem cuidar da criação em diversidade, da autoria e da interpretação porque do respeito só sabem da écharpe, sempre o seu pano de fundo para o jugo saloio que intimamente acha que o território só permite a coesão à medida da dimensão da metrópole onde mora ou que tem por vizinha. Até na Cultura, para essas almas uma espécie de segunda vida para um bem de segunda espécie, partimos o país em tranches ceifadas à distância. Sem proximidade ou conhecimento da realidade, com a displicência e a arrogância do costume. Às vezes com sensação de gozo. Pela incompetência, desinvestimento e incompreensão que o poder político veta os seus agentes culturais se percebe a dimensão do desprezo do país pelo seu futuro e identidade.

O reforço orçamental já anunciado pelo Ministério da Cultura é insuficiente. É insustentável não recuperar os valores de financiamento de 2009. Os critérios de avaliação de quem decide à distância têm de mudar. A Cultura não pode continuar a ser uma arma de reforço da falta de coesão territorial (vejam-se as enormes disparidades regionais nos apoios ao Teatro, à Música ou às Artes Visuais, onde a Área Metropolitana de Lisboa continua a receber assustadora e incompreensivelmente mais per capita). Financiamento zero no Porto para o TEP, FIMP, FITEI, Seiva Trupe, entre tantos outros. Em Évora, Coimbra, Setúbal… Tudo fora dos prazos e do tempo. Figuremos mandrágoras na Ponte das Barcas. O debate no Rivoli em boa hora convocado por Rui Moreira, fruto da insatisfação que grassa unanimemente no país, abre uma porta de louvor à arte que nenhum artista pode trair ou deixar amolecer. Mesmo que a arte seja já a seguir, é tempo agora de exigir o óbvio.

No livro de Woody Allen, título destas linhas, somos confrontados com a Morte em personagem que, indo ao encontro da sua próxima vítima, se depara com um jogador exímio em lhe ganhar mais uns dias de vida. Quando a dotação orçamental à Cultura resultante do Programa de Apoio Sustentado 2018-2021 da Direcção-Geral das Artes está infectada pela crónica insuficiência de verbas e por critérios decisórios absurdos – que só têm a enorme virtude de tornar evidente a sua brutal incapacidade -, pergunto-me se caberá aos artistas portugueses negociar mais umas verbas, cenouras maiores num simulacro de redistribuição ou partir, desde já, para outro patamar de exigência e justiça que, de uma vez por todas, deixe de negociar dias com a Morte.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

* MÚSICO E JURISTA

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O abismo sem fundo da nova selva

O que surpreende é a prolongada cegueira em que Estados e cidadãos têm vivido sobre o que talvez constitua a mais grave ameaça aos direitos civis desde o advento da Internet.

Fonte: https://www.publico.pt/2018/03/25/mundo/opiniao/o-abismo-sem-fundo-da-nova-selva-1807964

Permitam-me uma autocitação do que aqui escrevi em 17 de Agosto passado: “Não frequento as redes sociais por uma questão de liberdade individual e higiene mental face aos vírus propagados através dessas redes: a histeria comunicacional, as fake news, os abusos do anonimato e da identidade alheia, os insultos pessoais, os delírios ideológicos ou propagandísticos. Mas não contesto nem a sua existência — seria um absurdo! — nem o direito à sua utilização responsável, embora se trate de um universo onde predomina a lei da selva e para o qual só agora começa a colocar-se a necessidade de normas e regulação básicas.”

