Não sou ateu. Sou apenas agnóstico. E não por uma qualquer razão de moralidade hipócrita ou interesseira — até porque os meus princípios de moralidade oscilam entre as máximas utilitaristas e o Imperativo Categórico de Kant. Simplesmente, a ausência de provas da existência de Deus junta-se à ausência de provas da inexistência de Deus. Assim sendo, não posso não ser crente na Sua existência e ser crente na Sua não-existência. Ou, como diria de uma forma sublime Carl Sagan, talvez em “Cosmos” (ou seria n’Os dragões do Éden?), “a ausência de prova não faz prova de ausência”.
Mas cultivo, tanto quanto posso, o pensamento crítico. Chamemos-lhe Filosofia, se preferirem. Para mim, é indiferente.
Ora, sucede que o pensamento crítico parece ser, cada vez mais, um alvo a abater nesta sociedade supostamente pós-moderna e relativista. Há vários casos a apontar, mas fiquemos apenas neste, para já: a discussão evolucionismo X criacionismo.
Não se trata de discutir os argumentos filosóficos de cada uma das teorias — não sei até que ponto devo chamar “filosóficos” a argumentos vindos de uma doutrina que prega o obscurantismo… Trata-se apenas de exprimir o meu desagrado pelo facto de o Criacionismo ser ensinado nas escolas públicas portuguesas e, consequentemente, ser pago com o dinheiro dos meus / nossos impostos. A coberto da disciplina de Educação Moral e Religiosa Evangélica, ensina-se às criancinhas uma pseudo teoria científica como se a explicação religiosa estivesse em pé de igualdade com a explicação científica. E não está, como é óbvio.
Naquilo que parece cada vez mais ser uma ofensiva obscurantista e anti-laicidade por parte de diversas religiões, nomeadamente a mui conservadora Igreja de Roma, o Criacionismo é ensinado nas escolas públicas a par das doutrinas científicas como se ambas as coisas fossem teorias – quando não o são – ou ambas fossem explicações igualmente válidas – quando não o são – acerca da origem da vida na Terra.
Cada um é livre de acreditar no que quiser: que o Homem nunca foi a Lua, que Eva teve 900 filhos de Adão, que uma Virgem engravidou de uma Pomba, que Deus disse “Fiat Lux” e depois meteu uns anitos de férias ou qualquer outra coisa. Mas não é legítimo, em nome desse relativismo cultural e do “direito à diferença”, que isto passe a ser uma república de bananas em que qualquer coisa pode ser ensinada nas escolas impunemente.
O fanático e fundamentalista religioso George Bush bem pode pretender que o Criacionismo seja colocado nos pratos da mesma balança juntamente com o Evolucionismo; mas enquanto existirem seres humanos pensantes, saberemos seguramente distinguir os domínios da fé dos da razão.