Sete meses depois, o escândalo da piratagem feita pela empresa Cambridge Analytica aos dados pessoais de dezenas de milhões de utilizadores do Facebook para efeitos de manipulação da campanha presidencial americana e, também, da campanha do “Brexit” no Reino Unido, não tem, afinal, nada de surpreendente. O que surpreende, sim, é a prolongada cegueira e o estado de negação em que Estados e cidadãos têm vivido sobre o que talvez constitua a mais grave ameaça aos direitos civis, leis e regulamentos internacionais (incluindo ao nível fiscal), desde o advento da Internet e a revolução que provocou em todo o mundo. Porque é que isso aconteceu — e pôde continuar a acontecer, já depois de não restarem quaisquer dúvidas sobre a natureza e dimensão dessa ameaça — é aquilo que deveria preocupar-nos e assustar-nos a todos. Mas permitam-me algum cepticismo sobre a capacidade e a vontade real das instituições e indivíduos que prezam a liberdade e os valores civilizacionais da democracia poderem desmontar, com a rapidez e eficácia indispensáveis, as engrenagens diabólicas que nos vêm tornando reféns das novas distopias e vírus totalitários que se expandem à escala global. Não é por acaso, aliás, que a democracia é um valor em queda acentuada através de um mundo cada vez mais povoado de Trumps, Putines, Jinpings, Erdogans e tantos aprendizes de feiticeiro autoritário-populistas.

Temos assistido nos últimos dias, depois das revelações sobre o caso da Cambridge Analytica, a uma sucessão de episódios em que múltiplas instâncias internacionais, dos Estados Unidos à Europa, se movimentaram para exigir a retractação dos culpados pelo que aconteceu, incluindo o jovem génio criador do Facebook, Mark Zuckerberg, cuja empresa foi fustigada por uma queda acentuada nas bolsas. E não faltou sequer um movimento de rebeldia de muitos utilizadores abandonando a inscrição na rede e antigos funcionários — também da Analytica — denunciando práticas tardiamente descobertas. Entretanto, fiel a uma postura já clássica e depois de um prolongado silêncio, Zuckerberg apareceu a penitenciar-se do escândalo e prometer corrigir o erro (um velho hábito seu) mas sem questionar o essencial: o modelo de negócio que faculta aos anunciantes sem escrúpulos os dados pessoais dos utilizadores da rede para fins inconfessáveis (embora finalmente revelados) e permite aos jovens empreendedores de Silicon Valley tornarem-se multimilionários da noite para o dia, na vanguarda da lista da Forbes (Zuckerberg é, para já, o quinto). O gangsterismo cibernético é apenas uma versão hiper-sofisticada mas por isso muito mais letal do que o gangsterismo mafioso tradicional.

O Facebook não vota por nós nas eleições, é certo, mas pode ser cúmplice da manipulação que vicia os resultados eleitorais — e, nessa medida, substitui-se à vontade livre e soberana dos cidadãos. Quando o génio, Zuckerberg ou outro, escapa da lâmpada, é muito difícil (senão quase impossível) fazê-lo regressar. Pelo menos, num mundo que se instalou no deslumbramento e na impotência face a essa nova genialidade empresarial e às ferramentas mágicas que ela criou — e das quais se tornou refém. O abismo da nova selva não tem fundo.

Para quê tirar um curso superior?

Fonte: http://observador.pt/opiniao/para-que-tirar-um-curso-superior/

 

Apenas metade do impacto do ensino superior no bem-estar resulta directamente do aumento do rendimento. A outra metade vem de factores como a saúde, a confiança interpessoal e a percepção de segurança

 

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Passos Coelho não é racista, o seu preconceito é outro

http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/pedro-tadeu/interior/passos-coelho-nao-e-racista-o-seu-preconceito-e-outro-8706053.html

 

Pedro Passos Coelho disse num comício do seu partido que Portugal não é lugar para “qualquer um viver”. Não, não vou acusá-lo de ser racista ou de ter um discurso xenófobo, apesar de a frase ter sido dita num contexto de crítica a uma nova lei sobre imigração e, por isso, poder soar a um insulto contra estrangeiros. Essas acusações contra Passos são bem capazes de ser injustas (ou pelo menos eu quero crer que sim) e a minha pergunta, neste momento, é outra: para além dos portugueses que já vivem em Portugal (presumo que o líder do PSD não pense em excluir algum, independentemente da ascendência, sexo, raça, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual), quem são as outras pessoas que Passos Coelho acha que têm direito a viver no nosso país?

Temos uma resposta nuns novos imigrantes criados pelo seu governo, pelo executivo do seu partido coligado com o CDS: os imigrantes beneficiários dos chamados vistos gold, pessoas que investem pelo menos meio milhão de euros a comprar uma casa (mesmo que ela valha, na realidade, metade desse valor) ou transfiram para o país pelo menos um milhão de euros (mesmo que não se conheça claramente a origem desse dinheiro), criando com esse investimento um mínimo de dez postos de trabalho (cuja qualidade e perenidade não é, sejamos francos, seriamente avaliada).

Este sistema já criou processos judiciais, ainda em curso, com antigos governantes e autoridades nacionais, em vários níveis de responsabilidade, a serem suspeitos de corrupção por concessão, fora da lei, dessas licenças de imigração.

A probabilidade, entretanto, de vários dos quase (estimo com base nas notícias de jornais) dez mil licenciados com uma autorização de residência em Portugal e de circulação livre pela União Europeia terem comprado, graças àquela lei, esses direitos para praticarem crimes é quase inevitável. As possibilidades são imensas e vão desde o óbvio “lavar” de dinheiro “sujo” até ao acesso a um área gigantesca, sem fronteiras e com dinheiro, para traficar, com maior facilidade, todo o género de coisas ilegais, dando espaço para o crime sofisticado e organizado (e até, eventualmente, cúmplice do terrorismo) explorar um novo filão.

Dir-se-á que não há medida de abertura à imigração que não traga o perigo da criminalidade, que os justos não devem pagar pelos pecadores e que os benefícios para o país de medidas como a dos vistos gold ultrapassam largamente os prejuízos que estes “efeitos colaterais” que descrevo possam trazer… Sou capaz de estar de acordo com tudo isso mas, se olhar para o que Passos Coelho disse no Pontal, no último fim de semana, o criador, com Paulo Portas, da lei dos vistos gold em Portugal não pode subscrever essas teses. Porquê?…

Vamos ler o que ele disse: “Porque é que não discutem na sociedade portuguesa as implicações que para a segurança do país a médio e longo prazo isso pode trazer? Da mesma maneira pergunto: o que é que vai acontecer ao país seguro que temos sido se esta nova forma de ver, a possibilidade de qualquer um residir em Portugal, se mantiver?”

Na altura da entrada em vigor da lei dos vistos gold, no início de 2013, não faltou gente a alertar Passos Coelho para o problema de criminalidade que este tipo de imigração certamente atrairia: além de muitos políticos, vários colunistas escreveram sobre o assunto. Pois nessa altura o então primeiro-ministro não quis “discutir na sociedade portuguesa as implicações que para a segurança do país a médio e longo prazo isso pode trazer?”. E muito menos se perguntou sobre o que pode acontecer ao nosso “país seguro”.

Passos Coelho não esteve preocupado com os criminosos que viriam viver para Portugal quando aprovou a lei dos vistos gold. Agora diz estar em causa a segurança do país com as novas regras para a imigração. Na primeira lei ignorou os efeitos colaterais. Na segunda lei só vê efeitos colaterais.

Se o que diferencia os imigrantes dos vistos gold dos imigrantes da nova lei da imigração, que transpõe uma diretiva comunitária, não é a raça ou local de origem (vêm, em ambos os casos, pessoas de todo o lado) nem o serem ou não criminosos (como já se viu), o que é que leva Passos Coelho a aceitar facilmente os primeiros e a ter receio do que possa acontecer com os segundos?

Para Passos Coelho a diferença entre a lei dos vistos gold e a nova lei da imigração, como é óbvio, não é a raça, é o dinheiro.

O líder do PSD não se importou de liberalizar a imigração de ricos, mesmo se isso facilitasse a vida a alguns criminosos, mas a imigração de pobres é coisa que o aborrece, e aí a questão da segurança já lhe serve de pretexto para a tentar impedir. Isto não é mesmo racismo nem é xenofobia, isto é preconceito contra os pobres.

Astor Piazzolla – Libertango

Oblivion (Piazzolla)

Viral Photo Confirms Nutella Is Really Bad, But We Have a Healthy Solution

http://www.health.com/food/nutella-ingredients?xid=socialflow_facebook_health

No matter how much we hope and pray that Nutella has some hidden health benefit, the reality is, the delicious chocolate-hazelnut spread is simply not that great for us (sigh). Now a new viral photo has made that fact inescapably clear.

Reddit user MrFlow posted the image below with the caption “What Nutella is actually made of.” It shows Nutella’s top five ingredients layered in the jar.

Sugar takes up nearly half(!) the container. Palm oil, which is high in saturated fat, is the second most abundant ingredient. Skim milk powder, cocoa, and hazelnuts fill up the rest of the jar. (Missing are the emulsifier lecithin and the artificial flavor vanillin.)

We know this image is unverified, but it’s likely not far from the truth. There’s no question the spread is loaded with sugar and fat. And the striking visual is a good reminder to enjoy the beloved treat in moderation.

To satisfy your Nutella cravings, try whipping up our yummy Nutella alternative instead: The recipe calls for one avocado, raw cacao powder, maple syrup, vanilla extract, a pinch of salt—and that’s it. See how it’s made in the video below.

//players.brightcove.net/1125866826/default_default/index.html?videoId=5367080652001

You can smear this low-sugar spread on toast or apple slices; or use it as the filling in whoopie pies or s’mores. With nutritious, fiber-rich avocado as the main ingredient, the fudgy frosting is a treat you can feel good about.

http://www.health.com/food/nutella-ingredients?xid=socialflow_facebook_health

O primeiro dia do resto da vida do DN

“Jornalismo independente, mais essencial do que nunca” é o novo slogan do The New York Times.

Fonte: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/pedro-marques-lopes/interior/o-primeiro-dia-do-resto-da-vida-do-dn-5580251.html

01 DE JANEIRO DE 201700:00

A frase diz muito sobre os tempos que atravessamos. Naquilo que diz respeito ao tipo de informação que está a moldar as opiniões e as condutas dos cidadãos, mas também sobre como o jornalismo olha para si mesmo.

O que salta logo à vista é a qualificação do jornalismo que o NYT vê como essencial: o independente. Há uns anos, não tantos como isso, a ninguém ocorreria a necessidade de dizer que o jornalismo devia ser independente. Era e é da própria essência do jornalismo sê-lo. Marcado, claro está, sempre pelos olhos de quem o faz, mas sem faltar à verdade, aos factos, à realidade.

O slogan do NYT parece conceder que há outro tipo de informação e que, de forma indireta, define como jornalismo. Não faltam textos, teses universitárias, ensaios de autores mais ou menos conceituados a discorrer sobre a essência do jornalismo e sobre se novas formas de comunicar cabem ou não no conceito. Não percebo a confusão entre meio e mensagem. Também é possível que se refira à opinião. Não na forma como nos habituamos a vê-la – como uma leitura sobre factos – mas naquilo em que se está a transformar: uma construção da realidade, como se fosse aceitável alguém dizer que uma parede é branca quando é preta, como se fosse legítimo chamar a um calhau um livro.

Li um comentário que perguntava como era possível o NYT pedir para que se apoiasse o jornalismo independente quando o jornal tinha abertamente declarado o apoio a um candidato nas eleições americanas. Claro que é possível a um jornal declarar o seu apoio a um candidato e não transigir com as normas do jornalismo, mas, mais uma vez, há nesse comentário um sinal dos tempos. Os cidadãos parecem olhar para toda a atividade, seja política, económica ou jornalística, como um campo de batalha em que cada qual escolhe a sua trincheira. Nessa luta, a verdade é meramente instrumental, os factos pouco importam. Este tipo de visão da comunidade não é novo, era e é bastante comum nos movimentos radicais. O que é recente é ter-se alargado a tantos cidadãos e à forma como eles veem o mundo: a verdade não existe e a opinião transforma-se num facto ao serviço dum dado objetivo.

Há outra forma de ler o slogan do NYT – a correta, acredito. Uma maneira de chamar à atenção do leitor da premência da independência no financiamento dos órgãos de comunicação social. Só os cidadãos de forma individual, através da compra do jornal, podem assegurar o verdadeiro jornalismo. Não há independência quando um meio de comunicação social não garante a sua sobrevivência através das vendas – que, depois, criam as receitas publicitárias. Um jornal ou uma televisão que dão sistematicamente prejuízo serão sempre vistos, justa ou injustamente, como ao serviço de causas que não o jornalismo.

Numa época em que não falta informação, o paradoxo é a ausência de informação de qualidade. Melhor, o desprezo por marcas que historicamente são garante de seriedade, de análise fundamentada, de compromisso com a verdade. Não espanta que a crise dos mediadores de informação – e o jornalismo está longe de ser caso único, basta ver a sanha com que os populistas atacam as chamadas elites intelectuais – coincida com a crise que a democracia vive. Estão profundamente ligadas. Os fenómenos populistas não florescem apenas por a democracia tardar em encontrar soluções para a falta de expectativas, por existir o sentimento de que falta democracia económica. As respostas simplistas que gente como Trump, Farage, Le Pen e outros têm para as populações partem duma sementeira de mentira. Quem tem, em primeiro lugar, de os denunciar é quem tem um compromisso com a verdade: o jornalismo. A questão está num nível superior ao da política, tem que ver com valores essenciais numa comunidade que vão para além de opções ideológicas, de direita ou de esquerda. Não é por acaso que as campanhas dos populistas combatem com mais tenacidade os media do que os seus opositores políticos, como não espanta que gastem muito dinheiro em propagar falsidades através das redes sociais e de canais de televisão e jornais que a decência não permite chamar órgãos de comunicação social. O objetivo é muito menos difundir mentiras e muito mais desacreditar o jornalismo.

O fim do jornalismo como guardião da verdade, da busca dos factos, liberto das amarras do poder político ou económico será o fim da democracia. Somos nós que temos de decidir que informação e que mediação. Se nos achamos capazes de entender todos os fenómenos e as suas implicações. Estamos em tempos de escolhas como há muito tempo não estávamos, e que não existam dúvidas: é só nossa a decisão de querermos ou não quem nos ajude a ler o mundo, jornais e gente a quem reconhecemos estudo e dedicação a assuntos a que não queremos ou não podemos dedicar tempo. Se continuarmos pelo caminho que estamos a seguir, serão outros a decidir por nós, populistas, empresários pouco escrupulosos e, no fim, ditadores.

Hoje, é o primeiro dia do resto da vida do Diário de Notícias. Mais do que os profissionais deste jornal que falharão e acertarão, mas que são gente com um compromisso com o verdadeiro jornalismo. É você, caro leitor, que decidirá o nosso futuro. Mas não se esqueça, estamos juntos neste caminho.

Richard Stallman não tem Facebook nem telemóvel. Em nome da democracia – Renascença

ENTREVISTARichard Stallman não tem Facebook nem telemóvel. Em nome da democracia21 dez, 2016 – 06:00 • Elsa Araújo RodriguesUm dos maiores programadores de todos os tempos, Richard Stallman é activista do software livre, contra os programas de código fechado “tipicamente desnonestos” e com “funções maliciosas que são desenhadas para maltratar o utilizador”.Stallman diz que vivemos “o sonho de Estaline”. Foto: WikipediaImagine viver sem conta no Facebook ou no Instagram. Agora imagine que também não tem telemóvel, não utiliza programas de computador tão comuns como o Word ou o Excel. Para a maioria das pessoas, as coisas acabaram de ficar um pouco mais difíceis.Este é o estilo de vida de Richard Stallman, um norte-americano de 63 anos reconhecido como um dos maiores programadores de todos os tempos. Há quem lhe chame o evangelizador do software livre, pela forma como manifesta as suas opiniões: chegou a caracterizar os dois sistemas operativos mais utilizados no mundo – Windows e OS X – como malware.A Renascença falou com Richard Stallman entre duas palestas em Lisboa, uma no ISCTE e outra na Web Summit. Esteve em Portugal a promover uma fundação em prol de programas de computador “verdadeiramente livres” e pediu à audiência que não coloque fotografias dele no Facebook, porque é “má ideia”. Define-se como um “resistente à vigilância”, porque a vigilância constante está a pôr a democracia em risco.Há mais de 30 anos iniciou o projecto de criar um sistema operativo complemente livre, sem qualquer tipo de custo para o utilizador. É programador informático e defensor do software livre. Que causa é esta a que se dedica de forma tão ferrenha?O software livre respeita a liberdade dos utilizadores. É software que não maltrata os utilizadores, do ponto de vista ético. Um programa oferece sempre duas possibilidades: ou os utilizadores controlam o programa ou o programa controla os utilizadores. Não há nenhuma outra possibilidade. Quando um programa é livre, significa que os utilizadores têm o controlo total sobre o programa. Em geral, são programas que fazem aquilo que os utilizadores querem que eles façam e respeitam a liberdade dos utilizadores.Concretamente, o que significa esta liberdade?Significa que o programa concede ao utilizador quatro liberdades essenciais: a liberdade de correr o programa da forma que entender e com objectivo que quiser. A liberdade de poder estudar o código-fonte do programa, ou seja, os planos que o programador utilizou para o criar e poder alterá-lo. Assim, cada utilizador pode definir livremente o que cada uma das suas cópias do programa pode fazer. Claro que a maioria dos utilizadores comuns não são programadores, por isso é preciso que o programa dê a liberdade aos utilizadores de trabalharem juntos para alterar o programa. Um programa realmente livre também permite fazer cópias quer dos originais, quer dos programas alterados. Só assim é que se pode trabalhar em conjunto nos programas.A maioria dos programas que conhecemos e usamos todos os dias não permite cópias legais.Exacto, não são realmente livres. Quando um programa não fornece estas liberdades, o utilizador não o controla, o programa controla o utilizador, e o proprietário controla o programa. O proprietário é normalmente uma empresa e essa entidade é que controla o programa, que, por sua, vez controla os utilizadores. Os programas que não são livres dão às empresas um poder injusto sobre os utilizadores. O software que não é livre é uma injustiça e, por isso, livrei-me dele na minha vida. E aconselho a todos que o façam.Para um utilizador comum de computadores é viável utilizar apenas software livre devido aos maiores conhecimentos informáticos que é preciso ter?Isso não é verdade. O software livre não é difícil de usar. Os utilizadores não precisam de ser programadores para o usar, mas é preciso que quem queira alterá-lo o possa fazer. O software livre não é mais difícil de utilizar que o software proprietário, mas como é controlado pelos utilizadores, os utilizadores podem ter a certeza que é honesto. O software proprietário é tipicamente desonesto, tem funções maliciosas que são desenhadas para maltratar o utilizador. Podem espiar e impedir o utilizador de fazer coisas. Coisas que, se calhar, o programa até tem capacidade para fazer, mas que a empresa não quer que ele faça. E muitos destes programas têm uma porta das traseiras (“backdoor”). Isto significa que a empresa pode decidir enviar um comando ao programa e ele executa uma acção que pode prejudicar o utilizador.Este tipo de prática é frequente? Pode dar um exemplo?Já vimos isto acontecer várias vezes. Por exemplo, a Amazon colocou uma porta das traseiras no seu leitor de livros electrónicos que lhe permitia apagar os livros dos leitores de forma remota. Sabemos disto porque, em 2009, muitas pessoas viram a Amazon a apagar remotamente milhares de cópias de um livro em particular. Foi um acto “orwelliano”. E sabe que livro foi? Foi o “1984”, de George Orwell. Foi de u

Fonte: Richard Stallman não tem Facebook nem telemóvel. Em nome da democracia – Renascença

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